{"id":140,"date":"2025-06-24T00:24:33","date_gmt":"2025-06-24T00:24:33","guid":{"rendered":"https:\/\/sentidospartilhados.com\/?p=140"},"modified":"2025-06-24T02:29:32","modified_gmt":"2025-06-24T02:29:32","slug":"um-ponto-no-horizonte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sentidospartilhados.com\/?p=140","title":{"rendered":"Um ponto no horizonte"},"content":{"rendered":"\n<p>Uma hist\u00f3ria de amor na Serra<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong><em>PARTE I<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 Dezembro e faz um frio que gela os corpos.<br>Estamos numa aldeiazinha do interior, na encosta da Serra da Estrela.<br>Tem poucas casas esta pequena aldeia. No centro, abre-se um grande largo, com uma linda fonte, onde jorra \u00e1gua noite e dia.<br>\u00c0 volta dessa fonte, alinham-se uns banquinhos de pedra, gelados, mas as pessoas da aldeia n\u00e3o sentem o frio da pedra, porque quando por ali v\u00e3o sentar-se, \u00e9 o calor humano dos vizinhos e amigos que encontram, pois a\u00ed encontram sempre algu\u00e9m que as espera para dois dedos de conversa. E, logo ao lado, t\u00eam a igreja onde o seu confessor as espera.<br>Ocupam, assim, o vazio que a solid\u00e3o lhes deixa nas suas vidas.<br>\u00c9 ali naqueles modestos bancos de pedra que com amigas e amigos, saboreiam o conv\u00edvio dos dias e revivem o passado.<br>Nas lojas do largo da pequena aldeia, os comerciantes tentam vender aos visitantes, artigos t\u00edpicos da Serra da Estrela, uma recorda\u00e7\u00e3o da Serra, v\u00e1 l\u00e1\u2026\u201d e assim passam a vida a criar, com produtos, recorda\u00e7\u00f5es de dias felizes.<br>A pequena igreja, toda pintada de branco, cuidada com muito carinho, est\u00e1 rodeada por um jardim com flores, plantadas com amor, regadas com a paix\u00e3o das gentes da terra e, com os seus cheiros e sua beleza, enfeitam esse lugar sagrado que transmite paz e sossego.<br>Nessa pequena aldeia, vive Maria com os seus familiares; a tia e os primos, fam\u00edlia que a adoptou ap\u00f3s a morte dos pais, num acidente de via\u00e7\u00e3o, quando Maria mais precisava deles, na idade em que as d\u00favidas assaltavam a sua mente e come\u00e7avam os porqu\u00eas:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>\u201cQuem sou eu? \u201c afinal a pergunta que todos fazemos quando somos jovens.<br>Quando Maria se interrogava sobre a sua inf\u00e2ncia, sobre o seu corpo, a sua sexualidade, a sua vida social; na idade em que os sentimentos brotam em fluxo, sem pensar, nem medir consequ\u00eancias; na hora em que um conselho duma m\u00e3e vale por trinta presen\u00e7as amigas, Maria ficou s\u00f3, ficou sem os pais.<br>Ap\u00f3s o funeral, a tia e os primos, que vivem nesta aldeia, foram busc\u00e1-la, porque a mi\u00fada era da fam\u00edlia e sendo eles os seus \u00fanicos parentes, n\u00e3o queriam que fosse abandonada \u00e0 m\u00e1 sorte, na rua ou numa qualquer indiferente institui\u00e7\u00e3o e levaram-na para junto deles.<br>Mas a vontade de Maria ficou paralisada, porque, saindo de sua casa podia perder algo que n\u00e3o tinha, mas que no seu cora\u00e7\u00e3o sabia ser seu; Pedro, o rapaz que ajudava o pai na lojinha da esquina da rua principal da aldeia, junto ao jardim municipal, o rapaz que punha o seu cora\u00e7\u00e3o a saltitar, que fazia Maria inventar algo para comprar, s\u00f3 para o poder ver, senti-lo sem o tocar e olhar para ele sem ele se aperceber. S\u00f3 que Maria n\u00e3o sabia que Pedro sentia o mesmo que ela, s\u00f3 que a timidez n\u00e3o o deixava demonstrar.<br>Mas como tudo na vida tem um fim, os seus encontros acabaram com a ida de Maria para essa aldeia da Covilh\u00e3.<br>Sem que disso se apercebesse, tal era a dor sentida pela perda dos pais, ela n\u00e3o sabia que a sua vida se ia transformar, a sua fam\u00edlia iria ser outra, apenas sabia que estava sendo arrastada pelo infort\u00fanio.<br>Mas isso j\u00e1 foi h\u00e1 muitos anos e hoje \u00e9 dia de alegria na fam\u00edlia, porque o noivado da sua prima Joana, a sua melhor amiga, vai chegar ao fim, com o casamento aprazado para a v\u00e9spera do dia de Natal.<br>L\u00e1 fora, as crian\u00e7as brincavam na neve, com a alegria estampada nos seus pequenos rostos e faziam Maria recordar a sua inf\u00e2ncia, quando feliz, ela brincava com os seus pais, os seus amiguinhos, as brincadeiras no mar, a correria da sua m\u00e3e sempre atr\u00e1s de si, porque ela era uma crian\u00e7a rebelde, mimada, mas meiga, e tinha o mundo a seus p\u00e9s, esse mundo que lhe fugiu de um momento para outro, esse mundo que ruiu com a perda dos pais, com o afastamento do seu amor, o Pedro, e hoje, com a casamento de sua prima amiga e dilecta, com a sa\u00edda dela l\u00e1 de casa, essas lembran\u00e7as da sua inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia, vieram-lhe \u00e0 mente e tudo isso a deixou triste e estranha.<br>Algo se come\u00e7ou a desenvolver dentro dela, como uma chamada. Dos livros que lera ao longo dos anos, chegavam \u00e0 sua mem\u00f3ria ecos de grandes amores; livros que descreviam o mar, as ondas, os seus efeitos psicol\u00f3gicos no ser humano; livros que a acompanharam durante todos estes anos e que a fizeram sonhar, mas que j\u00e1 n\u00e3o bastavam para a sua alma inquieta, sedenta de carinhos, alma que, dia ap\u00f3s dia, se sentia mais atra\u00edda pelo mar.<br>Maria come\u00e7ou a viver num grande desassossego, a sua tristeza j\u00e1 se reflectia no seu rosto, no seu andar, nas suas palavras.<br>Os primos, a tia, os amigos j\u00e1 n\u00e3o a satisfaziam, j\u00e1 nada lhe dizia, pois a sua alma estava longe, os seus sonhos estavam longe, ela vivia com o Pedro no seu pensamento, mas um viver de desilus\u00e3o, porque sabia que jamais o voltaria a encontrar e ela n\u00e3o queria ningu\u00e9m.<br>Os rapazes da aldeia convidavam-na para sair e ela, embora amavelmente, sempre recusava os convites, fechava-se nos seus sonhos, nas suas ilus\u00f5es, mas\u2026<\/li>\n\n\n\n<li>Acorda Maria \u2013 disse a tia, com um suave toque no seu ombro.<\/li>\n\n\n\n<li>Desculpa tia Sofia, estava longe &#8211; respondeu, com um sorriso t\u00edmido que aflorou aos seus l\u00e1bios.<\/li>\n\n\n\n<li>Rapariga, deixa de sonhar, vem ajudar a tua prima nos preparativos para a festa do casamento, deixa os teus sonhos para outro dia. &#8211; Replicou a tia com ar muito alegre.<br>Maria olhou fixamente a tia e viu essa mulher de cinquenta e oito anos que, apesar dos trabalhos pesados a que a vida a sujeitou, tinha um rosto sempre prazenteiro, uma palavra de amor para todos quantos a rodeavam, um gesto de carinho, para Maria que nem sua filha era.<br>A tia, que perdera o marido ainda cedo, teve que, sozinha, dedicar a vida ao trabalho, para dar uma educa\u00e7\u00e3o razo\u00e1vel aos seus tr\u00eas filhos pequenos e, n\u00e3o bastando isso, ainda teve que criar a sua sobrinha menor.<br>Essa mulher vestida com roupas negras, essa mulher de aspecto fr\u00e1gil, mas com for\u00e7a duma leoa, tudo fez para criar e salvar as suas crias.<br>Enquanto pensava nisso, Maria agarrou a tia pela cintura e l\u00e1 foram as duas com um ar feliz. Maria, embora com uma sombra no olhar, foi mostrando uma felicidade que estava longe de sentir e trabalhou o dia todo, sempre com um sorriso nos l\u00e1bios, como se do seu casamento se tratasse.<br>O rel\u00f3gio da torre da pequena igreja anuncia as seis horas da manh\u00e3, as badaladas, ecoam na serra e, antes da \u00faltima, Maria acordou sobressaltada pensando que j\u00e1 era tarde.<br>Finalmente, tinha chegado o grande dia. Levantou-se de imediato e, a correr, foi ao quarto da prima.<\/li>\n\n\n\n<li>Joana, acorda Joana \u2013 sussurrou Maria, passando-lhe as m\u00e3os pelo seu rosto ang\u00e9lico, que, mesmo a dormir, sorria.<\/li>\n\n\n\n<li>Hum, tenho sono\u2026<\/li>\n\n\n\n<li>N\u00e3o, Joana, n\u00e3o podes continuar a dormir, hoje \u00e9 o dia do teu casamento, o Eduardo j\u00e1 passou por aqui h\u00e1 dez minutos, ele j\u00e1 se levantou. &#8211; Insistiu Maria excitada.<br>Joana espregui\u00e7ou-se, sorriu e dum salto p\u00f4s-se no ch\u00e3o. Agarrou a prima e dan\u00e7ou em volta dela, alegremente e, durante cinco minutos, imaginou-se no lugar da prima e que, dali a umas horas, estaria nos bra\u00e7os do Pedro.<\/li>\n\n\n\n<li>Hoje n\u00e3o quero esses sonhos, hoje quero ser feliz com a felicidade da minha prima \u2013 Pensou Maria e acordou para a realidade, fechando os seus pensamentos.<br>Ajudou Joana a vestir-se e, quando j\u00e1 estava pronta, olhou para ela\u2026 Ah! Como estava linda no seu vestido de noiva, branco, simples, comprido sem cauda, apenas com uma rendinha nos ombros, um decote largo, a mostrar o cora\u00e7\u00e3o feliz, o cabelo solto, macio, caindo em cascata pelos ombros, mais parecia um anjo, vestido de noiva.<br>Maria tinha desenhado esse vestido pensando na ingenuidade de Joana. Combinou tudo, desde o branco, \u00e0 renda, ao v\u00e9u, tudo tinha que combinar com Joana, que era linda, ing\u00e9nua, pura, prima, e a sua melhor amiga. N\u00e3o se conteve e abra\u00e7ou-a forte e, encostando sua boca ao ouvido de Joana, disse-lhe baixinho:<\/li>\n\n\n\n<li>Vais ser feliz!<br>A casa, de r\u00e9s-do-ch\u00e3o e primeiro andar, era toda em pedra. No r\u00e9s-do-ch\u00e3o, tinha uma sala, a cozinha, um anexo, uma casa de banho e um lugar para arruma\u00e7\u00f5es, que tamb\u00e9m servia de local para se passar a ferro, rodeada por um quintal empedrado ladeado de \u00e1rvores.<br>No primeiro andar, ficavam os quartos e outra casa de banho, com janelas dum lado e doutro, e, por uma das janelas, subia uma trepadeira que caprichosa ca\u00eda, depois pelo tecto que cobria o anexo.<br>Uma trepadeira que punha o sol a esconder-se cheiinho de vergonha, tal era a sua beleza, com as suas folhas verdes, como se o frio e a neve n\u00e3o passassem por ali. Na fachada da casa, umas escadas davam acesso ao quintal da frente, onde as flores sorriam a quem passasse e para elas olhasse.<br>Dessa casa e por essas escadas, desceu Joana rumo \u00e0 felicidade, imperiosa como se fosse uma rainha, mas sempre sorridente. Entrou no carro do irm\u00e3o e seguiu para a Igreja, onde j\u00e1 Eduardo, o noivo, a esperava, garboso no seu fato preto, mas impaciente, com o rosto contra\u00eddo pelos nervos.<br>A m\u00fasica nupcial dentro e fora da Igreja. Era um hino moderno, de amor e de paz. Eduardo olhou-a e os m\u00fasculos contra\u00eddos deram lugar a um sorriso feliz, a sua Joana j\u00e1 estava ali, j\u00e1 caminhava ao seu encontro, sempre sorridente, como se quisesse agarrar o mundo com esse sorriso.<br>Joana, enquanto caminhava, ia virando a sua cabe\u00e7a e reparou que a Igreja estava como ela tinha escolhido. N\u00e3o tinha rosas, pois foram substitu\u00eddas por flores silvestres, lindas, de v\u00e1rios tons que davam \u00e0 pequenina igreja da aldeia um ar de campo alegre.<br>Com a sua m\u00fasica, diferente tamb\u00e9m, escolhida por ela, pois n\u00e3o queria uma marcha nupcial, queria um hino de amor e era esse hino que estava tocando nesse momento, entoando alto e fazendo as paredes da igreja vibrar, parecendo que as flores dan\u00e7avam ao seu som.<br>A cor de cada vestido das suas damas de honor condizia com o tom da flor que elas transportavam nas m\u00e3os e o ramo de Joana continha todos esses tons, numa harmonia doce que fazia contraste com o branco do seu vestido e o moreno da sua pele.<br>Tudo estava lindo, como linda foi a cerim\u00f3nia, como lindas foram as l\u00e1grimas de felicidade de Joana e como lindo foi o beijo que o Eduardo lhe deu, que tamb\u00e9m fugiu \u00e0 regra, pois, em vez de seus l\u00e1bios beijar ap\u00f3s dizerem o sim, beijou-lhe o rosto, erguendo depois a cabe\u00e7a e completando seu carinho, com um beijo na testa.<br>Chegou a noite, a cerimonia j\u00e1 se tinha realizado, a festa estava no auge e Maria de mansinho, saiu para a rua. A neve ca\u00eda e os seus flocos ro\u00e7avam-lhe o rosto enquanto caminhava. Parou est\u00e1tica, com os pensamentos bem longe, no infinito, no desconhecido.<br>Seus pensamentos estavam junto a um rosto moreno de cabelos encaracolados.<br>Os pensamentos de Maria estavam junto do Pedro.<\/li>\n\n\n\n<li>Onde est\u00e1s, Pedro? &#8211; Gritou bem alto, afastada da multid\u00e3o, longe do burburinho da festa.<\/li>\n\n\n\n<li>Porque me afastaram de ti? Porque n\u00e3o vejo os teus olhos? Onde, meu Deus? Onde est\u00e1s?<br>E suas l\u00e1grimas come\u00e7aram a fundirem-se com os flocos de neve, pareciam estalactites, querendo-se partir, tal era a dor de seus sentimentos. Fechou os olhos e escutou o vento\u2026<\/li>\n\n\n\n<li>Mariaaaaaaaa, Mariaaaaa\u2026 \u2013 pareceu-lhe ouvir chamar.<\/li>\n\n\n\n<li>Que voz \u00e9 esta? Iria jurar que ouvi meu nome, mas n\u00e3o, ningu\u00e9m est\u00e1 aqui, estou s\u00f3, ningu\u00e9m me iria chamar. &#8211; Maria sorriu e continuou a andar.<\/li>\n\n\n\n<li>Mariaaaaaaaa, Mariaaaaa. &#8211; Ouviu-se novamente, o som mais perto e Maria pensou estar a enlouquecer.<br>No mesmo instante, em Peniche, a muitos quil\u00f3metros dali, Pedro estava junto ao mar, gritando bem alto o nome da Maria. Ele havia sentido tamb\u00e9m, durante esses anos, a sua falta.<br>Queria-a ali, junto a ele, porque nunca a esqueceu. Todos estes anos s\u00f3 tiveram um sonho; ter um dia Maria nos seus bra\u00e7os e, enquanto um chorava junto \u00e0 neve, outro secava as suas l\u00e1grimas junto ao mar.<\/li>\n\n\n\n<li>Tenho que sair daqui, tenho que ir viver junto ao mar &#8211; Pensava Maria. &#8211; Vou-me embora daqui \u2013 Gritou bem alto, enquanto as l\u00e1grimas escorriam pelo seu rosto.<br>Dirigiu-se para casa, pensando em viver outra vida; arranjar outro emprego e sair dali.<\/li>\n\n\n\n<li>A Minha tia vai aceitar! E com esses pensamentos<br>adormeceu\u2026<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong><em>PARTE II<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Dia vinte e cinco de Dezembro. Maria, depois de umas horas de sono turbulento, acordou novamente cedo. Era dia de Natal. Levantou-se e, enquanto se vestia, surgiram lembran\u00e7as do passado; os seus sonhos de menina; os carinhos da sua m\u00e3e; o infinito do mar e o olhar do Pedro e, nesse momento, decidiu:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Vou-me embora daqui e vai ser hoje! Quero ver novos horizontes, quero sentir o mar, quero viver outra vida, esquecer a Maria sonhadora. &#8211; Foi at\u00e9 \u00e0 cozinha, onde a tia Sofia estava a preparar o pequeno-almo\u00e7o.<\/li>\n\n\n\n<li>Bom dia tia \u2013 disse Maria, com um sorriso que j\u00e1 n\u00e3o era habitual ver-se nela.<\/li>\n\n\n\n<li>Mau, mau, que se passa menina?<\/li>\n\n\n\n<li>Tia, precisamos de falar.<\/li>\n\n\n\n<li>Mau, mau, Maria, quando queres falar comigo \u00e9 sinal que os teus sonhos est\u00e3o voando novamente. N\u00e3o, n\u00e3o te quero escutar.<\/li>\n\n\n\n<li>Tia, escuta-me por favor, ouve-me. Minha prima Joaninha casou-se. Sabes que ela era a minha melhor amiga, a minha companheira, a minha confidente. Ela ensinou-me a sorrir novamente, mas tia\u2026 ela n\u00e3o me soube ensinar uma coisa.<\/li>\n\n\n\n<li>O qu\u00ea, filha? O que Joaninha n\u00e3o te soube ensinar? &#8211; Indagou com curiosidade a tia.<\/li>\n\n\n\n<li>N\u00e3o me soube ensinar a esquecer os meus ideais, os meus sonhos Ela n\u00e3o me ensinou a n\u00e3o precisar do mar, ela n\u00e3o sabe que eu preciso dele, de o ver, de o sentir, de lhe falar. Ela n\u00e3o me ensinou a esquecer quem tanto amei e a quem tanto amo.<br>-Por favor minha tia, liberta-me deste pesadelo, deixa-me voar, deixa-me sair por uns tempos e se n\u00e3o me encontrar, eu volto para junto de ti e dos meus primos e voltarei para esta aldeia e ent\u00e3o deixarei de sonhar. Mas deixa-me correr atr\u00e1s dos meus sonhos, deixa-me vive-los por favor\u2026<br>No rosto de Maria, nas l\u00e1grimas que lhe corriam rosto abaixo, a tia viu o seu desespero.<\/li>\n\n\n\n<li>Sim, Maria, quem sou eu para te prender nesta gaiola dourada? Quem sou eu para impedir de procurares os teus sonhos? Estar\u00e3o no mar? No deserto? Numa duna? N\u00e3o sei, Maria!\u2026 Mas vai sim filha, com um pedido apenas. &#8211; E o seu rosto transformou-se\u2026<\/li>\n\n\n\n<li>Diz tia, eu atenderei o teu pedido.<br>Dizendo isso, abra\u00e7ou-a muito forte e nesse momento sentiu-a como sua pr\u00f3pria m\u00e3e. Nesse momento viu que ela a amou como se sua filha fosse, mas Maria, dentro do seu ego\u00edsmo, nada viu, nada sentiu, porque vivia presa a um passado, esse passado que a chamava.<\/li>\n\n\n\n<li>S\u00f3 quero que v\u00e1s depois do ano novo, fazes-me isso? Passas esse dia connosco?<\/li>\n\n\n\n<li>Sim, esse dia ser\u00e1 teu, minha tia, esse dia, dedico a ti, apenas a ti e a mais ningu\u00e9m. Nesse dia eu n\u00e3o sonharei com nada, porque esse dia ser\u00e1 o meu \u00faltimo dia de sonho. A partir desse dia, eu irei viver a minha realidade, aquela que eu anseio viver.<br>Com estas palavras acabaram o pequeno-almo\u00e7o e foram ambas tratar dos seus afazeres.<br>Volta e meia, Maria sentia um olhar c\u00famplice sobre ela e quando olhava, via o olhar da sua tia e a\u00ed sorria, porque sabia que a tia estava com ela e sabia porque sorria; era um sorriso de esperan\u00e7a, um sorriso de quem quer alcan\u00e7ar o seu mundo em pouco segundos.<br>Chegara por fim o dia esperado por Maria. Era o terceiro dia do ano de mil novecentos e noventa e nove, dia da sua partida. Juntou a sua fam\u00edlia \u00e0 hora do almo\u00e7o e comunicou aos restantes membros a sua decis\u00e3o de partir.<br>A\u00ed sentiu olhares de revolta, olhares de repreens\u00e3o, mas tamb\u00e9m sentiu um olhar meigo sobre ela, o de sua tia. Ela sabia o porqu\u00ea da sua partida, embora todo o resto da fam\u00edlia o desconhecesse, incluindo Joana a quem nada contara. Ela, na sua felicidade, n\u00e3o iria compreender os seus desejos, os seus anseios, pelo que preferiu esconder do resto da fam\u00edlia os motivos da sua partida.<\/li>\n\n\n\n<li>S\u00e3o duas horas da tarde, Maria. Avisou a tia.<\/li>\n\n\n\n<li>Sim tia, estou acabar de arrumar umas coisas. Levas-me ao comboio? &#8211; Um sorriso\u2026<\/li>\n\n\n\n<li>Claro, como ficaria a saber se partias, se n\u00e3o te visse entrar nele? Ah, Maria para onde vais? &#8211; Mais um sorriso, um sorriso malicioso, como se soubesse muito e muito quisesse ocultar\u2026<\/li>\n\n\n\n<li>Onde vou? Boa pergunta tia, vou por a\u00ed; onde houver um mar eu paro e\u2026 \u2013 Abra\u00e7ou a tia e ao abra\u00e7\u00e1-la forte chorou amargamente, porque tinha ganho uma m\u00e3e e agora ia abandon\u00e1-la, como a sua, tragicamente, a tinha abandonado h\u00e1 dezassete anos atr\u00e1s.<\/li>\n\n\n\n<li>Tenho que ser forte tia, ajuda-me\u2026<\/li>\n\n\n\n<li>Sim filha, eu ajudo-te, vais ser forte, porque sabes se algo correr mal eu estou aqui, nesta casinha humilde \u00e0 tua espera.<br>Com as l\u00e1grimas nos olhos e um aperto no peito, partiu com a esperan\u00e7a no cora\u00e7\u00e3o\u2026<br>O barulho do comboio misturou-se com o barulho dos seus pensamentos; com as ideias da sua alma inquieta.<br>Decidiu parar na sua terra natal. E enquanto pensava\u2026<\/li>\n\n\n\n<li>Tenho que fazer isso, \u00e9 por a\u00ed que vou come\u00e7ar, a\u00ed verei se as minhas esperan\u00e7as ser\u00e3o infrut\u00edferas ou n\u00e3o.<br>Dirigiu-se para o centro da aldeia, em direc\u00e7\u00e3o \u00e0 loja onde outrora fazia compras e sonhava.<\/li>\n\n\n\n<li>Bom dia senhora \u2013 Disse Maria com um sorriso nos l\u00e1bios e os olhos a brilhar.<\/li>\n\n\n\n<li>Bom dia menina \u2013 Respondeu a idosa que estava sentada num banco do jardim.<\/li>\n\n\n\n<li>Em tempos n\u00e3o houve ali naquela esquina uma lojinha?<\/li>\n\n\n\n<li>Sim menina, houve, mas j\u00e1 h\u00e1 anos que fechou e o rapaz que aqui estava \u00e0 frente dela partiu para o litoral, sabe menina? &#8211; Diz a velhinha sorrindo.<\/li>\n\n\n\n<li>Ele era um sonhador, isto n\u00e3o era vida para aquele rapaz. Ele queria voos mais altos e voou &#8211; Dizendo isso, o seu sorriso alargou-se.<br>Maria sentiu um choque. O seu cora\u00e7\u00e3o ficou pequenino, as suas esperan\u00e7as estavam-se esfumando e n\u00e3o conseguiu conter uma l\u00e1grima teimosa, que apareceu ao canto de seus olhos.<br>Tentou disfar\u00e7ar, mas a velhinha olhou para ela e com as suas m\u00e3os, j\u00e1 rugosas, secou-a e perguntou-lhe &#8211; Conhecia-o?<\/li>\n\n\n\n<li>N\u00e3o, n\u00e3o o conhecia, emocionei-me apenas com as suas palavras.<br>Um sorriso do tipo malandro surgiu no rosto da idosa\u2026 como dizendo que se apercebeu que Maria mentia.<\/li>\n\n\n\n<li>Sabe menina, o meu marido h\u00e1 dias contou-me que esse rapaz est\u00e1 bem na vida, vive junto ao mar e tem uma vida que n\u00e3o tinha aqui, voou, mas voou alto.<br>Dizendo isso a velhinha sorriu novamente, um sorriso doce, como se ficasse feliz por transmitir aquela mensagem, porque ela sabia que lhe tinha dito algo de precioso. Mas a sua sabedoria f\u00ea-la ser discreta.<\/li>\n\n\n\n<li>Obrigada senhora. &#8211; Agradeceu Maria, com os olhos agora com um doce brilho de alegria.<\/li>\n\n\n\n<li>Precisa de alguma coisa, menina?<\/li>\n\n\n\n<li>N\u00e3o, obrigada, passei por aqui e lembrei-me dessa loja. Obrigada por perder estes minutos comigo.<br>Apertou a sua m\u00e3o e sorriu. Como que compreendendo o seu agradecimento, a senhora velhinha, sorriu tamb\u00e9m.<br>Maria, seguiu a sua viagem, sem destino, ou ser\u00e1 que n\u00e3o tinha um destino? Sim, claro que tinha um destino sonhado, para qu\u00ea enganar-se. O seu destino chamava-se felicidade, mar ou apenas ilus\u00e3o!?<br>Ela n\u00e3o sabia, ainda n\u00e3o o tinha encontrado. Comprou um bilhete para a zona de Peniche e apanhou o respectivo comboio.<br>Tinha lido num jornal que, em Peniche, havia uma vida de mar bastante agitada, que todos os amantes do mar iam l\u00e1 parar. E porque n\u00e3o ela? Ao pensar nisso sorriu.<br>A viagem estava a ser lenta, mas Maria nem se apercebeu dessa lentid\u00e3o, absorvida que estava a observar a paisagem, os caminhos vazios do verde habitual, porque o Inverno rigoroso e a geada tinham queimado tudo quanto era verde\u2026<br>Maria abriu a janela. O gelo que se fazia sentir l\u00e1 fora f\u00ea-la sorrir, pois lembrou-se do v\u00e9u da sua prima no dia do casamento, das fotos que tiraram no meio da neve, da alegria da sua prima a correr na neve, como se de uma garota se tratasse e n\u00e3o duma noiva e, entre uns pensamentos tristes e outros felizes, ela ia alternando a sua vis\u00e3o entre uma paisagem com restos do verde e outra seca e quase sem vida, quando, finalmente, chegou.<br>O seu primeiro pensamento, assim que saiu do comboio, foi:<\/li>\n\n\n\n<li>Tenho que ver o mar, tenho que sentir o seu cheiro, tenho que lhe falar, contar-lhe como tem sido a minha vida estes anos todos, tenho que lhe pedir conselhos.<br>Ele vai-me ouvir, cada onda sua, assim que se aproximar de mim vai-me aconselhar, vai-me dizer o que devo fazer da minha vida, vai-me dizer onde est\u00e1 Pedro, vai levar o meu perfume at\u00e9 ele e vai-lhe transmitir que eu estou aqui em Peniche junto ao mar, como ele est\u00e1, s\u00f3 que n\u00e3o sei em que terra do litoral, mas numa est\u00e1 de certeza e ele vai escutar essa onda.<br>Mas\u2026 Uma l\u00e1grima rebelde aflorou aos seus olhos e desceu pelo seu rosto. Maria limpou-a e seguiu at\u00e9 \u00e0 praia. Os seus passos eram lentos; ela queria andar r\u00e1pido para mais cedo ver o mar, mas as suas pernas n\u00e3o correspondiam, a sua dor estava voltando novamente, as saudades estavam cravadas dentro de si, fazendo-a sentir-se s\u00f3, desamparada e, enquanto andava, as l\u00e1grimas corriam pelo seu rosto abaixo e Maria, sussurrando, ia dizendo\u2026<\/li>\n\n\n\n<li>N\u00e3o sejas parva Maria, tu n\u00e3o vais voltar a ver o Pedro. Podes ir fazer esse pedido ao mar, podes at\u00e9 suplicar, mas ele n\u00e3o te vai ouvir.<br>Recusava-se a ouvir essa voz interior e seguiu em direc\u00e7\u00e3o \u00e0 praia. Parou, olhou, nada viu, nada sentiu, estava paralisada, n\u00e3o conseguia acreditar que ao fim desses anos todos, ela estava junto ao mar. Pensou que estava sonhando e beliscou-se.<br>Ao sentir o belisc\u00e3o, abriu os olhos e a\u00ed sim ela viu a imensid\u00e3o do mar. Ele estava ali! Olhou o horizonte e viu as ondas que vinham em correria, umas atr\u00e1s das outras, para junto de si. Tirou os sapatos, molhou os p\u00e9s e sentiu como se tivesse sido aben\u00e7oada por algo divino.<br>Voltou a fechar os olhos para o sentir, para o cheirar, para o ouvir e assim se manteve durante alguns minutos, como que extasiada\u2026<br>Sentou-se na areia e falou com o mar. Fez-lhe o seu pedido e ele, como que a compreendendo, fazia barulho com as suas ondas que, ao chegarem a seus p\u00e9s, se desfaziam como uma car\u00edcia e a espuma em que elas se transformavam, fizeram Maria sonhar.<br>Sonhou que era uma sereia que ia de volta ao mar nessa onda e que, l\u00e1 bem no fundo, iria encontrar o seu pr\u00edncipe dos mares e esse pr\u00edncipe, para n\u00e3o a deixar sozinha, se transformava num peixe para a acompanhar.<br>E os seus sonhos mergulharam nesse mar profundo.<br>Foi nadando, nadando e olhando dum lado para outro, at\u00e9 que qualquer coisa lhe toca. Sente medo, mas\u2026 domina-se. Olha e v\u00ea aquele peixinho lindo que a acariciava com as suas barbatanas, como que dizendo:<\/li>\n\n\n\n<li>Amor, sou eu, o teu Pedro, n\u00e3o est\u00e1s s\u00f3, eu estou aqui, aliviando os teus pensamentos, a tua alma. Vem\u2026 vem comigo, mergulha neste mar imenso que \u00e9 o meu mundo.<\/li>\n\n\n\n<li>Vem\u2026 vou mostrar-te as algas que falam, os recifes que choram de solid\u00e3o, os meus semelhantes que festejam a passagem da tempestade. &#8211; Dizia o peixinho enquanto nadava.<\/li>\n\n\n\n<li>Olha\u2026 liberta-te e deixa-te levar por mim. Mergulha cada vez mais fundo.<\/li>\n\n\n\n<li>Olha, v\u00eas aquele polvo? Ele chama-te, ele d\u00e1-te as boas vindas, deixa-te ir, n\u00e3o tenhas receio, vai at\u00e9 junto dele\u2026No seu sonho, ela escuta a voz e reconhece a voz do Pedro e deixa-se ir com um sorriso. Uma paz enorme apoderou dela.<br>Aproximou-se do polvo, que a agarrou com os seus tent\u00e1culos, como que protegendo-a do seu pr\u00f3prio medo. O peixe-aranha aproxima-se e estende-lhe seu corpo e um sem n\u00famero de peixes aproximam-se dela, sorriem e embalam-na com os seus c\u00e2nticos.<br>Vestem-na com um manto azul celeste, com uma grande cauda vermelha como o fogo, contrastando com o azul\/cinzento do mar e rodopiaram-na. As raias come\u00e7aram a cantar, o som da m\u00fasica foi aumentando e o seu cabelo foi coberto com algas marinhas, lindas, caindo em cascatas ondulantes, com a estrela-do-mar a fazer de coroa.<br>Ela era uma sereia princesa, onde os seus s\u00fabditos eram os habitantes do mar; onde o carinho deles era a sua m\u00fasica, as barbatanas deles o manto, as ondas revoltas a carruagem e\u2026<br>Foi-se, deixando levar por aquela linda e profunda ilus\u00e3o, a ilus\u00e3o que estava junto a Pedro e aos seus amigos e que a paz, finalmente, tinha voltado ao seu esp\u00edrito, uma paz que a encantava.<br>Sentiu uma car\u00edcia, no seu ombro. Inclinou a sua cabe\u00e7a para sentir essa m\u00e3o, que julgava ser a do Pedro e acordou, com uma voz doce, protectora, que a aconselhava:<\/li>\n\n\n\n<li>Acorde menina. O mar est\u00e1 bravo e daqui a pouco a mar\u00e9 vai encher. Tem que sair daqui!<br>Ela olhou para o homem que lhe tocara e sorriu, dizendo:<\/li>\n\n\n\n<li>Adormeci, nem dei pelas horas passarem, obrigada por me acordar.<br>Dizendo isso, levantou-se. Sorriu mais uma vez para o homem e despediu-se. Agarrando na sua mochila, saiu junto do mar, sentindo-se calma, com uma paz interior e um apetite que h\u00e1 muito n\u00e3o sentia, com o est\u00f4mago reclamando dos maus-tratos dos \u00faltimos dias.<br>Entrou num restaurante virado para o mar, sentou-se \u00e0 mesa, pegou na lista, escolheu o que queria e, enquanto esperava pela comida, deixou o seu olhar percorrer a sala.<br>Havia ali muita gente, uns com a pele queimada pelo mar, outros de fato e gravata. Desviou a vista, olhou o mar e voltou a sentir a mesma paz, que sentira \u00e0 beira-mar. Lembrou-se do seu sonho e sorriu, mas entretanto o seu olhar parou num cartaz onde dizia: Curso de mergulhador.<\/li>\n\n\n\n<li>E se eu fosse tirar esse curso? Pensou.<\/li>\n\n\n\n<li>Est\u00e1s doida Maria, deixa-te disso \u2013 Dizia-lhe a voz do seu consciente.<br>Uma onda de rebeldia dentro dela a perturbou e, se bem o pensou, melhor o fez, porque ap\u00f3s acabar de almo\u00e7ar, pegou na mochila e seguiu para perto do cartaz, para melhor o ler.<br>Leu-o, tirou a morada e seguiu a caminho do cais, como se j\u00e1 o conhecesse, pois algo a impelia para l\u00e1, algo que n\u00e3o sabia explicar, a empurrava para esse lugar.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong><em>PARTE III<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Chegou ao local onde  tal curso, a Academia do Mergulho e a primeira coisa que viu foi outro cartaz a convidar ao curso de mergulho.<br>Entrou e bateu \u00e0 porta duma sala da Academia e uma voz rouca, vinda de dentro, mandou-a entrar, e\u2026<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Boa tarde &#8211; Diz Maria, timidamente.<br>-Boa tarde, que deseja? Alguma informa\u00e7\u00e3o? &#8211; Perguntou o homem colocado por tr\u00e1s da pequena secret\u00e1ria em pinho, recheada de papelada.<br>Sobre a mesma, um trof\u00e9u em forma de mergulhador fazia de pisa-pap\u00e9is e, num extremo da secret\u00e1ria, um placa de identifica\u00e7\u00e3o, COSTA, em letras bem grandes.<\/li>\n\n\n\n<li>Sim, li um cartaz sobre o curso de mergulhador e gostaria de saber se esse curso tamb\u00e9m \u00e9 para mulheres?<\/li>\n\n\n\n<li>Claro, para todo o mundo dos 18 aos 40 anos. Que idade tem a menina? Dizendo isso o seu olhar percorreu o corpo da Maria de cima abaixo e Maria corou ligeiramente.<br>Nesse momento quis desistir de tudo, mas n\u00e3o, n\u00e3o iria ser um olhar que a ia fazer desistir dos seus sonhos. O sonho de mergulhar nessas \u00e1guas l\u00edmpidas e profundas. Reagiu e respondeu-lhe com ar reprovador:<\/li>\n\n\n\n<li>Trinta e um anos\u2026 Quero inscrever-me, o que \u00e9 preciso?<br>O homem informou-a do que era preciso, explicou tudo e enquanto ele preenchia a papelada para a sua inscri\u00e7\u00e3o na Academia, Maria ia percorrendo a sala com o olhar e reparou que a mesma tinha uma decora\u00e7\u00e3o discreta.<br>A simplicidade estava vis\u00edvel ali, nela tudo continha dizeres e fotografias alusivas ao mundo do mar, ao mundo do mergulho. As paredes brancas como se tivessem sido acabadas de pintar, com fotos de cada turma de mergulhadores que por ali passaram.<br>Ao centro por cima da secret\u00e1ria estava uma fotografia do fundador da Academia, um homem forte, com grandes bigodes, figura de um aut\u00eantico lobo dos mares.<br>As janelas grandes, abertas para tr\u00e1s, onde a vis\u00e3o era maravilhosa, pois via-se o mar ali t\u00e3o perto, como se as ondas quisessem entrar atrav\u00e9s delas.<br>T\u00e3o absorta estava a observar a sala, que saltou ligeiramente ao ouvir a voz \u00e1spera e um pouco seca do funcion\u00e1rio, ao dizer-lhe:<\/li>\n\n\n\n<li>Cada dia h\u00e1 um treinador, o professor nunca \u00e9 o mesmo e, para n\u00e3o haver d\u00favidas, \u00e9 expressamente proibido as alunas envolverem-se com os professores.<\/li>\n\n\n\n<li>Muito bem. &#8211; Respondeu ela. E pensou. &#8211; E os professores com as alunas? &#8211; O meu objectivo n\u00e3o \u00e9 esse e, j\u00e1 agora, saber\u00e1 dizer-me se haver\u00e1 por aqui um quarto para alugar?<\/li>\n\n\n\n<li>Olhe, veio mesmo na hora certa. N\u00f3s alugamos quartos para alguns alunos e ainda temos uma vaga. Est\u00e1 interessada?<\/li>\n\n\n\n<li>Certamente que sim, cheguei agora do interior e n\u00e3o tenho para onde ir.<\/li>\n\n\n\n<li>Do interior para aqui?!<\/li>\n\n\n\n<li>Porque n\u00e3o?<\/li>\n\n\n\n<li>Desculpe menina, \u00e9 que o seu aspecto nada diz que vem do interior, parece antes vinda da capital.<br>Maria sorriu e disse-lhe\u2026<\/li>\n\n\n\n<li>Quem v\u00ea caras n\u00e3o v\u00ea cora\u00e7\u00f5es &#8211; Dizendo isso, pegou na sua mochila e seguiu o homem que ia indicar-lhe o caminho.<br>Chegou ao quarto, entrou e, com olhar, percorreu-o todo. Gostou do que viu, um quarto limpo, arejado, com cortinas aos xadrez, uma cama de corpo e meio, uma c\u00f3moda e uma guarda fatos, tudo em pinho, a condizer com o ch\u00e3o que tamb\u00e9m era em madeira de pinho, bem como o var\u00e3o dos cortinados.<br>Estava tudo a combinar, dentro da simplicidade, gostou, gostou muito e decidiu alugar o quarto.<br>Despediu-se do funcion\u00e1rio, fechou a porta, deu um salto para cima da cama e suspirou e, ao suspirar sorriu. Fechou os olhos e os sonhos voltaram novamente \u00e0 sua mente. Um rosto, que a fixava, aflorou aos seus olhos e, nesse rosto, mais uma vez via a figura de Pedro.<\/li>\n\n\n\n<li>Por onde andas? Que \u00e9 feito de ti? Porque nos separou a vida?! &#8211; Gritou uma voz dorida dentro de si, como se fosse um animal que acabasse de ser ferido. Mas a sua ferida era grande, t\u00e3o grande que do\u00eda, t\u00e3o forte, que fazia o seu choro tornar-se compulsivo.<br>Na sua amargura, chorou, chorou muito, at\u00e9 que, cansada, adormeceu vestida e cal\u00e7ada, s\u00f3 acordando no dia seguinte, mais fresca, sentindo-se livre como um p\u00e1ssaro. Estava radiante e nada a afectava naquele momento. Via o mundo cor-de-rosa.<br>Iria realizar um dos seus sonhos, ela ia mergulhar nesse mar, ver os seus peixes, passear entre as algas e recifes, conhecer todas as maravilhas das profundezas do mar.<br>Levantou-se, deu um duche, preparou-se e l\u00e1 foi tomar o pequeno-almo\u00e7o, para depois seguir para a escola de mergulho, onde as suas aulas iriam come\u00e7ar dali a uma hora.<br>Chegou l\u00e1 e viu muita gente jovem. Entre eles encontravam-se alunos e alguns professores.<br>Seu olhar percorreu todos os presentes, mas em nenhum se fixou. S\u00f3 que, algu\u00e9m entre eles a viu e a reconheceu. Algu\u00e9m que paralisou ao olh\u00e1-la, como se ela dum fantasma se tratasse.<br>Pedro estava l\u00e1, entre aqueles jovens, vivo, alegre, mas, mais uma vez ele nada fez ou disse. Mais uma vez a sua timidez dele se apoderou, paralisando-o na presen\u00e7a da Maria, mas ela seguiu em frente e misturou-se com os restantes alunos para o reconhecimento geral.<br>O instrutor, conduzi-os \u00e0 sala de aulas, fez a chamada e foi conhecendo um a um, entre rapazes e raparigas e cada vez que os chamava, para os p\u00f4r \u00e0 vontade, ia dizendo uma piada e aos poucos foram aparecendo sorrisos em todos os rostos. Os alunos estavam a integrar-se bem e Maria, tal como os restantes, estava feliz por estar a participar nesse curso.<br>Olhava dum lado para outro e ia observando. O seu olhar observador estava gostando do que via. Acabaram-se as apresenta\u00e7\u00f5es e o mestre, sorrindo, levantou-se da cadeira e disse:<\/li>\n\n\n\n<li>Chegou a hora de se familiarizarem com a academia, sigam-me. &#8211; E l\u00e1 foram todos atr\u00e1s dele.<br>Come\u00e7aram pela sala onde Maria tinha feito a inscri\u00e7\u00e3o e, algu\u00e9m com sentido de humor, um rapaz alto, moreno, disse\u2026<\/li>\n\n\n\n<li>Esta j\u00e1 n\u00f3s conhecemos, n\u00e3o pod\u00edamos estar no curso, se n\u00e3o pass\u00e1ssemos por aqui. &#8211; O riso foi geral. O mestre olhou para ele dizendo a sorrir\u2026<\/li>\n\n\n\n<li>Est\u00e1 visto que temos aqui um rebelde. &#8211; Bateu-lhe nas costas. &#8211; Veremos se l\u00e1 em baixo mant\u00e9ns esse sentido de humor. &#8211; Mais uma vez a risada foi geral, estava visto que aquele rapaz, chamado Alfredo, iria ser o bobo da aula.<br>Seguiram depois para uma sala de aulas, onde havia v\u00e1rias carteiras e, encostada a uma parede, encontrava-se a secret\u00e1ria do professor, estando a seu lado o quadro onde ele iria passar os apontamentos.<br>A sala era pintada de bege e v\u00e1rios quadros alusivos ao mergulho encontravam-se espalhados pelas paredes.<br>Deixaram essa sala e foram percorrendo mais quatro salas, todas decoradas da mesma maneira, mas cada uma pintada de cor diferente.<\/li>\n\n\n\n<li>Professor, porque \u00e9 que cada sala de aula tem uma cor diferente? &#8211; Indagou uma das alunas, de nome Fernanda.<\/li>\n\n\n\n<li>Boa Pergunta menina, antecipaste-te porque eu j\u00e1 ia explicar o porqu\u00ea das cores. &#8211; E foi dizendo:<\/li>\n\n\n\n<li>Cada sala corresponde a um grau de ensino. Cada vez que ultrapassarem esse grau, mudar\u00e3o de sala e as salas ser\u00e3o conhecidas pelas cores e n\u00e3o por n\u00fameros, como habitualmente. Iremos come\u00e7ar pela Bege, seguida da verde, cinza e finalmente a sala azul, a cor do mar, se l\u00e1 chegarem ser\u00e3o futuros mergulhadores.<\/li>\n\n\n\n<li>Mas continuemos. &#8211; Disse ele seguindo para a sala dos vesti\u00e1rios, onde explicou:<\/li>\n\n\n\n<li>Na ala direita, o vesti\u00e1rio e chuveiros femininos, na ala esquerda, vesti\u00e1rio e chuveiros masculinos. &#8211; Com um sorriso maroto, perguntou: &#8211; Perceberam bem? Agora n\u00e3o troquem.<\/li>\n\n\n\n<li>Professor \u2013 Disse Alfredo. &#8211; Eu sou m\u00edope. &#8211; Dizendo isso, um sorriso malandro apareceu no seu rosto.<\/li>\n\n\n\n<li>Ah, sim Alfredo? &#8211; Ele j\u00e1 sabia o seu nome. &#8211; Ent\u00e3o lamentamos todos, mas n\u00e3o vamos poder manter-te na escola. N\u00e3o \u00e9 verdade meninos? Uma das regras \u00e9 n\u00e3o ser m\u00edope. &#8211; O riso foi geral e Alfredo replicou\u2026<\/li>\n\n\n\n<li>N\u00e3o professor, eu vejo bem, estava brincando.<br>Mais uma vez o mestre, piscando o olho para o resto da turma, perguntou:<\/li>\n\n\n\n<li>Acreditam?<\/li>\n\n\n\n<li>N\u00e3oooooo! &#8211; As vozes entoaram nos vesti\u00e1rios e, sorrindo, l\u00e1 seguiram no reconhecimento da academia.<br>Seguiram para a sala de reuni\u00f5es, passando depois para o refeit\u00f3rio, tendo o mestre informado que ali poderiam fazer as suas refei\u00e7\u00f5es. E, em menos de uma hora, a academia estava toda vista.<br>A partir dali, o tempo faria com que o conhecimento da mesma fosse mais profundo.<br>Oito da manh\u00e3 do dia seguinte. Pedro saiu de casa e foi passear at\u00e9 \u00e0 praia. Seus pensamentos estavam turvos e nada melhor que ir olhar o mar para descontrair; para melhor raciocinar. E ali ficou parado a olhar o mar, olhando os pescadores que ali passavam os seus dias pescando.<br>T\u00e3o absorvido estava nos seus pensamentos que nem deu pela chegada do seu colega e amigo.<\/li>\n\n\n\n<li>Bom dia Pedro. Logo de manh\u00e3 por aqui? &#8211; Sorriu.<\/li>\n\n\n\n<li>Bom dia S\u00e9rgio. Estava entretido a observar os pescadores, que nem dei pela tua chegada.<\/li>\n\n\n\n<li>Que se passa? Est\u00e1s com umas olheiras, sobrancelhas arqueadas, mau! Eu conhe\u00e7o-te bem Pedro, que se passa? &#8211; Insistiu.<\/li>\n\n\n\n<li>Nada. S\u00e9rio, n\u00e3o se passa nada!<\/li>\n\n\n\n<li>Nada? Sabes h\u00e1 quantos anos eu te conhe\u00e7o? Sabes h\u00e1 quantos anos n\u00f3s trabalhamos juntos? Sabes que entre n\u00f3s nunca houve segredos! Conta l\u00e1 rapaz, que se passa. &#8211; Deu-lhe uma palmada nas costas e sorriu.<\/li>\n\n\n\n<li>Ok, ok, est\u00e1 bem! Sabes, esta noite n\u00e3o preguei olho. Apenas isso e, como j\u00e1 n\u00e3o podia estar deitado, vim at\u00e9 aqui para ver o mar.<\/li>\n\n\n\n<li>N\u00e3o dormiste? Tu, o homem da nossa pra\u00e7a que mais dorme, n\u00e3o dormiste? Que se passa? Desabafa, homem.<\/li>\n\n\n\n<li>Lembras-te de eu te ter falado da minha aldeia?<\/li>\n\n\n\n<li>Sim, lembro-me, porqu\u00ea?<\/li>\n\n\n\n<li>Lembraste de eu te ter contado que, quando ainda era garoto, a\u00ed com os meus dezasseis anos, me ter apaixonado por uma rapariga? E, por ela, eu fiquei solteiro durante todos estes anos!<\/li>\n\n\n\n<li>Sim, recordo-me perfeitamente, n\u00e3o fosse ela a mulher a quem tu dedicas esses poemas di\u00e1rios. Mas que aconteceu com ela?<\/li>\n\n\n\n<li>Ela est\u00e1 aqui, bem perto de n\u00f3s.<\/li>\n\n\n\n<li>Aqui? &#8211; Interrogou, admirado, S\u00e9rgio.<\/li>\n\n\n\n<li>Sim. Ela \u00e9 uma das alunas que se inscreveram ontem no curso de mergulho. Lembras-te do Costa dizer que chegou uma rapariga muito bonita do interior?<\/li>\n\n\n\n<li>Se me lembro, todos n\u00f3s estamos desejosos de a ver.<\/li>\n\n\n\n<li>Pois essa rapariga do interior \u00e9 a Maria, a mulher que amei todos estes anos. E eu sem conseguir coragem para falar-lhe, sem a poder tocar.<\/li>\n\n\n\n<li>Porque n\u00e3o? Que te disse ela quando te viu?<\/li>\n\n\n\n<li>Nada, ela n\u00e3o sabe que estou aqui, nem deve imaginar que eu vou ser um dos professores dela. Maria j\u00e1 nem se deve lembrar da minha exist\u00eancia, j\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o quase dezassete anos, qual a mulher que se lembra do magricelas que estava atr\u00e1s do balc\u00e3o duma mercearia?<\/li>\n\n\n\n<li>Calma Pedro, pode n\u00e3o ser ela. Como bem disseste, passaram-se muitos anos e as pessoas mudam de fei\u00e7\u00f5es, calma.<\/li>\n\n\n\n<li>\u00c9 ela, S\u00e9rgio. Eu reconhec\u00ea-la-ia entre um milh\u00e3o.<\/li>\n\n\n\n<li>Ok! Se \u00e9, vai falar com ela, diz-lhe quem \u00e9s!<\/li>\n\n\n\n<li>N\u00e3o, n\u00e3o consigo. Ela n\u00e3o sabe que a amei, que ainda a amo, ela n\u00e3o pode saber. A esta hora j\u00e1 deve ter marido e filhos.<br>Mantiveram-se a conversar por mais de uma hora, at\u00e9 que chegou a hora do curso. S\u00e9rgio, curioso n\u00e3o deixou de comparecer \u00e0 chamada.<br>Ele queria conhecer a mulher que fez com que o seu amigo, todos estes anos se afastasse de todas as outras. Ele queria falhar-lhe, ouvir-lhe a voz, saber o que de especial tinha essa mulher, porque para ser amada como era por Pedro, s\u00f3 poderia ser uma mulher especial. E, se bem o pensou, melhor o fez.<\/li>\n\n\n\n<li>Bom dia menina, apresento-me, S\u00e9rgio, um dos seus futuros professores de mergulho.<br>Um sorriso envergonhado surgiu nos l\u00e1bios de Maria e, estendendo a sua m\u00e3o, timidamente disse:<\/li>\n\n\n\n<li>Bom dia, sou a Maria.<\/li>\n\n\n\n<li>Tenho ideia de j\u00e1 a ter visto, mas n\u00e3o sei onde!<\/li>\n\n\n\n<li>N\u00e3o me parece. Sou nova aqui, vim do interior, cheguei ontem, vi que estavam a dar este curso e como o mar \u00e9 a minha paix\u00e3o, resolvi entrar nele.<\/li>\n\n\n\n<li>Com licen\u00e7a, as aulas v\u00e3o come\u00e7ar. Muito prazer Maria, se for preciso alguma coisa, n\u00e3o tenha receio de dizer. &#8211; Sorrindo, apertou-lhe a m\u00e3o.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong><em>PARTE IV<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Cada um seguiu o seu caminho e S\u00e9rgio n\u00e3o resistiu em ir ter com o Pedro. Entrou no seu gabinete, como um furac\u00e3o, gritando:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Pedro, mostra-me os teus poemas.<\/li>\n\n\n\n<li>Est\u00e1s doido? Que se passa? Porqu\u00ea essa gritaria?<\/li>\n\n\n\n<li>Eu conheci-a, eu conheci a tua Maria, eu fui apresentar-me a ela.<\/li>\n\n\n\n<li>Conheceste a Maria? Conta como foi isso? Como est\u00e1 ela? Est\u00e1 casada? Tem filhos? &#8211; Ao dizer isso as suas m\u00e3os tremiam, a sua voz tr\u00e9mula mostrava bem o seu estado de ansiedade.<\/li>\n\n\n\n<li>Calma rapaz. &#8211; Disse S\u00e9rgio a sorrir. &#8211; Eu s\u00f3 me apresentei, ela pouco falou comigo, ela estava t\u00edmida, mas Pedro, digo-te uma coisa, s\u00f3 uma mulher daquelas te faria estar estes anos todos sozinho. &#8211; Ao dizer isso um sorriso malicioso apareceu ao canto de sua boca.<\/li>\n\n\n\n<li>Diz S\u00e9rgio, de que falaram? Ela est\u00e1 casada?<\/li>\n\n\n\n<li>N\u00e3o h\u00e1 alian\u00e7a naquele dedinho delicado, isso posso-te eu garantir, mas ela s\u00f3 me disse o nome, Maria e que veio do interior. Mas ela \u00e9 bonita a valer, delicada, suave, viste-a bem ontem?<\/li>\n\n\n\n<li>Como ela \u00e9 alta, aqueles olhos azuis a fazerem contraste com aquela longa cabeleira preta, aquele sorriso, sempre nos seus olhos e l\u00e1bios, morena, vestida com descri\u00e7\u00e3o, mas com gosto. Pedro, tens a certeza que ela veio do interior? Duma aldeia? Ela \u00e9 a tua mulher Pedro, eu j\u00e1 n\u00e3o duvido mais duma coisa dessas. &#8211; Dizendo isso, pegou nos poemas que o Pedro lhe estendia e come\u00e7ou a l\u00ea-los.<br>Eles falavam do seu grande amor por Maria. Neles, descrevia como tinham sido as suas vidas de adolescentes. Descrevia o sofrimento pelo qual passou ao longo destes anos e S\u00e9rgio estava maravilhado com tudo aquilo.<br>Ele amava a sua esposa, mas n\u00e3o daquela maneira, ele jamais tinha visto amor com a grandeza daquele que Pedro nutria por Maria e ali ficou lendo, sem nada dizer, sem notar que Pedro se tinha retirado.<\/li>\n\n\n\n<li>Pedro. &#8211; Chamou ele sem levantar a cabe\u00e7a e, como n\u00e3o ouviu resposta, ergueu os seus olhos e viu que estava s\u00f3.<br>Olhou o rel\u00f3gio e verificou que esteve ali est\u00e1tico durante uma hora a ler os poemas do amigo, essas maravilhas do amor e, como se estivesse falando para o amigo, disse:<\/li>\n\n\n\n<li>Olha este, v\u00ea este, neste dia n\u00e3o devias estar muito inspirado. &#8211; Come\u00e7ou a l\u00ea-lo em voz alta.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Cem anos na terra eu viva<br>Outros tantos cem viveria<br>\u00c1 procura de ti minha diva<br>Sem desistir um s\u00f3 dia<br>Em cada dia que finda<br>Mata-me a minha saudade<br>E a tristeza \u00e9 bem vinda<br>Longe da tua liberdade<br>Mais um dia est\u00e1 a nascer<br>Renasce tamb\u00e9m a esperan\u00e7a<br>De hoje te encontrar e te ter<br>Pois s\u00f3 tenho tua lembran\u00e7a<br>Meu cora\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o ama<br>Nem outro amor eu vou querer<br>Maria tu \u00e9s toda a minha vida<br>Sem ti eu n\u00e3o sei mais viver!<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, como ningu\u00e9m estava ali para o ouvir ler, porque Pedro tinha sa\u00eddo, ele estava transtornado, n\u00e3o conseguia estar quieto.<br>Tinha que ver a Maria, nem que fosse de longe, ele tinha que saber como ela estava.<br>S\u00e9rgio saiu da sala e foi a casa falar com a sua esposa. Levava consigo alguns poemas do Pedro, para partilhar com ela a sua emo\u00e7\u00e3o, a emo\u00e7\u00e3o de ter um amigo assim, com essa capacidade de amar.<br>Ao chegar a casa chamou Lu\u00edsa, a sua mulher, e come\u00e7ou a contar-lhe a hist\u00f3ria do seu amigo Pedro e de Maria.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Ser\u00e1 que ela ainda o ama tamb\u00e9m? &#8211; Perguntou Lu\u00edsa.<\/li>\n\n\n\n<li>N\u00e3o sei. &#8211; Respondeu S\u00e9rgio. &#8211; Ele nunca me falou do amor dela, mas s\u00f3 pode, eles t\u00eam demasiadas coisas em comum, o celibato, o amor ao mar. Eles amam-se Lu\u00edsa, eu n\u00e3o me engano.<\/li>\n\n\n\n<li>Dizendo isso, agarrou nas m\u00e3os da esposa apertando-as como que a pedir-lhe ajuda e, como ela o conhecia t\u00e3o bem, sentiu aquele aperto de m\u00e3o e, sorrindo, disse-lhe:<\/li>\n\n\n\n<li>Queres ajud\u00e1-los a encontrarem-se?<\/li>\n\n\n\n<li>Sim. &#8211; Respondeu ele. &#8211; Esse casmurro n\u00e3o vai falar com ela, n\u00e3o lhe vai mostrar o que sente por ela. A sua timidez n\u00e3o o deixa fazer isso, temos que fazer algo por eles.<\/li>\n\n\n\n<li>Deixa por minha conta. Amanh\u00e3 j\u00e1 vou \u00e0 escola e, como se fosse por acaso, eu falo com ela. &#8211; Dizendo isso, beijou o nariz ao marido, e rematou:<\/li>\n\n\n\n<li>Agora vai, ainda d\u00e3o pela tua falta l\u00e1 na academia.<br>S\u00e9rgio, beliscando o rosto da sua esposa, saiu sorrindo, gritando:<\/li>\n\n\n\n<li>\u00c9s um amor.<br>Assim que Lu\u00edsa se encontrou sozinha, ficou pensativa e, diante dos seus olhos, passou um filme rom\u00e2ntico. Ela j\u00e1 via o Pedro e a Maria sa\u00edrem da Igreja, j\u00e1 casados. Lu\u00edsa j\u00e1 via os seus filhotes brincarem com os filhotes dos seus amigos Pedro e Maria e a sua cabe\u00e7a n\u00e3o mais descansou. Tinha que fazer algo por aqueles dois.<\/li>\n\n\n\n<li>Mas espera Lu\u00edsa. &#8211; Diz ela para si mesma. &#8211; Sabes se Maria ama o Pedro?<br>Ama sim, ela tem que am\u00e1-lo. &#8211; Dizia seu incorrig\u00edvel cora\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntico.<br>Ficou a pensar na melhor maneira de abordar Maria, como se fosse por acaso e, entre uma e outra artimanha que passava na sua mente, ia continuando os seus afazeres, pensando que de tarde, ap\u00f3s o almo\u00e7o, iria \u00e0 escola. Ela at\u00e9 tinha que l\u00e1 ir, pois sendo a contabilista da academia, tinha que l\u00e1 ir buscar uns pap\u00e9is.<br>Aproveitava e procurava Maria, porque n\u00e3o poderia passar esse dia sem a abordar e, ao pensar assim, sorriu, um sorriso maroto, como se j\u00e1 tivesse a certeza que sua obra iria ser realizada com \u00eaxito.<br>Entretanto, l\u00e1 na academia, Maria continuava com as suas aulas e aos poucos ia conhecendo os colegas e estava feliz.<br>Todos eram agrad\u00e1veis, todos tinham uma palavra meiga para ela, eles sabiam que Maria tinha chegado h\u00e1 dois dias do interior, porque o professor fez esse coment\u00e1rio na aula de apresenta\u00e7\u00e3o e eles deduziram que ela estivesse s\u00f3 naquela cidade e sorriam-lhe como querendo dizer-lhe \u201cn\u00e3o estas s\u00f3, somos um grupo, somos como uma fam\u00edlia\u201d.<br>Maria comovia-se com aqueles sorrisos de carinho e sentia-se menos s\u00f3. Sentia que o mundo n\u00e3o era t\u00e3o ruim como ela estava imaginando.<br>A pensar nisso, saiu da sala de aula e a caminho do refeit\u00f3rio ela viu que, \u00e0 sua frente, de costas e na mesma direc\u00e7\u00e3o, seguia um homem, cuja figura lhe chamou \u00e0 aten\u00e7\u00e3o.<br>Sentiu algo estranho dentro de si. Reparou na sua maneira de andar, no seu cabelo e, batendo na sua testa, comentou consigo mesma:<\/li>\n\n\n\n<li>Maria deixa de ser louca, v\u00ea o Pedro em tudo que se mexe. Ele estar\u00e1 bem longe daqui, sabe-se l\u00e1 onde anda, n\u00e3o sonhes alto, acorda para a realidade.<\/li>\n\n\n\n<li>Fechou por segundos os olhos e sentiu mais uma vez essa dor dentro de si, mas reagiu e quando abriu os olhos, essa figura j\u00e1 n\u00e3o se avistava.<br>Maria pensou que tinha sido uma alucina\u00e7\u00e3o sua, s\u00f3 que Maria desconhecia que, no momento que fechou os olhos, essa figura olhou para tr\u00e1s e, vendo que era ela, escondeu-se atr\u00e1s dum pilar para a ver passar sem ser notado.<br>Quando Maria passou perto dele, Pedro ficou paralisado.<\/li>\n\n\n\n<li>Como ela est\u00e1 linda, meus Deus. &#8211; Comentou. &#8211; Como ela se transformou nesta mulher linda. Os seus olhos, o seu andar delicado, o seu cabelo tratado com carinho, parece uma rainha e eu n\u00e3o posso ser o seu rei\u2026 porqu\u00ea\u2026? Porqu\u00eaeeeeeeeeee\u2026??? &#8211; Gritou para dentro de si.<\/li>\n\n\n\n<li>Que fiz de errado para n\u00e3o merecer o seu amor? Quem fui eu para merecer tamanho castigo? Porque a amo ainda? Aindaaaaaaa? Eu amo-a mais do que nunca, disso eu sei agora, tens que ser minha Maria, tens que ser o meu amor, eu tenho tanto carinho, tanto amor, para te dar. Meu Deus n\u00e3o me castigues mais! &#8211; Gritou ele.<br>Com essas palavras seguiu para o exterior da academia. J\u00e1 tinha perdido o apetite, ele n\u00e3o poderia comer no mesmo s\u00edtio que Maria, sem lhe falar, sem os seus olhos fixar. E, na sua mente, outro poema saiu.<br>Pedro sentiu que estava enlouquecendo de tanto amar essa mulher e n\u00e3o ter coragem de lhe dizer, n\u00e3o ter coragem de lutar contra a sua cobardia e imaginou que ela ia ser sua nessa noite fria de Janeiro.<br>Do seu peito soou um grito de dor, de desejo, de paix\u00e3o, de amor incontrolado. E escreveu o poema:<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Maria\u2026 Tu \u00e9s a lua, que carrego dentro de mim<br>Sonho a dormir, sonho acordado<br>N\u00e3o paro de pensar em ti<br>Fecho teus olhos, para tuas p\u00e1lpebras beijar<br>Nesta fria e longa madrugada<br>Com carinho, com fervor<br>Preparo teu corpo, para poder amar,<br>Com car\u00edcias, com beijos, com amor<br>Libertamos todo o stress<br>Desses anos de solid\u00e3o e de dor<br>Te amo, te delicio<br>Tua loucura se liberta,<br>Nossos anseios se conjugam<br>Nossos olhos se encontram<br>Nossos corpos rodopiam<br>De paix\u00e3o, de prazer<br>De sentidos que arrepiam<\/p>\n\n\n\n<p>Ao sa\u00edrem essas palavras de dentro de si, Pedro assustou-se e n\u00e3o querendo acreditar no que a sua mente estava pensando, dirigiu-se a casa do seu amigo S\u00e9rgio, pois necessitava falar com algu\u00e9m, sen\u00e3o endoidecia.<br>Como s\u00f3 \u00e0s dezasseis horas \u00e9 que ambos tinham a primeira aula da tarde, resolveu passar por l\u00e1, para falar com ele e com a meiga Lu\u00edsa, j\u00e1 que ela t\u00e3o bem o compreendia.<br>Pedro tinha sido seu padrinho de casamento, porque Lu\u00edsa, tal como Maria, n\u00e3o tinha pais nem ningu\u00e9m por perto, no dia de seu casamento e convidaram-no para ele representar seu pai nesse dia.<br>Pedro aceitou com emo\u00e7\u00e3o. Ele adorava aqueles seus dois amigos de peito e, embora nunca tivesse contado a Lu\u00edsa a sua hist\u00f3ria, ele sabia que S\u00e9rgio h\u00e1 muito, lha havia contado.<br>Havia muita cumplicidade entre eles, muita confian\u00e7a, muito amor e S\u00e9rgio jamais lhe esconderia uma coisa dessas e Pedro desconfiava disso, porque a Lu\u00edsa, descarada como era, se nunca lhe perguntou o porqu\u00ea de seu celibato, \u00e9 porque sabia de algo. Com esse pensamento bateu \u00e0 porta.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Pedro, que bom ver-te por aqui. Entra, o S\u00e9rgio est\u00e1 na sala de jantar, vem que vou p\u00f4r um prato para ti na mesa.<\/li>\n\n\n\n<li>N\u00e3o Lu\u00edsa. &#8211; Disse o Pedro estendendo o rosto para a cumprimentar. &#8211; S\u00f3 vim falar com voc\u00eas, preciso dum conselho, preciso de falar, sen\u00e3o rebento.<br>Lu\u00edsa ficou sem fala. Que se passaria com Pedro para lhe falar nisso a ela. Ele que nunca se tinha aberto consigo.<\/li>\n\n\n\n<li>Deves estar mesmo mal, meu amigo. &#8211; Replicou Lu\u00edsa e, dizendo isso, abra\u00e7ou-o e assim entraram na sala de jantar, onde S\u00e9rgio se encontrava a comer.<br>Lu\u00edsa retirou-se, com o pretexto de ir buscar um prato para o Pedro, deixando-o assim iniciar o seu desabafo com o S\u00e9rgio.<br>Daria um pouco de tempo e s\u00f3 depois \u00e9 que entraria, quando sentisse que seria a hora, pois ela sentia que Pedro vinha falar de Maria e assim foi. Quando chegou \u00e0 sala com o prato e os talheres para Pedro, encontrou-o com as m\u00e3os na cabe\u00e7a, a dizer:<\/li>\n\n\n\n<li>Eu enlouque\u00e7o, ajudem-me, digam-me que devo fazer. &#8211; Dizendo isso agarrou nas m\u00e3os de Lu\u00edsa e disse.<\/li>\n\n\n\n<li>Lu\u00edsa, eu nunca te contei, mas eu amo muito uma mulher. S\u00e9rgio sabe h\u00e1 muitos anos da minha hist\u00f3ria, mas nunca tive coragem de ta contar. &#8211; Lu\u00edsa na sua habitual inoc\u00eancia e sinceridade disse:<\/li>\n\n\n\n<li>Pedro, eu conhe\u00e7o-a, o meu marido j\u00e1 me contou e sei que ela est\u00e1 c\u00e1 em Peniche, na academia.<br>Pedro sorriu e disse: &#8211; Estou a ver, este bisbilhoteiro n\u00e3o se calaria por nada deste mundo. &#8211; E seguiu suas palavras com uma pancadita nas costas de S\u00e9rgio. &#8211; Ainda bem, assim vai ser mais f\u00e1cil falar convosco meus amigos!<br>Pedro falou das suas d\u00favidas, do seu amor por Maria, da sua cobardia em se aproximar dela, do momento em que a viu novamente e das tenta\u00e7\u00f5es que teve em lhe falar, de a abra\u00e7ar, de a raptar para bem longe de qualquer olhar, de sentir a certeza se era ou n\u00e3o amado por ela com a mesma intensidade.<br>Falou muito e, com um olhar turvo pela dor, com as m\u00e3os crispadas pelo desespero, com ansiedade de ouvir mais algum som que n\u00e3o fosse o da sua voz.<br>Mas naquela sala fez-me um sil\u00eancio f\u00fanebre, S\u00e9rgio e Lu\u00edsa nem pestanejavam, de tal maneira est\u00e1ticos estavam, com as palavras que acabavam de ouvir.<br>Eles n\u00e3o queriam acreditar que no s\u00e9culo XXI, ainda existisse algu\u00e9m com essa capacidade de amar dessa forma, n\u00e3o s\u00f3 com os sentidos, mas com alma, com todas as part\u00edculas do seu corpo e esse algu\u00e9m estava diante deles, desesperado, sem saber que fazer, numa espera angustiosa dum conselho amigo, duma palavra de esperan\u00e7a, ele queria ouvir o que seu cora\u00e7\u00e3o pedia \u2013 Pedro amo-te \u2013 queria ouvir da boca de Maria, mas\u2026 os seus amigos n\u00e3o podiam pronunciar essas palavras.<br>N\u00e3o sabiam qual o sentimento que Maria nutria por Pedro e Lu\u00edsa com voz embargada pela emo\u00e7\u00e3o, levantou-se e disse:<\/li>\n\n\n\n<li>Meu amigo, meu irm\u00e3o. Como eu queria dizer que Maria te ama com a mesma intensidade que tu, mas\u2026 eu nem sei se ela te ama, eu nem a conhe\u00e7o, mas daria tudo para neste momento gritar bem alto nesta sala que a Maria te amaaaaaaaaaa, mas n\u00e3o o posso fazer, mas posso sim dizer bem alto, para ouvires, para entenderes\u2026Vai\u2026 vai ter com ela, diz que a amas, n\u00e3o sufoques mais esse sentimento que tens dentro de ti.<\/li>\n\n\n\n<li>O que vier por acr\u00e9scimo \u00e9 sempre bom, porque perd\u00ea-la, j\u00e1 a ter\u00e1s perdido, se a recuperares ser\u00e1 uma b\u00ean\u00e7\u00e3o para essa tua alma atormentada.<\/li>\n\n\n\n<li>N\u00e3o posso Lu\u00edsa, eu tenho medo dum n\u00e3o, ela j\u00e1 nem se deve lembrar de mim.<\/li>\n\n\n\n<li>Como podes afirmar umas coisas dessas? Replicou S\u00e9rgio.<\/li>\n\n\n\n<li>J\u00e1 sei, n\u00e3o reages, reajo eu, n\u00e3o vais ter com ela? Muito bem, vou eu. &#8211; Dum salto, Lu\u00edsa levantou-se da cadeira e, despindo devagar o seu avental, encaminhou-se para a porta, esperando uma reac\u00e7\u00e3o de Pedro\u2026<\/li>\n\n\n\n<li>Espera Lu\u00edsa, n\u00e3o fa\u00e7as isso, n\u00e3o disseste \u00e0 pouco que tinhas que ir \u00e0 academia?<\/li>\n\n\n\n<li>Sim vou e vou falar com a Maria &#8211; Abriu a gaveta do arm\u00e1rio e, num gesto brusco, tirou de l\u00e1 uns pap\u00e9is e mostrou-os ao Pedro.<\/li>\n\n\n\n<li>Sabes o que \u00e9 isto, Pedro?<\/li>\n\n\n\n<li>Sei. &#8211; Disse Pedro sorrindo. &#8211; Eu reconheceria esses pap\u00e9is at\u00e9 de olhos fechados, s\u00f3 pelo simples toque. Esses s\u00e3o os meus poemas, alguns que o S\u00e9rgio esteve ontem a ler.<\/li>\n\n\n\n<li>Virando-se para o S\u00e9rgio perguntou-lhe: &#8211; Que est\u00e3o fazendo na tua casa?<\/li>\n\n\n\n<li>Trouxe-os para mostrar \u00e0 Lu\u00edsa. N\u00e3o resisti, ela tinha que ler essa beleza, n\u00e3o te zangues Pedro, n\u00f3s s\u00f3 te queremos bem, n\u00f3s s\u00f3 te queremos ajudar.<\/li>\n\n\n\n<li>Dizendo isso levantou-se da cadeira, p\u00f4s as m\u00e3os nos ombros do amigo e acrescentou: &#8211; Deixa-nos ajudar-te Pedro. Deixa-nos ser testemunhas da tua felicidade, deixa-nos sentir que tu \u00e9s feliz, para n\u00f3s o podermos ser tamb\u00e9m.<br>As suas \u00faltimas palavras j\u00e1 foram pronunciadas com a voz enrouquecida pela emo\u00e7\u00e3o, com l\u00e1grimas nos olhos.<br>Pedro era como um irm\u00e3o para eles e nunca se tem vergonha de chorar diante dum irm\u00e3o.<br>S\u00e9rgio chorou como uma crian\u00e7a abra\u00e7ado ao amigo, um abra\u00e7o de paz, de solidariedade e amizade, porque ele estava a sentir o sofrimento de Pedro.<\/li>\n\n\n\n<li>Ok, ok, que pensam fazer? Digam de vez, n\u00e3o me deixem mais nesta expectativa, v\u00e1 l\u00e1\u2026 Soltem essa l\u00edngua.<\/li>\n\n\n\n<li>Sabes o que vou fazer? Vou agora conhecer a Maria. Vou procur\u00e1-la e levo comigo estes poemas, para o caso de precisar deles.<\/li>\n\n\n\n<li>Dizendo isso saiu porta fora, sem que desse tempo a Pedro de reclamar\u2026<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong><em>PARTE V<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Lu\u00edsa chegou \u00e0 academia, entrou no gabinete, dirigiu-se \u00e0 secret\u00e1ria do Costa e, com um sorriso, cumprimentou-o, sorriso esse que ele retribuiu, dizendo:<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Bom dia Lu\u00edsa, que bons ventos te trazem por c\u00e1?<\/li>\n\n\n\n<li>J\u00e1 n\u00e3o te lembras? Telefonas para minha casa, para vir buscar essas facturas, para vir buscar um livro e outros pap\u00e9is e fazes essa pergunta! &#8211; Puxando duma cadeira sorrindo, sentou-se.<\/li>\n\n\n\n<li>Ai Lu\u00edsa esta velhice, acreditas que j\u00e1 n\u00e3o me lembrava de ter telefonado? S\u00f3 quando voltasse a pegar nos pap\u00e9is, \u00e9 que voltaria a lembrar-me.<\/li>\n\n\n\n<li>Disse co\u00e7ando sua calv\u00edcie. &#8211; Os cinquenta anos Lu\u00edsinha\u2026 Quando l\u00e1 chegares ver\u00e1s \u2013 Ambos deram uma gargalhada. O Costa levantou-se foi a um arm\u00e1rio tirou de l\u00e1 uma pasta e um livro e entregou-os \u00e0 Lu\u00edsa.<\/li>\n\n\n\n<li>Agora \u00e9 contigo, sabes que contabilidade n\u00e3o \u00e9 c\u00e1 com o velhote. &#8211; Lu\u00edsa agarrou neles e com um ar muito ing\u00e9nuo indagou:<\/li>\n\n\n\n<li>Ent\u00e3o conta l\u00e1 Costa, gente nova por aqui ou n\u00e3o? Algu\u00e9m que merecesse a tua aten\u00e7\u00e3o?<\/li>\n\n\n\n<li>Ent\u00e3o, o teu marido n\u00e3o te disse? Entrou h\u00e1 dois dias uma mi\u00fada muito bonita, para o curso de mergulhadores, vinda do interior, s\u00f3 queria que a visses, uma mistura de anjo e sereia, tal a beleza dela, uma beleza selvagem, misturada com uma beleza celestial, feliz do homem que a levar.<\/li>\n\n\n\n<li>Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 casada? Solteirinha. &#8211; Sorriu malicioso. &#8211; Se a minha Carla sabe que falo assim de outra mulher\u2026 Ai Costa, apareces morto na Costa\u2026<br>Ambos deram uma gargalhada. E Lu\u00edsa continuou a pesquisa.<\/li>\n\n\n\n<li>Tenho que conhec\u00ea-la! Sabes onde ela est\u00e1 neste momento? Gostava de a ver, uma vez que ainda estamos na hora de almo\u00e7o, chegava-me ao p\u00e9 dela e via-a.<\/li>\n\n\n\n<li>Olha, tens sorte. Vi-a h\u00e1 pouco a caminho da praia, do lado das \u00e2ncoras azuis, n\u00e3o sei que v\u00ea ela de especial nesse s\u00edtio, porque, \u00e0 hora do almo\u00e7o, l\u00e1 vai ela a caminho das \u00e2ncoras.<\/li>\n\n\n\n<li>Sabes, ontem fui espreitar e ali fica sentada at\u00e9 \u00e0 hora das aulas, sozinha, pensativa, n\u00e3o tirando os olhos do mar, como se esperasse algu\u00e9m vindo atrav\u00e9s dele.<\/li>\n\n\n\n<li>\u00c9 estranha essa mo\u00e7a Lu\u00edsa, gostava que falasses com ela, parece ser boa mo\u00e7a e um pouco solit\u00e1ria, fazes isso? Sabes que psicologia \u00e9 contigo, a ti recorremos quando temos problemas com algu\u00e9m, n\u00e3o sei que tens de especial mi\u00fada. &#8211; Sorriu.<\/li>\n\n\n\n<li>Est\u00e1 bem Costa. At\u00e9 tenho a tarde livre, vou at\u00e9 l\u00e1, depois amanh\u00e3 digo-te como foi. &#8211; Despedindo-se com um esticar de m\u00e3os, saiu.<br>Lu\u00edsa saiu pelo port\u00e3o que separava a academia da praia. Descal\u00e7ou-se e foi em direc\u00e7\u00e3o \u00e0s \u00e2ncoras azuis, um local calmo, sereno, com um barco atracado na areia, pintado de verde e azul e com os dizeres \u201cAcademia de Mergulhadores\u201d. \u00c9 um local onde as ondas batem e estalam nas rochas.<br>Ao longe, um barco de pesca parado em alto mar, que ajudava em toda aquela beleza. Lu\u00edsa ao apreci\u00e1-la pensou: &#8211; S\u00f3 uma alma sens\u00edvel se lembraria de vir para aqui.<br>E diz o Costa que n\u00e3o sabe o que tem este s\u00edtio de especial? &#8211; Abanou a cabe\u00e7a e seguiu em frente em direc\u00e7\u00e3o a Maria.<\/li>\n\n\n\n<li>Bom dia. &#8211; Disse Lu\u00edsa estendendo a m\u00e3o. &#8211; Sou a esposa do professor S\u00e9rgio aqui da Academia, julgo que seja uma das alunas.<\/li>\n\n\n\n<li>Bom dia. &#8211; Respondeu timidamente Maria. &#8211; Sim, sou uma das novas alunas da Academia. Prazer, chamo-me Maria.<\/li>\n\n\n\n<li>Posso sentar-me a apreciar esta beleza? Que me diz a este s\u00edtio? &#8211; E, para inspirar confian\u00e7a\u2026 mentiu. &#8211; Sabe? Ainda hoje, venho para aqui namorar, pois \u00e9 o nosso cantinho desde solteiros.<\/li>\n\n\n\n<li>Sim \u00e9 lindo. S\u00f3 estou aqui na academia h\u00e1 tr\u00eas dias e na hora do almo\u00e7o venho aqui e aqui me perco nos meus pensamentos, a ver o mar, a sonhar.<\/li>\n\n\n\n<li>Desculpe, agora perdi-me a falar, parecia-me que j\u00e1 a conhe\u00e7o h\u00e1 muito e s\u00f3 nos vimos agora pela primeira vez e j\u00e1 estou pensando alto. &#8211; Disse timidamente.<\/li>\n\n\n\n<li>Olha Maria, posso tratar-te por tu? Somos quase da mesma idade pelo aspecto. Eu tenho trinta e dois anos.<\/li>\n\n\n\n<li>Sim podes, eu tenho menos um que tu. Sabes, encontro-me muito s\u00f3 aqui nesta tua cidade e falar alivia-me, liberta-me e h\u00e1 muito que n\u00e3o falo a s\u00f3s com algu\u00e9m.<\/li>\n\n\n\n<li>Desde o dia vinte e quatro de Dezembro, dia do casamento da minha prima e minha melhor amiga.<\/li>\n\n\n\n<li>Maria, tamb\u00e9m estou muito sozinha, s\u00f3 tenho meu marido, sem mais fam\u00edlia, e mo\u00e7as da minha idade, poucas ou quase nenhumas.<\/li>\n\n\n\n<li>Com as que falo, s\u00e3o mulheres dos colegas do meu marido e \u00e9 em dias de festas e pouco mais, por isso, bem vinda a bordo. &#8211; Estendeu a m\u00e3o e apertou a de Maria que tamb\u00e9m lhe oferecia a sua.<br>Ambas sentiram que naquele momento tinha nascido uma bela amizade. Nenhuma delas sabia o porqu\u00ea desse sentimento, mas sentiram as duas o mesmo e n\u00e3o ligaram a isso.<br>Ambas precisavam duma amiga. Lu\u00edsa tinha a amizade do Pedro, mas ele era homem e uma mulher compreende melhor as necessidades, os anseios, as tristezas de outra e ficou feliz porque sentiu que podia confiar na Maria, assim como Maria sentiu que tinha ali diante de si uma segunda Joana e sorriu, com um ar feliz, um ar de paz, de tranquilidade.<br>Falaram de coisas banais durante a meia hora que faltava para as aulas come\u00e7arem.<br>Maria despediu-se, dizendo que estava na hora de come\u00e7ar as suas aulas da tarde.<\/li>\n\n\n\n<li>Maria que costumas fazer depois das aulas? Elas acabam as cinco e meia?! &#8211; Perguntou Lu\u00edsa<\/li>\n\n\n\n<li>Nada de especial. &#8211; Disse Maria. &#8211; Ou venho at\u00e9 aqui um pouco, mas como a essa hora o frio faz-se sentir mais forte, estou aqui pouco tempo, ou vou directamente para o meu quarto ler at\u00e9 \u00e0 hora do jantar.<\/li>\n\n\n\n<li>O meu marido hoje s\u00f3 sai as oito horas, porque tem uma reuni\u00e3o depois das aulas. Posso passar aqui \u00e0 sa\u00edda e vens conhecer a minha casa, lanchamos e fazemos companhia, uma \u00e0 outra. &#8211; Prop\u00f4s Lu\u00edsa.<\/li>\n\n\n\n<li>N\u00e3o quero incomodar, tu tens a tua vida, fica para outra ocasi\u00e3o. &#8211; Disse Maria envergonhada, mas desejosa de aceitar, porque a solid\u00e3o estava a pesar muito no seu \u00edntimo.<\/li>\n\n\n\n<li>N\u00e3o senhora. &#8211; Replicou Lu\u00edsa. &#8211; Fica combinado, \u00e1s cinco e meia, estou \u00e0 porta da academia a tua espera.<\/li>\n\n\n\n<li>Dizendo isso, levantaram-se e entraram na academia, seguindo Maria para as aulas e Lu\u00edsa para casa, trabalhar um pouco na contabilidade at\u00e9 as cinco e um quarto\u2026<br>Enquanto Maria seguia sua vida entre a academia e seu quarto, l\u00e1 longe, a sua tia Sofia pensava nela e do\u00eda-lhe olhar aqueles corredores e n\u00e3o ver Maria deambular por eles e sentia a sua falta.<br>Sentia falta daquele sorriso que, embora triste, era sempre meigo; daquela voz que tinha sempre um tom de carinho fosse para quem fosse e uma l\u00e1grima saiu de seus olhos e pensou:<\/li>\n\n\n\n<li>Tenho que falar com meus filhos. Algum de n\u00f3s tem que ir ver a Maria, saber se est\u00e1 bem. A sua voz n\u00e3o estava alegre quando ontem me telefonou.<br>Magicou uma maneira de resolver este assunto, at\u00e9 que uma ideia brilhante lhe passou pela cabe\u00e7a.<\/li>\n\n\n\n<li>Porque n\u00e3o Joana? Ela est\u00e1 em lua-de-mel no Algarve e, de regresso a casa, pode passar por Peniche para ver Maria\u2026 \u2013 E, sorrindo, dirigiu-se ao telefone para falar com Joana.<\/li>\n\n\n\n<li>Joana, filha, ontem falei com a Maria ao telefone e n\u00e3o me pareceu nada bem. Porque n\u00e3o passas por l\u00e1 e a visitas?<\/li>\n\n\n\n<li>Sim m\u00e3e. &#8211; Disse sorrindo Joana \u2013 Eu e o Eduardo j\u00e1 t\u00ednhamos falado nisso ontem. Quando voltarmos para casa, passamos por l\u00e1 e aproveitamos para ficar dois dias a fazer companhia \u00e0 Maria. Ela vai ficar feliz m\u00e3e. &#8211; E, com a voz emocionada, continuou:<\/li>\n\n\n\n<li>M\u00e3e, eu tenho tantas saudades da Maria. Ela pensar\u00e1 que, por eu me ter casado, n\u00e3o me preocupo com ela, mas n\u00e3o se passa assim, eu n\u00e3o queria que ela fosse para longe de n\u00f3s. &#8211; Ao acabar essas palavras come\u00e7ou a chorar.<\/li>\n\n\n\n<li>Filha. &#8211; Replicou a m\u00e3e. &#8211; N\u00e3o pod\u00edamos impedir a sua partida, ela n\u00e3o estava feliz. Maria pediu a minha compreens\u00e3o, porque ela precisava de viver a sua vida, procurar a sua felicidade e eu, Joana, tinha que a libertar, embora com o cora\u00e7\u00e3o pequenino, mas filha, a tua prima tem o direito de a procurar, como tu a procuraste e a encontraste, ela tamb\u00e9m a vai encontrar, minha alma de tia (m\u00e3e) sabe que isso vai acontecer.<\/li>\n\n\n\n<li>Eu pressinto que a felicidade de Maria est\u00e1 para breve, a sua felicidade est\u00e1 junto \u00e0quele mar, vamos torcer juntas para que isso aconte\u00e7a. &#8211; Dizendo isso sorrindo, despediu-se da filha e desligou o telefone.<br>Sofia seguiu para as suas tarefas, mas sempre pensando em Maria, convencendo-se que algo estava mal. Ela n\u00e3o tinha por habito magicar e repensar assim numa pessoa e o seu pensamento estava direccionado para Maria, como uma obsess\u00e3o e, como a sua inquietude a n\u00e3o deixava trabalhar, dirigiu-se para o quintal.<\/li>\n\n\n\n<li>Quem sabe se, apanhando um pouco de ar, me passa esta maluqueira. &#8211; Pensou ela abrindo a porta da entrada, empurrando os seus passos para a direc\u00e7\u00e3o das flores.<\/li>\n\n\n\n<li>Bom dia vizinha Sofia. Que cara \u00e9 essa? &#8211; Disse Manuel, o vizinho do lado, um rapaz da aldeia que era amigo de seus filhos e de Maria.<\/li>\n\n\n\n<li>V\u00ea l\u00e1 tu, Manel, que hoje acordei a pensar na Maria e estou preocupada com ela. Ontem falei com ela ao telefone e n\u00e3o me pareceu nada bem.<\/li>\n\n\n\n<li>Porque n\u00e3o vai visit\u00e1-la D. Sofia? &#8211; Perguntou Manuel.<\/li>\n\n\n\n<li>N\u00e3o posso, como iria estar fora tantos dias? E os meus filhos?<\/li>\n\n\n\n<li>Olhe D. Sofia. &#8211; Disse sorrindo Manuel \u2013 Tenho a solu\u00e7\u00e3o nas m\u00e3os, eu amanh\u00e3 vou a Lisboa e, se quiser, levo-a at\u00e9 Peniche, deixo-a l\u00e1 e de volta apanho-a e trago-a outra vez. S\u00f3 vou por dois dias e que s\u00e3o dois dias? At\u00e9 lhe ia fazer bem sair daqui. Pense nisso e logo d\u00ea-me uma resposta.<br>Tia Sofia, ficou a pensar na proposta do Manel e disse para si:<\/li>\n\n\n\n<li>Porque n\u00e3o? Os meus filhos j\u00e1 s\u00e3o uns homens, Joana esta fora, porque n\u00e3o me distrair. Aproveito e descanso este meu cora\u00e7\u00e3o que n\u00e3o est\u00e1 bem de tanta preocupa\u00e7\u00e3o por Maria! &#8211; Se bem o pensou melhor o fez. Foi ao quarto, preparou umas pe\u00e7as de roupa, pegou na sua malinha e deixou-a pronta, pensando:<\/li>\n\n\n\n<li>Vou sim, vou ver a minha Maria. Aproveito e levo-lhe a sua fruta preferida, ela deve estar passando mal, ela sempre comeu t\u00e3o pouco e agora s\u00f3zinha ainda pior. &#8211; Ficou feliz e feliz seguiu para a loja da esquina fazer umas compritas para Maria.<br>Eram dezanove horas quando Manuel chegou a casa. Sofia ouviu o carro do seu vizinho e dirigiu-se \u00e0 porta.<\/li>\n\n\n\n<li>Manel!\u2026 Tens raz\u00e3o, vou aproveitar a tua boleia e vou ver a Maria. A que horas partes daqui? &#8211; Perguntou Sofia.<\/li>\n\n\n\n<li>Que bom D. Sofia. Vamos cedo. Vai ver que n\u00e3o se arrepende e em pouco tempo ter\u00e1 a sua Maria nos bra\u00e7os e vai ver que isso \u00e9 apenas preocupa\u00e7\u00e3o de M\u00e3e, porque, D. Sofia, a senhora tem sido uma m\u00e3e para ela. &#8211; Disse Manuel sorrindo.<\/li>\n\n\n\n<li>Sim Manel, a Maria tamb\u00e9m \u00e9 minha filha, minha filha de cria\u00e7\u00e3o, amo-a como amo os meus filhos. &#8211; Disse Sofia com uma lagrimazita ao canto do olho, mas um sorriso de felicidade nos seus l\u00e1bios.<\/li>\n\n\n\n<li>Ent\u00e3o combinado D. Sofia, \u00e0s seis da manh\u00e3 esteja aqui em frente \u00e0 sua casa e partimos. &#8211; Dizendo isso, despediu-se e entrou em casa.<br>\u00c0 hora do jantar, Sofia comunicou a sua decis\u00e3o aos filhos e eles deram-lhe todo o apoio.<br>Eles tamb\u00e9m estavam preocupados com a sua prima e o Jorge, o primo mais velho, levantou-se da mesa, foi ao seu quarto e, quando regressou, trazia umas quantas notas na m\u00e3o, dizendo:<\/li>\n\n\n\n<li>M\u00e3e, d\u00ea este dinheiro \u00e0 Maria, ela pode estar precisando e a mim ele n\u00e3o me est\u00e1 fazendo falta. A vida l\u00e1 \u00e9 muito cara e n\u00e3o quero que minha prima passe por dificuldades, at\u00e9 ela arranjar emprego, muito tem que gastar com o curso que est\u00e1 a tirar. &#8211; E feliz estendeu a m\u00e3o \u00e0 m\u00e3e que agarrou no dinheiro emocionada.<\/li>\n\n\n\n<li>Tenho os melhores filhos do mundo. Que quero eu mais da vida. &#8211; Agarrou-se a eles e apertou-os com for\u00e7a, com for\u00e7a de m\u00e3e, com a for\u00e7a que o amor permite dar.<br>Seis da manh\u00e3, tia Sofia j\u00e1 estava pronta \u00e0 porta da sua casa esperando o vizinho Manuel. Estava ansiosa, de ver a sua Maria, de a abra\u00e7ar, de saber como ela est\u00e1 e, t\u00e3o absorta estava nos seus pensamentos, que n\u00e3o sentiu o vizinho chegar.<\/li>\n\n\n\n<li>Bom dia D. Sofia. &#8211; Diz ele, sorrindo com o salto que ela deu.<\/li>\n\n\n\n<li>Nem te vi chegar &#8211; Disse tia Sofia sorrindo &#8211; Estava aqui nos meus pensamentos\u2026<\/li>\n\n\n\n<li>Vamos? &#8211; Disse Manuel, pegando no saco de D. Sofia, colocando-o no carro e abrindo a porta para ela entrar.<br>Depois de aconchegados nos seus lugares, l\u00e1 partem a caminho de Peniche e durante o caminho conversam muito, falam de tudo, da vida, dos filhos da tia Sofia, da namorada de Manuel e sem que dessem por isso chegaram a Peniche, tr\u00eas horas depois.<br>Manuel, antes de se retirar, levou a tia Sofia \u00e0 academia para se certificar que ela estava entregue.<\/li>\n\n\n\n<li>Bom rapaz este. &#8211; Pensa para consigo tia Sofia, entrando na academia. &#8211; Merece ser feliz, merece uma mulher que o ame e o respeite.<br>Bateu a uma porta que estava \u00e0 entrada, porta essa que n\u00e3o era outra sen\u00e3o a do gabinete do Costa.<\/li>\n\n\n\n<li>Bom dia senhor. &#8211; Disse Sofia.<\/li>\n\n\n\n<li>Bom dia senhora, deseja alguma coisa? &#8211; Pergunta o Costa muito gentil. &#8211; Em que posso ser \u00fatil?<\/li>\n\n\n\n<li>Sou a tia da Maria, a mo\u00e7a que veio do interior. Sabe-me dizer se ela se encontra aqui? \u00c9 que n\u00e3o sei onde ela vive, se n\u00e3o tinha ido \u00e0 casa dela. &#8211; Disse a tia Sofia.<\/li>\n\n\n\n<li>Sim senhora, a menina Maria est\u00e1 nas aulas. S\u00e3o onze da manh\u00e3 e as aulas acabam ao meio dia, se a senhora n\u00e3o se importar de esperar eu levo-a \u00e0 sala de reuni\u00f5es, h\u00e1 l\u00e1 uma televis\u00e3o, ofere\u00e7o-lhe um caf\u00e9 e a senhora entret\u00e9m-se esperando que Maria saia das aulas.<\/li>\n\n\n\n<li>Obrigada senhor. \u00c9 gentileza sua, mas eu espero l\u00e1 fora.<\/li>\n\n\n\n<li>De maneira nenhuma minha senhora, eu levo-a \u00e0 sala, importa-se de me seguir!<br>Sofia estava admirada com a amabilidade daquele senhor e seguiu-o at\u00e9 \u00e0 sala de reuni\u00f5es.<br>Chegados l\u00e1, o Costa f\u00ea-la sentar-se, dirigiu-se ao bar que se encontrava no canto da sala, tirou uma caf\u00e9 e ofereceu-o \u00e0 tia Sofia, que agradeceu sorrindo.<br>Uma hora depois\u2026 Meio-dia e as aulas da manh\u00e3 acabaram. Maria dirigia-se para o refeit\u00f3rio, quando o Costa a chamou.<\/li>\n\n\n\n<li>Maria por favor, importas-te de chegar aqui?<\/li>\n\n\n\n<li>Sim, senhor Costa? Algum problema? &#8211; Indagou a Maria com o semblante preocupado.<\/li>\n\n\n\n<li>N\u00e3o \u2013 Sorriu ele. &#8211; Nada de mal, pelo contr\u00e1rio, vais \u00e0 sala de reuni\u00f5es e tens l\u00e1 uma surpresa.<\/li>\n\n\n\n<li>Uma surpresa, Sr. Costa? &#8211; Mais uma vez perguntou Maria. &#8211; Que surpresa?<\/li>\n\n\n\n<li>Maria, se eu te dissesse deixaria de ser surpresa. &#8211; Disse o Costa, empurrando-a carinhosamente.<br>Ele tinha aprendido a respeitar aquela rapariga, a sentir por ela um carinho que n\u00e3o tinha pelos restantes alunos. Maria parecia-lhe uma alma s\u00f3, abandonada e ele pensou na sua filha e sentiu que poderia ser ela a estar no lugar de Maria e aprendeu a v\u00ea-la como uma filha a quem se quer s\u00f3 o bem.<br>Maria seguiu para a sala de reuni\u00f5es. Ia para abrir a porta mas sentiu receio.<\/li>\n\n\n\n<li>Que surpresa ser\u00e1 essa Meu Deus? &#8211; Pergunta a si baixinho, pondo as m\u00e3os sobre o cora\u00e7\u00e3o.<\/li>\n\n\n\n<li>Seja o que for, eu tenho que ser forte. N\u00e3o o tenho sido ao longo desses anos todos? Porque n\u00e3o agora? &#8211; Decidida empurrou a porta, abrindo-a de par em par.<\/li>\n\n\n\n<li>N\u00e3o, n\u00e3o. &#8211; Maria gaguejava. Ela n\u00e3o estava crendo no que estava a ver.<\/li>\n\n\n\n<li>Tia Sofia, tu aqui? Tia Sofia\u2026<\/li>\n\n\n\n<li>Calma rapariga, sou eu sim, vem, chega aqui, d\u00e1 um abra\u00e7o \u00e0 velhota. &#8211; Puxando a m\u00e3o de Maria ainda tr\u00e9mula, agarrou-a e beijou-a muito, para matar todas as saudades dos dias que n\u00e3o a via.<\/li>\n\n\n\n<li>Tia Sofia, que bom estares aqui, como adivinhaste que eu precisava do teu abra\u00e7o hoje? &#8211; Disse Maria beijando as faces da tia.<\/li>\n\n\n\n<li>Eu n\u00e3o adivinhei filha, eu conhe\u00e7o-te t\u00e3o bem e a tristeza da tua voz ontem deixou-me preocupada. Telefonei \u00e0 Joana para vir c\u00e1 visitar-te quando viesse do Algarve, mas como o Manel, o nosso vizinho, vinha a Lisboa, eu n\u00e3o pensei duas vezes e vim com ele. Eu tinha que te ver Maria, estava t\u00e3o preocupada contigo filha.<\/li>\n\n\n\n<li>Dizendo isso duas l\u00e1grimas soltaram-se de seus olhos j\u00e1 enrugados pela dureza da vida.<\/li>\n\n\n\n<li>Tia, eu estou bem, s\u00f3 estou triste, sinto-me sozinha, mas de sa\u00fade estou bem, mas vamos. Vou mostrar-te o meu quarto, deixas l\u00e1 as tuas coisas, depois vamos almo\u00e7ar e esta tarde n\u00e3o vou \u00e0s aulas. &#8211; Disse Maria sorrindo.<\/li>\n\n\n\n<li>Esta tarde quero estar s\u00f3 contigo, temos tanto para falar. &#8211; Empurrou a tia docilmente para a sa\u00edda, chegou \u00e0 sala do Costa, bateu \u00e0 porta e, conforme ia entrando, ia falando:<\/li>\n\n\n\n<li>Sr. Costa, esta tarde n\u00e3o venho \u00e0s aulas, importa-se de avisar o professor S\u00e9rgio?<\/li>\n\n\n\n<li>Sim, Maria. Vai com a tua tia. Eu aviso-o. &#8211; Respondeu o Costa sorrindo para ela com carinho.<br>Chegaram ao quarto e Maria mostrou-o \u00e0 tia. Pediu-lhe para p\u00f4r as coisas em cima duma cadeira e disse-lhe:<\/li>\n\n\n\n<li>Esta noite vamos dormir aqui as duas, tia, como quando eu era pequenita e tinha medo. Lembras-te? &#8211; Sorriu\u2026<\/li>\n\n\n\n<li>Sim Maria, n\u00e3o me esqueci dos teus catorze anos, a tua correria para o meu quarto cheia de medo. Mas isso j\u00e1 passou, n\u00e3o falamos em coisas tristes. Depois, logo quando nos deitarmos as duas, falamos, para recordarmos coisas boas.<br>Sa\u00edram do quarto abra\u00e7adas a rir, parecendo duas crian\u00e7as felizes, porque suas almas estavam felizes, suas almas estavam nas nuvens, onde n\u00e3o h\u00e1 medos, nem solid\u00e3o, mas sim um grande amor, uma grande cumplicidade e dirigiram-se ao restaurante onde Maria comeu pela primeira vez.<br>Sentaram e pediram a especialidade da casa. Durante toda a refei\u00e7\u00e3o falaram do passado e do presente.<\/li>\n\n\n\n<li>Tia, agora vou mostrar-te o meu cantinho, o meu ref\u00fagio, onde passo a minha hora de almo\u00e7o, onde sonho. Porque sabes que sou uma sonhadora incorrig\u00edvel. &#8211; Disse Maria sorrindo.<\/li>\n\n\n\n<li>Se \u00e9s Maria! A quem o dizes. &#8211; Replicou a tia Sofia abra\u00e7ando a sobrinha. &#8211; Vamos l\u00e1 ent\u00e3o ver o teu ref\u00fagio.<br>Dirigiram-se \u00e0 praia da \u00e2ncora azul. As ondas batiam ferozmente nas rochas como a dar as boas vindas a Sofia.<br>O c\u00e9u estava azul, sem uma \u00fanica nuvem a escurecer aquele momento.<br>Maria sentou-se na areia, pegou na m\u00e3o da tia e f\u00ea-la sentar-se a seu lado. Seu olhar brilhava de felicidade, sentia-se como nos seus oitos anos de idade, quando a sua m\u00e3e se sentava a seu lado na praia e a acarinhava, enquanto Maria, rebelde, deitava areia para suas pernas rindo de alegria.<br>Uma sombra passou por seus olhos fugazmente, mas logo se desvaneceu, ela estava feliz com a sua tia e nada iria estragar esse momento maravilhoso.<br>Nem a lembran\u00e7a do Pedro a atormentou, porque Maria pensou: &#8211; Se Deus me deu hoje minha tia, porque n\u00e3o ir\u00e1 dar-me amanh\u00e3 Pedro? &#8211; Pensando nisso um sorriso maroto apareceu nos seus l\u00e1bios.<\/li>\n\n\n\n<li>Maria, agora que estamos s\u00f3s. &#8211; Disse a tia Sofia abrindo a sua mala. &#8211; Quero dar-te isto que o teu primo te mandou. &#8211; E puxando dum saco deu o dinheiro a Maria dizendo:<\/li>\n\n\n\n<li>Ele estava preocupado por n\u00e3o teres arranjado ainda emprego, aceita isto, filha. &#8211; Maria abriu o saco e viu muitas notas juntas e replicou:<\/li>\n\n\n\n<li>Tia, eu n\u00e3o preciso de dinheiro. Eu tenho gasto pouco e \u00e9 certo que ainda n\u00e3o arranjei emprego, mas a tia sabe que, depois de tirar o meu curso de l\u00ednguas, ainda sobrou dinheiro daquele que os meus pais me deixaram e ainda juntei mais com o que me sobrava do ordenado de todos estes anos de trabalho, n\u00e3o posso aceitar tia.<\/li>\n\n\n\n<li>Maria, por favor n\u00e3o fa\u00e7as essa desfeita ao teu primo, sabes que ele te ama como se fosses sua irm\u00e3 mais velha, \u00e9 compreens\u00edvel a sua preocupa\u00e7\u00e3o.<\/li>\n\n\n\n<li>Est\u00e1 bem tia, eu aceito-o, mas eu j\u00e1 estou procurando emprego e ontem passei por um Instituto de Ingl\u00eas e vi que precisavam de uma professora para as aulas nocturnas, quem sabe se n\u00e3o recebo duas prendas num s\u00f3 dia? A tua presen\u00e7a e um emprego? &#8211; E sorriu feliz, esperan\u00e7ada, acrescentando: &#8211; Logo, vais l\u00e1 comigo e se me aceitarem, vou ser a mulher mais feliz deste mundo por receber essa not\u00edcia na tua companhia minha m\u00e3e.<br>Tia Sofia emocionou-se ao ouvir aquelas palavras da boca da sua sobrinha. Nesses longos anos que Maria esteve consigo, jamais poderia imagin\u00e1-la a trat\u00e1-la por m\u00e3e e agarrou nas suas m\u00e3os e beijou-as com for\u00e7a, balbuciando:<\/li>\n\n\n\n<li>Sim filha, eu vou contigo a esse instituto e, de seguida, vamos \u00e0s compras. Quero ver-te bonita, com roupas novas, cal\u00e7ado novo, eu quero a minha menina como sempre foi, bem vestida e com um gosto caracter\u00edstico da tua alma meiga.<br>Ainda estiveram mais uma hora na praia. Maria foi abrindo o seu cora\u00e7\u00e3o de menina\/mulher, confidenciando-lhe todas as suas amarguras em rela\u00e7\u00e3o ao Pedro e a tia estava abismada.<br>Ela sabia que Maria, em tempos, tinha amado um rapaz, pois a sua Joana tinha-lhe contado, mas nunca pensou que esse amor durasse dezassete anos.<br>Agora ela compreendia toda a amargura da sua sobrinha. Aqueles olhos sempre tristes, com uma n\u00e9voa sempre a encobri-los, essa n\u00e9voa que n\u00e3o deixavam o seu azul brilhar.<br>Agora ela compreendia que Maria tinha que sair da sua gaiola dourada, procurar novos horizontes, nova vida, procurar o homem da sua vida e rezou a Deus para que Ele fosse generoso com sua alma, que a acalmasse, pondo-lhe nos seus bra\u00e7os o seu amor, o homem que sempre Maria amou.<br>Quatro horas da tarde. Maria olhou o rel\u00f3gio exclamando:<\/li>\n\n\n\n<li>Tia, as horas passaram sem darmos por isso. \u00c0s dezassete horas tenho a entrevista, vamos sen\u00e3o chego atrasada. &#8211; Disse sorrindo e pegando na m\u00e3o da sua tia para a ajudar a levantar-se.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n\n\n<p>                      <strong><em>PARTE VI<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Seguiram caminho e \u00e1s dezasseis e cinquenta estavam a chegar \u00e0 entrada do Instituto. Maria entrou, disse na portaria que tinha uma entrevista e encaminharam-na para falar com a directora.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Boa tarde. &#8211; Disse Maria estendendo a m\u00e3o \u00e0 directora.<\/li>\n\n\n\n<li>Maria muito prazer, sou a directora deste Instituto. &#8211; Disse a senhora entendendo a m\u00e3o tamb\u00e9m em direc\u00e7\u00e3o \u00e0 de Maria.<\/li>\n\n\n\n<li>Ent\u00e3o veio por causa da vaga que temos?<\/li>\n\n\n\n<li>Sim, mas h\u00e1 um problema, eu ando a tirar um curso durante o dia e s\u00f3 me dava jeito se pudesse ficar com as aulas da noite.<\/li>\n\n\n\n<li>\u00d3ptimo, Maria. &#8211; Replicou a directora &#8211; est\u00e1vamos mesmo com dificuldades na vaga da noite, ningu\u00e9m quis ficar com ela. Sabe, as aulas acabam \u00e0s vinte e tr\u00eas e trinta, raz\u00e3o que desmotiva alguns professores. Sendo assim, depois de vermos o seu curr\u00edculo e se nos agradar, pode considerar a vaga sua.<br>Maria nem queria acreditar no que estava a ouvir.<\/li>\n\n\n\n<li>As coisas est\u00e3o a correr-me bem demais. &#8211; Pensava Maria puxando da sua pasta e entregando uma c\u00f3pia do seu curr\u00edculo \u00e0 directora.<br>Fez-se sil\u00eancio naquela sala. Maria estava observando a senhora \u00e0 sua frente, nada lhe escapava, os seus gestos, o seu olhar a percorrer toda aquela papelada e ficou tensa, os m\u00fasculos da sua cara estavam contra\u00eddos na expectativa da resposta da directora.<\/li>\n\n\n\n<li>Bem. &#8211; Disse a directora, pondo as m\u00e3os em cima da mesa e fazendo sil\u00eancio ap\u00f3s esse \u201cbem\u201d.<br>Maria logo pensou: &#8211; N\u00e3o lhe agradou o meu curr\u00edculo.<\/li>\n\n\n\n<li>Maria\u2026<br>Mais uma vez fez sil\u00eancio e os nervos de Maria estavam a ficar em franja, mas seu rosto nada demonstrou.<br>Esperou pacientemente pela negativa, porque era isso que neste momento, estava esperando, depois de tantos interregnos entre a leitura e suas palavras.<\/li>\n\n\n\n<li>O lugar \u00e9 seu. &#8211; Disse a directora sorrindo\u2026 \u2013 Gostei do seu trabalho, vejo que parece ser uma pessoa meiga, inteligente, pois vez alguma me interrompeu e eu propositadamente interrompi meu di\u00e1logo, \u00e0 espera duma ansiedade sua. Sei que a teve, mas soube-se controlar, parab\u00e9ns! Segunda-feira, pode come\u00e7ar a dar aulas, vem uma hora mais cedo para lhe mostrarmos o Instituto, uma vez que hoje n\u00e3o me \u00e9 poss\u00edvel faz\u00ea-lo, pois dentro de meia hora tenho uma reuni\u00e3o. &#8211; Dizendo isso estendeu a m\u00e3o mais uma vez para Maria, despedindo-se.<br>Maria saiu euf\u00f3rica da sala da directora, seus passos pareciam el\u00e9ctricos a dirigir-se para a entrada onde a sua tia a esperava. Chegando ao p\u00e9 dela abra\u00e7ou-a chorando.<\/li>\n\n\n\n<li>Maria, que se passa? N\u00e3o conseguiste o lugar? Deixa estar logo te aparecer\u00e1 outro. &#8211; Disse sua tia agarrando-lhe o abra\u00e7o e olhando-a nos olhos com carinho, limpando suas l\u00e1grimas ao mesmo tempo.<\/li>\n\n\n\n<li>N\u00e3o tia, est\u00e1s enganada, as minhas l\u00e1grimas s\u00e3o de felicidade, porque consegui o lugar. Segunda-feira j\u00e1 come\u00e7o a trabalhar, a directora gostou de meu curr\u00edculo e aceitou-me. &#8211; Dizendo isso, Maria sorriu de felicidade, pois ela j\u00e1 n\u00e3o estava habituada a sentir tantas boas emo\u00e7\u00f5es num s\u00f3 dia, da\u00ed suas l\u00e1grimas jorrarem sem as poder conter.<br>Foram as duas, como tinham combinado, para as compras e passou-se o resto do dia sem que nenhuma desse pelo passar das horas.<br>Estavam felizes, Maria por ter a tia a seu lado e por saber que segunda-feira j\u00e1 come\u00e7ava uma nova vida e a tia por ver que sua sobrinha estava come\u00e7ando a realizar os seus sonhos, porque ela acreditava no seu cora\u00e7\u00e3o de \u201cm\u00e3e\u201d.<br>Acreditava que um dia Maria ainda haveria de ser feliz junto a um homem que ela amasse e, sentindo ela que s\u00f3 o seria com Pedro, desejava que Deus lhe concedesse esse desejo\u2026 Foi o \u00faltimo pensamento da tia Sofia antes de adormecer.<br>Nove horas da manh\u00e3. Pedro acordou e sentiu-se nost\u00e1lgico e triste. Ele, que ontem tinha ido \u00e0 Academia procurar ver Maria, procurando-a por todos os cantos, inclusive na praia, junto \u00e0 \u00e2ncora azul, porque S\u00e9rgio lhe tinha dito que era l\u00e1 o seu ref\u00fagio e nada, nenhum sinal da Maria\u2026<\/li>\n\n\n\n<li>Que se passa? Porque n\u00e3o encontrei ontem Maria na escola? Estar\u00e1 doente? &#8211; Pensando nisso, sentiu seu cora\u00e7\u00e3o pequenino, apertado. &#8211; Ela doente e eu sem poder fazer nada? N\u00e3o, eu posso sim, eu devo-lhe isso.<br>Em sua mem\u00f3ria, reviveu o dia em que ele estava atr\u00e1s do balc\u00e3o, ardendo em febre, sem for\u00e7as no corpo. Nesse dia, em que Maria apareceu l\u00e1 para fazer compras para a m\u00e3e e, vendo-o naquele estado, perguntou porque n\u00e3o ia para casa e ele lhe respondeu que n\u00e3o podia, porque seu pai tinha ido a Lisboa e n\u00e3o podiam fechar a loja, tendo Maria sa\u00eddo em sil\u00eancio, sem nada dizer, sem nada comprar.<br>Ficara a pensar o porqu\u00ea de ela se ter ido embora, mas, cinco minutos depois, Maria apareceu com uma lo\u00e7\u00e3o fria e uma toalha nas m\u00e3os e, fazendo-o sentar-se, come\u00e7ou a p\u00f4r-lhe compressas na testa. Depois, foi buscar um copo de \u00e1gua e f\u00ea-lo tomar um comprimido para baixar a febre.<br>O resto do dia, Maria j\u00e1 n\u00e3o o deixou atender ao balc\u00e3o, ficando ela ali a atender com sua meiguice, com sua simpatia e Pedro sentado numa cadeira dando-lhe instru\u00e7\u00f5es onde estavam as coisas e qual o seu pre\u00e7o.<\/li>\n\n\n\n<li>Pedro, depois disso, depois de te lembrares de tudo aquilo, ainda consegues ser cobarde? &#8211; Culpou-se a si mesmo e, pensando assim, dirigiu-se em direc\u00e7\u00e3o ao quarto de Maria, na rua atr\u00e1s da Academia sem pensar nas consequ\u00eancias do seu gesto.<br>Ele n\u00e3o pensava o que iria dizer Maria assim que ela o visse. Ele s\u00f3 pensava que Maria estava doente e ele tinha que estar a seu lado, o que se passasse a seguir a Deus pertencia.<br>Mas\u2026 Ao chegar \u00e0 esquina, viu Maria com a tia e ele reconheceu a senhora que ele culpou todos estes anos pela separa\u00e7\u00e3o dos dois. Mas hoje, j\u00e1 homem feito, reconhecia que fora aquela senhora que fez de m\u00e3e de Maria. Que fora essa senhora que a educou, que fez dela a mulher que ela era hoje e olhando para as duas, afastou-se em direc\u00e7\u00e3o \u00e0 praia com o seu cora\u00e7\u00e3o j\u00e1 descansado.<br>Sua Maria estava bem, ela tinha faltado \u00e0s aulas porque sua tia a tinha vindo visitar.<br>Entretanto, Maria e a tia sa\u00edram de casa para ir esperar Joana e o marido, que vinham nessa manh\u00e3 do Algarve e faziam uma paragem em Peniche para ver a sua prima, matar as saudades que tinha dela, das suas conversas e dos seus conselhos.<br>Quando chegaram \u00e0 praia avistaram o carro de Joana. Como a tia Sofia n\u00e3o sabia onde Maria morava, disse \u00e0 filha que esperasse na praia \u00e0s dez e trinta da manh\u00e3 que ela avisaria Maria e assim foi.<br>Joana quando viu a prima na companhia da m\u00e3e nem queria acreditar, seu cora\u00e7\u00e3o encheu-se de felicidade, pois j\u00e1 eram tantas as saudades que tinha das duas. Saiu do carro a correr e sem dizer palavra avan\u00e7ou para elas, abra\u00e7ando-as com for\u00e7a, como se quisesse arrancar delas toda a ternura que ambas lhe deram aos longos desses anos todos em que viveu com elas.<br>Joana ainda era uma menininha. Apenas tinha completado h\u00e1 poucos meses os dezanove anos.<br>Era a mais nova da fam\u00edlia e o seu rosto de menina deixou transparecer todo o mimo a que estava habituada a ter, tanto de Maria como de sua m\u00e3e.<br>O marido de Joana caminhava em direc\u00e7\u00e3o a elas. Seu olhar estava enternecido ao ver aquele quadro familiar. Como se sentia feliz ao ver a sua Joana com aquele ar de felicidade. Ele sabia que sua menina fora feliz naqueles dias de lua-de-mel, mas sabia tamb\u00e9m que, bem l\u00e1 no fundo, ela sentia falta da sua m\u00e3e e, ainda mais, de Maria, pois haviam sido muitos anos de conv\u00edvio, de afectividade, de desabafos e de conselhos.<br>Depois de todos se cumprimentarem, Maria prop\u00f4s irem dar uma volta pelas praias de Peniche, pois ela tamb\u00e9m n\u00e3o conhecia aquela zona e aproveitava a presen\u00e7a da fam\u00edlia para ir conhecer.<br>Chegaram \u00e0 Praia da Consola\u00e7\u00e3o. Maria descal\u00e7ou-se e, deitando os seus sapatos por terra, correu at\u00e9 \u00e0 \u00e1gua. Nem aquele frio a fazia desistir dessa paix\u00e3o de molhar os p\u00e9s em cada mar que visse.<br>Molhou-os e, ao sentir a \u00e1gua na sua pele, um arrepio se apoderou dela e com esse arrepio a lembran\u00e7a de Pedro veio \u00e0 sua mem\u00f3ria, esquecendo-se nesse momento que estava acompanhada e os seus pensamentos voaram para bem longe, para onde acaba o mar e come\u00e7a a eternidade.<br>J\u00e1 sentia que s\u00f3 voltaria a ver Pedro na eternidade, ela j\u00e1 n\u00e3o acreditava que algum dia pudesse voltar a cruzar-se com Pedro, que algum dia pudesse voltar a olhar nos seus olhos e dizer-lhe baixinho ao ouvido \u2013 Amo-te!<br>Olhou para a ilha que circunda Peniche e sonhou como seria bom estar nela sozinha com Pedro. Sentir a sua presen\u00e7a, sentir suas car\u00edcias, partilhar cumplicidades com ele, viver s\u00f3 para ele, viver na sua ilha, a ilha de ambos, a ilha que eles constru\u00edram com carinho, amor, partilha, com desabafos, car\u00edcias e com poemas lidos a viva voz por ele.<br>Uma ilha constru\u00edda com o sonho da emo\u00e7\u00e3o, a emo\u00e7\u00e3o que ambos sentiam ao ouvirem-se, ao tocarem-se.<br>Um mundo deles, s\u00f3 deles, onde ningu\u00e9m poderia penetrar, porque ningu\u00e9m poderia compreender o seu amor puro, sem maculas, sem ci\u00fames.<br>Um amor feito de compreens\u00e3o, de emo\u00e7\u00e3o, cheio de vida onde o tempo deixaria de ser tempo e passaria a ser um s\u00f3 minuto intermin\u00e1vel, porque ambos sabiam que tinham todo o tempo do mundo para se amarem, para se verem, para se falarem, para se sentirem na integra.<\/li>\n\n\n\n<li>Maria. &#8211; Chamou Joana, aproximando-se da prima, deixando seu marido com a m\u00e3e. &#8211; Maria. &#8211; Voltou a chamar, tocando-lhe suavemente no ombro para n\u00e3o a assustar, pois ela sabia que a prima estava bem longe nos seus sonhos.<br>Maria olhou para a prima e sorriu mas com uma express\u00e3o triste no rosto, que bem transparecia toda a amargura que a sua alma transportava.<\/li>\n\n\n\n<li>Sonhando novamente prima? &#8211; Indagou Joana tristemente. Do\u00eda-lhe ver Maria naquele estado de sofrimento e, dizendo essas palavras, abra\u00e7ou-a, fazendo-a encostar a sua cabe\u00e7a no seu ombro e deixar correr as l\u00e1grimas que queriam esconder-se.<\/li>\n\n\n\n<li>Chora prima, chegou a minha vez de fazer de tua m\u00e3e. Eu sei que sou muito mais nova que tu, sei que foste tu que ajudaste minha m\u00e3e a criar-me. Enquanto ela ia trabalhar tu ficavas a tomar conta de mim sacrificando os teus estudos. Foste tu que fizeste de mim a mulher que sou hoje, a ti devo parte da minha felicidade e chegou a hora de eu te proteger minha prima.<br>Maria comoveu-se com aquelas palavras. N\u00e3o aguentando mais, chorou no ombro da sua prima, dizendo palavras de desespero, deitando c\u00e1 para fora toda a m\u00e1goa que lhe ia dentro do peito.<br>L\u00e1 longe, sentados no pared\u00e3o, Eduardo e Sofia olhavam para elas, compreendo o que se estava a passar e esperaram pacientemente.<br>Ambos sabiam que as duas precisavam de estar juntas, ambos sabiam que Maria precisava do ombro de sua prima nesse momento. Entreolharam-se e Eduardo agarrou na m\u00e3o da sogra para lhe dar for\u00e7a, sentiu que aquela cena l\u00e1 em baixo, junto ao mar, fazia-lhe partir o cora\u00e7\u00e3o, sabia o quanto Maria era importante para ela.<br>Por fim, Maria e Joana separaram-se. Sorriram uma para a outra e l\u00e1 foram ao encontro de Eduardo e Sofia.<br>Quando chegaram perto deles a tia olhou-as e em sil\u00eancio deu a m\u00e3o a Maria pedindo-lhe ajuda para se levantar, como se n\u00e3o se tivesse apercebido do que se tinha passado l\u00e1 em baixo junto ao mar.<br>Joana olhou para o marido e, num gesto de cumplicidade, deu-lhe o bra\u00e7o e sorriu, sorriso a que ele correspondeu a dar apoio \u00e0 sua ac\u00e7\u00e3o de h\u00e1 pouco perante a prima.<br>Continuaram a visitar toda a zona balnear, fazendo coment\u00e1rios \u00e0quela beleza sem igual. Olharam para o rel\u00f3gio e viram que j\u00e1 eram dezasseis horas e tinham que come\u00e7ar a pensar onde iam jantar para depois, Eduardo e Joana seguirem viagem.<br>Pararam para escolher o local onde iam jantar ao mesmo tempo que Maria os convidava a ficarem em Peniche essa noite, para no dia seguinte ela poder usufruir da companhia de ambos.<br>Joana, com os olhitos brilhantes, pediu ao marido para aceitar a oferta de Maria. Eduardo, mais uma vez, n\u00e3o soube como recusar perante aqueles olhos melosos, que lhe suplicavam para ficar junto \u00e0 prima e, sorrindo, disse:<\/li>\n\n\n\n<li>Est\u00e1 bem, mas proponho uma coisa.<\/li>\n\n\n\n<li>O qu\u00ea? &#8211; Tr\u00eas vozes se deixaram ouvir em un\u00edssono.<\/li>\n\n\n\n<li>Vamos jantar \u00e0 Nazar\u00e9, alugamos l\u00e1 2 quartos e pernoitamos por l\u00e1. Como n\u00e3o conhe\u00e7o a Nazar\u00e9 e Joana tamb\u00e9m n\u00e3o, fazemos assim e, amanh\u00e3 de manh\u00e3, levamos a Maria e a m\u00e3e a Peniche e seguimos para casa.<br>As tr\u00eas concordaram, dirigiram-se para o carro e foram para Nazar\u00e9. Durante o caminho iam apreciando como era linda a costa oeste, toda rodeada de mar.<br>Ao passarem por S\u00e3o Martinho do Porto, fizeram uma paragem para beberem um caf\u00e9 e apreciar aquele mar calmo num dia de Inverno, aquela praia linda que fazia a del\u00edcia dos visitantes.<br>Seguiram viagem e \u00e0s dezassete horas chegaram \u00e0 Nazar\u00e9. Estacionaram o carro e foram procurar alojamento e qual o espanto dos quatro quando viram v\u00e1rias mulheres, com as suas saias rodadas, a oferecerem quartos para alugar, algumas com cartazes na m\u00e3o a indicarem que os alugavam.<br>Entreolharam-se indagando-se mutuamente se valeria a pena aceitar esses quartos ou procurar uma residencial.<br>Maria, como j\u00e1 tinha ouvido falar nessas mulheres que alugavam quartos e que as casas eram boas e os quartos muito limpos, sugeriu que aceitassem o que todos concordaram e seguiram em direc\u00e7\u00e3o a uma que, vendo-os, logo se levantou perguntando se estavam interessados num.<br>Aceitaram a proposta e seguiram a mulher que todo o caminho ia falando muito e explicando que a Nazar\u00e9 era uma das praias mais caracter\u00edsticas da zona, porque ali ainda viviam do peixe, do aluguer dos quartos e do Turismo, o que tornava essa praia muito conhecida, n\u00e3o s\u00f3 pela sua beleza, mas tamb\u00e9m pelo com\u00e9rcio, um com\u00e9rcio muito pr\u00f3prio deles, os Nazarenos.<br>Chegaram a uma casa de r\u00e9s-do-ch\u00e3o, pintada de branco e com uma entrada em madeira preta, o que fez com que estranhassem, tendo a nazarena explicado que assim a maresia, a humidade do mar, n\u00e3o se deixava notar com o passar dos anos, pois a casa ficava virada para o mar.<br>Entraram e depararam com uma casa com um grande corredor, iluminado com umas candeias de uma luz t\u00e9nue e uma Nossa Senhora a ser iluminada por elas o que dava ao ambiente uma sensa\u00e7\u00e3o de paz, de harmonia, pois essa penumbra fazia contraste com os olhos da imagem que estava iluminada parecendo que Nossa Senhora os aben\u00e7oava com seus olhos logo \u00e0 sua entrada.<br>Havia v\u00e1rios quartos com casas de banho privativas e, quem visse essa casinha do lado de fora, nunca diria que era t\u00e3o grande por dentro, porque a sua extens\u00e3o era sobre o comprimento o que dava a ideia, do lado de fora, duma casa pequena.<br>A mulher foi abrindo alguns dos quartos vagos e perguntou se desejavam o \u00fanico que restava virado para o mar.<br>Maria sorriu, olhou a tia e pediu que ficassem com esse, tendo Joana concordado e na brincadeira comentou:<\/li>\n\n\n\n<li>Claro, senhora. Ent\u00e3o a nossa Maria do mar n\u00e3o iria ficar nesse virado para o mar?<\/li>\n\n\n\n<li>Maria do mar? &#8211; Indagou a senhora! &#8211; A Maria do Mar, sou eu. &#8211; Disse ela muito baralhada j\u00e1 com aquela conversa.<\/li>\n\n\n\n<li>S\u00e9rio? Perguntou Joana. &#8211; A senhora chama-se Maria do Mar?<\/li>\n\n\n\n<li>Sim. &#8211; Respondeu a mulher.<\/li>\n\n\n\n<li>Sabe senhora, esse \u00e9 o nome que desde mi\u00fada eu dou \u00e0 minha prima, porque ela chama-se Maria e a paix\u00e3o dela \u00e9 o mar.<br>A mulher olhou para Maria e comovida comentou:<\/li>\n\n\n\n<li>Que a Nossa Senhora a aben\u00e7oe menina, sua paix\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 s\u00f3 no mar, est\u00e1 tamb\u00e9m na sua beleza e na cor dos seus olhos. Reparem como a cor dos olhos da menina s\u00e3o iguais ao da Senhora da Nazar\u00e9?! &#8211; Dizendo isso virou a sua cabe\u00e7a para a imagem que estava no corredor, acrescentando essas palavras.<\/li>\n\n\n\n<li>Sua felicidade ir\u00e1 o mar trazer-lha menina, ser\u00e1 junto ao mar que ir\u00e1 encontrar toda essa paix\u00e3o que os seus olhos transbordam, ser\u00e1 junto a ele que ir\u00e1 encontrar o amor de sua vida, se ainda n\u00e3o o encontrou. &#8211; Disse isso como uma premoni\u00e7\u00e3o, com voz rouca da emo\u00e7\u00e3o.<br>Fez-se um sil\u00eancio f\u00fanebre naquele quarto e todos os olhos se cruzaram com os de Maria, que n\u00e3o escondeu a tristeza que aquelas palavras lhe trouxeram ao seu cora\u00e7\u00e3o dorido.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong><em>PARTE XIII<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quando l\u00e1 chegou, mais uma vez, como num ritual, descal\u00e7ou-se e ficou parada a olhar o mar. Estava obcecada com tantos sentimentos contradit\u00f3rios, deixando-se ali estar por momentos a olhar o infinito do mar.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Disseste-me um dia, que eras meu amigo, que te podia confidenciar os meus segredos e eu tenho sempre feito isso, que tens feito tu? Tens-me ajudado? &#8211; Pela primeira vez revoltou-se contra o mar, como se ele fosse um Deus que pudesse fazer com que ela se encontrasse.<br>Desviou a vista do mar e quando se ia sentar na areia deparou com uma toalha e um caderno ali poisados. Olhou para todo o lado e n\u00e3o viu ningu\u00e9m.<\/li>\n\n\n\n<li>Algu\u00e9m se foi embora e esqueceu-se disto aqui. &#8211; Pensou e, num gesto de curiosidade, baixou-se, passou a vista pelo caderno que se encontrava fechado e, nesse momento, a curiosidade foi mais forte que a sua educa\u00e7\u00e3o. Pegando no caderno desfolhou-o e\u2026<\/li>\n\n\n\n<li>Meus Deus, n\u00e3o pode ser, este caderno pertence ao poeta. Esses poemas s\u00e3o dele, esta letra \u00e9 igual aos outros poemas que li na casa de Lu\u00edsa.<br>Sentiu um calafrio a percorrer-lhe o corpo, ao mesmo tempo que na sua testa umas gotas de suor come\u00e7aram escorrendo. Sem saber o que fazia dirigiu-se ao mar, ainda com o caderno nas m\u00e3os.<br>Quando ia a passar pelo barco que estava atracado na areia, viu um homem de cabelos escuros, ondulados, de cal\u00e7a e camisa de ganga, sentado na areia com a cabe\u00e7a entre as m\u00e3os como se estivesse rezando ou chorando.<br>Parou, ficou a olh\u00e1-lo, sem saber se havia de lhe falar ou seguir em frente, ainda sem se ter apercebido que nas suas m\u00e3os carregava o caderno dos poemas.<br>Estava para seguir em direc\u00e7\u00e3o ao mar, mas recuou e voltou para junto do homem. Enchendo-se de coragem falou:<\/li>\n\n\n\n<li>Boa tarde senhor, aquela toalha e aquele caderno ali em cima s\u00e3o seus?<br>O homem sem levantar a cabe\u00e7a e sem dela tirar as m\u00e3os, abanou-a num sinal afirmativo.<\/li>\n\n\n\n<li>Desculpe, mas eu vi aquelas coisas e pensei que fosse de algu\u00e9m que se tivesse esquecido delas ali.<br>O homem levantou a cabe\u00e7a e apenas viu o seu caderno nas m\u00e3os de Maria. Sem olhar para o seu rosto, fez um sinal inquiridor. Maria seguiu o seu olhar e envergonhada disse:<\/li>\n\n\n\n<li>Desculpe a minha curiosidade, n\u00e3o me contive e abri o seu caderno. Que poemas t\u00e3o lindos\u2026 &#8211; E dizendo isso olhou para a cara que estava \u00e0 sua frente e ouviu:<\/li>\n\n\n\n<li>Maria, \u00e9s tu Maria? N\u00e3o, eu estou sonhando, eu deveria ter adormecido e estou sonhando, n\u00e3o pode ser verdade.<br>Maria ouviu esse grito de desespero e olhou fixamente para o rosto que estava \u00e0 sua frente.<\/li>\n\n\n\n<li>Pedro, \u00e9s tu? O Pedro da minha terra? \u00c9s tu?<br>Entre ambos houve um sil\u00eancio, apenas cortado por seus nomes, sa\u00eddos de ambas as bocas, ora o Pedro chamando pelo nome de Maria, ora Maria chamando pelo nome do Pedro, sem desviarem os olhos um do outro como se estivessem hipnotizados.<br>Maria emocionada deixou cair o caderno das m\u00e3os. Quando se baixava, encontrou o rosto do Pedro junto ao seu, pois havia feito o mesmo gesto, baixando-se para pegar no caderno que jazia no ch\u00e3o. Pedro n\u00e3o se conteve e, mais uma vez, agarrando seu rosto, chamou o seu nome.<\/li>\n\n\n\n<li>Maria, tu aqui, a minha Maria. &#8211; Ficou com o rosto da Maria nas suas m\u00e3os, olhando para ele com as l\u00e1grimas nos olhos e a emo\u00e7\u00e3o na voz.<\/li>\n\n\n\n<li>Pedro, diz-me, quem escreveu estes poemas? Foste tu? E aquele que li na casa da minha amiga? E aquele que vinha com uma rosa que deixaram na minha casa? Foste tu o autor de todos esses poemas?<\/li>\n\n\n\n<li>Sim, Maria, s\u00e3o meus. Mas que est\u00e1s a dizer? J\u00e1 os l\u00eas-te? Que poema \u00e9 esse que vinha com uma rosa?<\/li>\n\n\n\n<li>Para quem os escreveste Pedro? &#8211; Perguntou Maria como se n\u00e3o tivesse ouvido a pergunta.<\/li>\n\n\n\n<li>Para ti, Maria, a \u00fanica mulher que amei em toda a minha vida, a mulher que conquistou o meu cora\u00e7\u00e3o de adolescente e deu for\u00e7as a este cora\u00e7\u00e3o adulto para sobreviver sozinho. A mulher com que sonhei todos estes anos vir a ter nos meus bra\u00e7os, vir a ser feliz com ela e hoje est\u00e1s aqui Maria, diz-me\u2026 \u2013 Um gritou rouco soltou-se de seu peito.<\/li>\n\n\n\n<li>Diz-me que n\u00e3o estou sonhando Maria, diz-me que \u00e9s mesmo tu que est\u00e1 aqui \u00e0 minha frente, olhando-me com esse azul mar que s\u00e3o os teus olhos.<\/li>\n\n\n\n<li>Pedro, sou eu sim, a Maria. Mas eu n\u00e3o acredito que ao fim destes anos de busca constante, de tanto sofrimento, tu estejas \u00e0 minha frente, agarrando o meu rosto. &#8211; Dizendo isso, sentiu as suas for\u00e7as fugirem-lhe e desmaiou, tendo Pedro reagido a tempo, amparando-a nos seus bra\u00e7os.<\/li>\n\n\n\n<li>Maria, acorda. Meu Deus, n\u00e3o me a tires agora que a encontrei. &#8211; O seu grito fez-se ouvir de tal maneira longe, que as ondas, como se atra\u00eddas pelo seu apelo, vieram em for\u00e7a, molhando os seus p\u00e9s. Pedro molhou as m\u00e3os e passou-as pela testa de Maria que, com a emo\u00e7\u00e3o, estava ardendo.<br>Pedro continuava lutando para que Maria reagisse, para que Maria acordasse desse sono profundo, de emo\u00e7\u00f5es. Molhando as m\u00e3os, alternando-as, ora na \u00e1gua, ora na testa de Maria, enquanto gritava cada vez mais alto.<\/li>\n\n\n\n<li>Maria n\u00e3o me deixes, eu quero-te junto a mim, por favor acorda, olha para mim, v\u00ea o meu desespero, abre os teus olhos.<br>Maria como que sentindo esse grito dentro do seu ser, abriu os olhos e viu Pedro debru\u00e7ado sobre ela, chorando e gritando o seu nome.<\/li>\n\n\n\n<li>Pedro, \u00e9s tu? N\u00e3o me enganes, eu sei que estou quase louca de tanto sofrimento, mas deixa-me acreditar que ao fim de todos estes anos, eu estou contigo. &#8211; Dizendo isso foi-se levantando devagarinho com a sua tez p\u00e1lida, tendo os bra\u00e7os de Pedro para a segurar.<br>Pedro n\u00e3o a deixando levantar-se, pegou no seu rosto, aproximou sua boca da de Maria, encostou os l\u00e1bios ao de leve e, n\u00e3o se contendo, beijou-a apaixonadamente, deixando-a sem respira\u00e7\u00e3o, fazendo-a sentir que estava voando sobre as ondas do seu mar querido. S\u00f3 depois lhe respondeu:<\/li>\n\n\n\n<li>Est\u00e1s a sonhar Maria? Est\u00e1s louca? Ent\u00e3o eu quero para toda a vida essa tua loucura, porque sou eu o teu Pedro, que est\u00e1 aqui junto a ti. Foi esse teu Pedro que te beijou e que continuar\u00e1 a beijar-te para o resto da vida, porque n\u00e3o te vou deixar fugir pela segunda vez, meu amor.<br>Maria n\u00e3o respondeu. Sentou-se, aninhando-se nos bra\u00e7os de Pedro. Deitou a cabe\u00e7a no seu peito, sentindo a sua respira\u00e7\u00e3o, o seu h\u00e1lito, a sua pele ardendo, deixando-se estar assim sem se mexer, com medo que ao mexer-se o seu sonho terminasse e em vez dos bra\u00e7os de Pedro encontrasse apenas a areia fria da praia.<br>Fechou os olhos e deixou-se levar por aquele encanto que a fascinava, que envolvia os seus membros, os seus sentidos,<br>Apenas sabia que aquele momento era toda a sua vida, todos os seus sonhos acumulados nesse momento m\u00e1gico. Vivia o encontro com o homem da sua vida, naquele momento em que o desespero estava tomando a sua alma, deixando-a j\u00e1 sem for\u00e7as para continuar a sua busca.<br>Abriu os olhos com medo mais uma vez e viu o negro dos olhos de Pedro olhando para si.<br>Colocou as m\u00e3os no seu peito, para sentir o seu cora\u00e7\u00e3o e sentiu que ele pulsava t\u00e3o forte como o seu, enquanto ele mexia na sua longa cabeleira preta, levantava o seu rosto e beijava os seus olhos, que estavam cada vez mais azuis, o azul da emo\u00e7\u00e3o, da paix\u00e3o, esse azul que fez Pedro sonhar uma vida inteira, n\u00e3o estando a acreditar que finalmente esses olhos o estavam fixando com meiguice, com amor.<\/li>\n\n\n\n<li>Meu amor, agora conta-me l\u00e1 essa hist\u00f3ria dos meus poemas e da rosa, porque n\u00e3o percebi se deliravas ou se estavas falando a realidade.<br>Maria contou-lhe a sua ida \u00e0 casa de Lu\u00edsa, da sua leitura e do poema que ficou na sua casa acompanhado com uma rosa.<br>Pedro ouviu essa hist\u00f3ria em sil\u00eancio e sorriu, porque nesse momento compreendeu o porqu\u00ea de Lu\u00edsa querer ficar com os seus poemas e, levantando os olhos aos c\u00e9us, sussurrou:<\/li>\n\n\n\n<li>Obrigado meu Deus, por teres posto em nosso caminho, essa amiga sincera. &#8211; Apertando Maria contra o seu peito, que ouviu a sua prece em sil\u00eancio, acrescentou:<\/li>\n\n\n\n<li>Eu sabia meu amor, que Lu\u00edsa estava fazendo das suas. Ela tinha-me jurado que ia mostrar-te os poemas, mas eu n\u00e3o acreditei e felizmente que isso aconteceu.<br>Se n\u00e3o fosse essa amiga do cora\u00e7\u00e3o, hoje n\u00e3o est\u00e1vamos aqui, porque eu tenho vindo aqui todos os dias a ver se encontrava a surpresa que ela disse que me esperava e essa surpresa hoje apareceu.<br>Dizendo isso com os olhos brilhantes, beijou-a mais uma vez, tendo Maria reagido \u00e0quele beijo, correspondendo com toda a for\u00e7a do seu amor, do seu cora\u00e7\u00e3o sedento desse amor acumulado durante dezassete anos.<br>Continuaram assim abra\u00e7ados durante horas, falando das suas vidas e dos seus desencontros. Nem deram pelas horas passarem, at\u00e9 que fixaram o olhar num ponto no horizonte, brilhando como fogo. Desviaram a vista dele, olhando-se, dizendo Maria com voz emocionada:<\/li>\n\n\n\n<li>Pedro, olha o p\u00f4r-do-sol, lindo, como aben\u00e7oando o nosso encontro.<\/li>\n\n\n\n<li>Sim, Maria, o nosso Ponto no Horizonte. O nosso p\u00f4r-do-sol, o nosso guia, esse que n\u00f3s v\u00edamos todos os dias, sem estarmos juntos, mas que hoje nos juntou.<\/li>\n\n\n\n<li>Vamos embora Pedro? Estou a ficar gelada. &#8211; Perguntou Maria com voz meiga, essa voz que Pedro nunca esqueceu, essa voz que o acompanhou toda a vida como uma melodia inesquec\u00edvel.<br>Sa\u00edram da praia, descal\u00e7os e de m\u00e3os entrela\u00e7adas, pareciam dois adolescentes. De seus olhos irradiava uma luz que n\u00e3o era habitual em nenhum deles.<br>Ambos haviam sofrido muito durante esses anos de afastamento e hoje nem queriam acreditar que estavam ali os dois, sozinhos, eles e a paix\u00e3o deles \u201co Mar\u201d, de m\u00e3os juntas, de olhos colados um no outro, como se nada mais no mundo existisse para eles.<\/li>\n\n\n\n<li>Maria escuta-me, eu j\u00e1 n\u00e3o te quero deixar. Tenho medo de acordar amanh\u00e3 e sentir que te perdi novamente. Vamos jantar os dois, eu conhe\u00e7o um s\u00edtio lindo, uma casa acolhedora que \u00e9 dum colega meu l\u00e1 da Academia e o Jo\u00e3o arranja-nos uma mesinha isolada para n\u00f3s ficarmos \u00e0 vontade.<\/li>\n\n\n\n<li>A tasca do Jo\u00e3o? &#8211; Perguntou Maria sorrindo, lembrando-se daquela noite em que l\u00e1 esteve com Lu\u00edsa e com seus colegas.<\/li>\n\n\n\n<li>Sim. &#8211; Respondeu Pedro. &#8211; J\u00e1 conheces?<\/li>\n\n\n\n<li>Conhe\u00e7o. Fui l\u00e1 com a Lu\u00edsa e os meus colegas quando mudei de casa.<br>Pedro sorriu.<\/li>\n\n\n\n<li>Marotos, no dia que fui dar aulas \u00e0 tua turma perguntei se algu\u00e9m sabia o porqu\u00ea da tua aus\u00eancia e responderam-me que n\u00e3o sabiam.<\/li>\n\n\n\n<li>Pedro, vamos, mas temos que mudar de roupa.<\/li>\n\n\n\n<li>Fazemos assim, deixo-te em casa, vou vestir-me e depois passo por l\u00e1 para te ir buscar.<br>Como tinham combinado, Maria ficou em casa, tomou um duche, vestiu-se e v\u00e1rias vezes foi ao espelho, ela queria estar bela naquela noite para os olhos de Pedro. Pensando isso sorriu de felicidade e beliscou-se para ver se estava sonhando ou n\u00e3o.<\/li>\n\n\n\n<li>Deus, como \u00e9 poss\u00edvel ser-se t\u00e3o feliz em t\u00e3o poucos dias? Ganhei uma m\u00e3e, tr\u00eas irm\u00e3os e hoje tu puseste o Pedro no meu caminho. Diz-me meu Deus, eu mere\u00e7o tal felicidade?<br>Com tal pensamento, saiu do quarto e foi sentar-se na sala, acendendo um cigarro e deixou os seus pensamentos voarem at\u00e9 que ouviu a campainha da porta.<br>Foi abri-la e \u00e0 sua frente estava Pedro, vestido com uma roupa desportiva, mas elegante. Maria ao olh\u00e1-lo pensou:<\/li>\n\n\n\n<li>Este homem \u00e9 meu? Pertence-me? Nem posso acreditar em tal coisa.<br>Enquanto Maria se perdia nos seus pensamentos, olhando-o fixamente, Pedro n\u00e3o desviava os seus olhos daqueles olhos azuis e pensava tamb\u00e9m:<\/li>\n\n\n\n<li>Estou a sonhar? Estarei aqui \u00e0 porta de Maria, falando-lhe, tocando-a e beijando-a? &#8211; E pensando no beijo, agarrou-a pela cintura e mesmo ali na porta beijou-a, primeiro com suavidade, depois com paix\u00e3o, como se tivesse medo que ela lhe fugisse e n\u00e3o mais fosse tocar nesses l\u00e1bios que tremiam ao sabor dos seus.<\/li>\n\n\n\n<li>Entra Pedro, vem conhecer o meu cantinho, quero que vejas a casa onde eu passo os meus dias quando n\u00e3o estou nas escolas.<br>Pedro olhou para tudo ao pormenor e gostou bastante da casa. Pegando-lhe no bra\u00e7o e com um sorrindo maroto disse-lhe:<\/li>\n\n\n\n<li>Vamos jantar Maria, sen\u00e3o daqui a pouco j\u00e1 n\u00e3o sa\u00edmos do teu cantinho e passa a ser o meu tamb\u00e9m. &#8211; Maria corou ligeiramente e nesse momento, Pedro teve a certeza que Maria seria a sua mulher, a sua companheira num futuro muito pr\u00f3ximo.<br>Jantaram na tasca do Jo\u00e3o, num canto guardado para os namorados, que o Sr. Jo\u00e3o fazia quest\u00e3o em o manter num ambiente rom\u00e2ntico, diferente do resto da sala.<br>Era um canto divido com suportes de verga, forrados de tecido azul, onde a meia-luz que vinha dos candeeiros de p\u00e9 alto, com um abajur azul, que se encontravam junto a cada mesa, que eram quadradas, com toalhas azuis e cada uma, apenas com duas cadeiras com almofadas do mesmo tecido e cor das toalhas, tudo numa sintonia a condizer com as velas acesas, com uma m\u00fasica ambiente, m\u00fasica essa que ajudava a falarem mais abertamente.<br>Falaram muito e Maria contou toda a sua vida ap\u00f3s ter sa\u00eddo da terra onde vivia com os pais adoptivos e quando chegou a altura de contar a sua hist\u00f3ria recente, quando soube que Sofia era sua m\u00e3e, as l\u00e1grimas correram-lhe pelo rosto abaixo. Mas arranjou coragem e contou tudo ao Pedro, n\u00e3o poderia esconder-lhe nada naquele momento m\u00e1gico.<br>Pedro emocionou-se com a hist\u00f3ria de Maria, levantando a sua m\u00e3o, passou-a pelos olhos de Maria, limpando-lhe uma l\u00e1grima e, ficando com ela nas suas m\u00e3os, olhou-a fixamente, ao mesmo tempo, que lhe dizia:<\/li>\n\n\n\n<li>N\u00e3o sofrer\u00e1s mais meu amor, minha menina de olhos azuis, vou dedicar a minha vida a fazer-te feliz e aos nossos filhos.<br>Ficaram uns segundos de m\u00e3os dadas, olhos nos olhos, em sil\u00eancio, como se fosse pecado quebrarem essa magia. Mas Pedro olhou o rel\u00f3gio e exclamou.<\/li>\n\n\n\n<li>Vinte e duas e trinta. Sabes amor onde gostaria de te levar agora? &#8211; Perguntando isso os seus olhos brilharam.<\/li>\n\n\n\n<li>Sim Pedro, onde eu gostaria de ir tamb\u00e9m, ela merece saber do nosso encontro.<br>Pedro olhou Maria com um olhar espantado perguntando:<\/li>\n\n\n\n<li>Como sabes que era a casa de Lu\u00edsa?<\/li>\n\n\n\n<li>Porque estamos em sintonia, meu amor e se hoje estamos juntos a mais ningu\u00e9m o devemos. Disse sorrindo, fazendo uma car\u00edcia no rosto de Pedro, que aproveitando suas m\u00e3os no rosto as encostou a seus l\u00e1bios, dando-lhe um beijo de devo\u00e7\u00e3o, de amor, de paix\u00e3o.<br>Sa\u00edram da tasca do Sr. Jo\u00e3o, depois de lhe terem agradecido a noite agrad\u00e1vel que ele lhes tinha proporcionado nesse recanto delicioso, que convidava a uma noite rom\u00e2ntica.<br>Entraram no carro de Pedro e seguiram em direc\u00e7\u00e3o a casa de Lu\u00edsa. Pararam frente \u00e0 casa e viram a luz da sala acesa.<br>Olharam-se e sorriram, um sorriso de cumplicidade, de vergonha por terem que aparecer juntos em casa da amiga, mas ela merecia que eles ultrapassassem essa vergonha, ela precisava de saber do seu encontro.<br>Bateram \u00e0 porta e S\u00e9rgio veio abrir e ficou mudo ao ver o seu amigo acompanhado de Maria. N\u00e3o queria acreditar no que os seus olhos estavam vendo, mas reagiu, e em sil\u00eancio e com um sorriso maroto no canto dos l\u00e1bios, f\u00ea-los entrar para a sala, onde Lu\u00edsa descansava deitada no sof\u00e1.<\/li>\n\n\n\n<li>Meu amigo, eu n\u00e3o acredito, tens que me contar o que se passou. Lu\u00edsa vai delirar quando vos vir juntos. &#8211; Disse S\u00e9rgio a caminho da sala, emocionado por ver os olhos do seu amigo irradiarem tamanha felicidade, esses olhos, a que ele se habituou ao longo desses anos de amizade, a ver sempre tristes e nost\u00e1lgicos.<\/li>\n\n\n\n<li>Viemos c\u00e1 para isso S\u00e9rgio e para agradecer \u00e0quela marota, tudo o que ela fez por n\u00f3s, sem ela n\u00e3o era poss\u00edvel eu e a Maria estarmos aqui hoje juntos na tua casa. &#8211; Disse Pedro, passando o bra\u00e7o por cima do ombro do seu amigo, dando-lhe uma palmada nas costas.<br>Maria ia \u00e0 frente deles e S\u00e9rgio puxou Pedro para a cozinha, para ele lhe contar todos os pormenores sem ser \u00e0 frente de Maria e ela estaria mais \u00e0 vontade para falar sozinha com a Lu\u00edsa.<\/li>\n\n\n\n<li>Maria, que fazes aqui a estas horas? Aconteceu alguma coisa? &#8211; Disse Lu\u00edsa levantando-se do sof\u00e1, com aspecto preocupado.<\/li>\n\n\n\n<li>N\u00e3o Lu\u00edsa, vim c\u00e1 falar contigo com\u2026 &#8211; Virando a cabe\u00e7a para tr\u00e1s sorriu ao ver que Pedro e S\u00e9rgio n\u00e3o estavam atr\u00e1s de si, compreendendo que teriam ido para outro lugar da casa, para falarem \u00e0 vontade.<\/li>\n\n\n\n<li>Maria, responde, est\u00e1s com um ar que n\u00e3o \u00e9 habitual em ti, uma luz nesse olhar que nunca vi e com\u2026 com qu\u00ea? Porque paraste de falar? &#8211; Lu\u00edsa estava a ficar preocupada com o ar enigm\u00e1tico da sua amiga.<br>Maria, calmamente, sentou-se no sof\u00e1 ao lado de Lu\u00edsa. Pegando na sua m\u00e3o e, com uma voz carinhosa e cheia de emo\u00e7\u00e3o, agradeceu:<\/li>\n\n\n\n<li>Obrigada minha amiga por me fazeres encontrar o meu poeta. &#8211; Dizendo isso sorriu.<\/li>\n\n\n\n<li>O teu poeta? Conheceste-o? Onde? E porque est\u00e1s feliz? O amor que tinhas ao Pedro, que \u00e9 feito dele? &#8211; Lu\u00edsa j\u00e1 pensava que Maria tinha encontrado a pessoa errada e o seu semblante mostrou-se preocupado.<\/li>\n\n\n\n<li>Pedro? Que me importa o Pedro? Eu vi que amo esse poeta que escreveu os poemas que me mostraste e que me mandou aquele que deixaste l\u00e1 em casa.<\/li>\n\n\n\n<li>Maria, pensa bem. &#8211; Lu\u00edsa j\u00e1 sentia pena do seu amigo Pedro, que tanto amava aquela mulher que estava \u00e0 sua frente e ela agora apaixonara-se pela pessoa errada, sabe-se l\u00e1 quem e o porqu\u00ea dele ter dito que esses poemas eram dele.<\/li>\n\n\n\n<li>Que se passa Lu\u00edsa? &#8211; Maria estava perdida de riso, mas queria dar uma li\u00e7\u00e3ozinha a essa marota que, apesar de ser ela a causadora da sua felicidade, a fez estar tantos dias na ignor\u00e2ncia.<\/li>\n\n\n\n<li>N\u00e3o pode ser Maria, conheceste a pessoa errada, o homem que escreveu aquele poema para ti, foi\u2026<br>Quando ia falar no nome desse poeta, \u00e0 entrada da sala estavam Pedro e S\u00e9rgio que, ouvindo a voz alterada de Lu\u00edsa, foram ver o que se passava, tendo ambos ouvido a ultima frase.<\/li>\n\n\n\n<li>Este aqui, minha amiga. &#8211; Disse Pedro com um sorriso nos l\u00e1bios, correndo para a sua amiga, abra\u00e7ando-a com for\u00e7a e dando-lhe um beijo no rosto, agradeceu, com voz emocionada:<\/li>\n\n\n\n<li>Obrigado minha amiga, devolveste-me a felicidade.<br>Lu\u00edsa ficou sem fala, ora olhava para Maria, ora para Pedro, ora para S\u00e9rgio, para ver qual dos tr\u00eas lhe esclarecia o que se estava passando.<br>Sentou-se sem for\u00e7as, mas aos poucos foi olhando para cada um e foi compreendendo e viu que Maria estava brincando com ela, numa esp\u00e9cie de vingan\u00e7azinha de todo esse seu sil\u00eancio anterior.<br>Maria j\u00e1 com medo que toda aquela emo\u00e7\u00e3o fizesse mal \u00e0 Lu\u00edsa, devido ao seu estado, sentou-se ao seu lado e, em conjunto com Pedro, contou-lhe o seu passeio \u00e0 praia, como se tinham encontrado e como se tinham reconhecido ap\u00f3s dezassete anos de separa\u00e7\u00e3o.<\/li>\n\n\n\n<li>Maria, Pedro \u2013 Lu\u00edsa estava emocionada ao pronunciar os seus nomes. &#8211; Como estou feliz! Eu sabia que ia conseguir junt\u00e1-los, mas, confesso, j\u00e1 estava a ficar desesperada com todos esses desencontros. &#8211; Dizendo isso, levantou-se do sof\u00e1, chamou S\u00e9rgio \u00e0 cozinha e foram buscar uma garrafa de champanhe para comemorar esse encontro.<br>Ao ficarem a s\u00f3s na sala, Pedro saiu do sof\u00e1 onde estava e sentou-se ao lado de Maria.<\/li>\n\n\n\n<li>Meu amor, como estou feliz. &#8211; Dizendo isso beijou-a mais uma vez, beijo esse que foi interrompido pela entrada do casal, que ficaram parados na entrada da sala com os olhos felizes ao verem os seus amigos finalmente juntos.<br>Maria corou ao v\u00ea-los, mas fingiu aproximando-se de Lu\u00edsa tirando-lhe os copos da m\u00e3o, fazendo-a sentar-se novamente.<\/li>\n\n\n\n<li>Quero fazer dois brindes meus amigos. &#8211; Disse S\u00e9rgio. Abrindo a garrafa, continuou: &#8211; Um para a vossa felicidade e outro para a chegada dos meus g\u00e9meos.<\/li>\n\n\n\n<li>G\u00e9meos? Como sabes? &#8211; Perguntou admirada Maria.<\/li>\n\n\n\n<li>Hoje senti-me indisposta e S\u00e9rgio levou-me ao m\u00e9dico, pois a viagem poderia ter-me feito mal. Fiz uma ecografia, para ver se estava tudo bem e, qual o nosso espanto, l\u00e1 estavam os g\u00e9meos \u2013 Os meus beb\u00e9s est\u00e3o bem, Maria. &#8211; Disse Lu\u00edsa muito feliz.<\/li>\n\n\n\n<li>E\u2026 &#8211; S\u00e9rgio interrompeu Lu\u00edsa. &#8211; N\u00f3s queremos convidar-vos para padrinhos. Se for uma menina e um rapaz chamar-se-\u00e3o, ele, Jos\u00e9 Pedro, ela, Maria, \u00e9 assim que vamos chamar \u00e0 nossa Nina.<br>Maria olhou para o Pedro, que disfar\u00e7adamente tentava esconder uma l\u00e1grima no canto do olho, pela emo\u00e7\u00e3o de ter assim amigos t\u00e3o sinceros, t\u00e3o queridos.<\/li>\n\n\n\n<li>Que sil\u00eancio. &#8211; Disse Lu\u00edsa. &#8211; N\u00e3o me digam que n\u00e3o aceitam o nosso convite?<\/li>\n\n\n\n<li>Claro que aceitamos Lu\u00edsa, com muito prazer mesmo. &#8211; Disseram ambos em simult\u00e2neo. &#8211; Isso ser\u00e1 o apogeu do acumular da nossa felicidade termos os Josenina no nosso colo a serem aben\u00e7oados por Deus.<\/li>\n\n\n\n<li>Josenina. S\u00f3 tu, Pedro, podias ter uma ideia dessas. Mas gostamos desse nome ao referirmos os dois, n\u00e3o \u00e9 S\u00e9rgio? -S\u00e9rgio sorriu, abanando a cabe\u00e7a num sinal afirmativo. Estava emocionado demais para articular qualquer palavra.<br>Pedro e Maria sa\u00edram da casa do S\u00e9rgio j\u00e1 passava da uma da manh\u00e3, mas, como ainda estavam de f\u00e9rias, no dia seguinte poderiam dormir mais um bocadinho. Pedro levou Maria a casa, mas antes, ainda passou pela praia pois, mais uma vez, eles queriam ver o mar.<br>Parou o carro frente ao mar e ficaram ali sentados de m\u00e3os dadas, olhando-se em sil\u00eancio, cada um nos seus pensamentos, n\u00e3o querendo acreditar que aquele dia fosse real.<br>Ambos tinham medo de regressar a casa e no dia seguinte acordarem e ver que tudo aquilo tinha sido um sonho das suas almas ansiosas.<\/li>\n\n\n\n<li>Maria. &#8211; Falou finalmente Pedro, aproximando o seu rosto do dela. &#8211; Como eu te amo, como pude passar estes anos todos sem a tua presen\u00e7a, sem mergulhar em teus olhos? &#8211; Dizendo isso passou os dedos pelos olhos de Maria, fechando-os, aconchegando depois a sua boca \u00e0 dela beijando-a muito suavemente, como se tivesse medo de feri-la.<br>Ainda estiveram junto ao mar dentro do carro, amando-se, durante uma hora, at\u00e9 que Pedro a levou a casa.<br>Beijou-a mais uma vez \u00e0 despedida dizendo baixinho:<\/li>\n\n\n\n<li>Amo-te, minha menina.<br>Mimo esse a que Maria retribuiu, tamb\u00e9m baixinho ao seu ouvido:<\/li>\n\n\n\n<li>Tamb\u00e9m te amo muito, Pedro. &#8211; Saindo de seguida do carro a sorrir e acenando a m\u00e3o de despedida.<br>Pedro ainda ficou ali a olh\u00e1-la a entrar no pr\u00e9dio, n\u00e3o queria ir-se embora, tinha medo de a perder novamente.<\/li>\n\n\n\n<li>N\u00e3o penses assim Pedro. J\u00e1 n\u00e3o a perdes nunca mais, porque ela \u00e9 tua, assim como tu \u00e9s dela. &#8211; Disse a voz do seu subconsciente.<br>Pedro a sorrir arrancou com o carro, indo com a cabe\u00e7a e os pensamentos nas nuvens. Estava feliz demais, havia tantos anos que n\u00e3o sentia essa felicidade, que tudo aquilo lhe parecia ser uma mentira, um sonho\u2026<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-media-text is-stacked-on-mobile\"><figure class=\"wp-block-media-text__media\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"656\" height=\"467\" src=\"https:\/\/sentidospartilhados.com\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/1000010817-3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-146 size-full\" srcset=\"https:\/\/sentidospartilhados.com\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/1000010817-3.jpg 656w, https:\/\/sentidospartilhados.com\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/1000010817-3-300x214.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 656px) 100vw, 656px\" \/><\/figure><div class=\"wp-block-media-text__content\">\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong><em>PARTE XIV<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><br>Passaram-se tr\u00eas meses, ap\u00f3s o encontro dos dois. Nesses tr\u00eas meses viverem intensa felicidade, todos os dias se viam, todos os dias se amavam, mas um dia, Pedro sentindo-se sozinho em casa, decidiu pedir Maria em casamento.<br>J\u00e1 nada significava ficarem separados todas as noites, porque o seu amor estava s\u00f3lido, tinha bases, a base do sofrimento que sucedeu ap\u00f3s a partida de Maria da terra e hoje solidificado com o encontro dos dois, por isso, que faziam separados? Se podiam ser felizes os dois juntos?<br>S\u00e1bado \u00e0 tarde, Pedro telefonou a Maria e pediu-lhe para vestir a mesma roupa que vestia no dia em que se encontraram na praia e que o esperasse junto \u00e0 \u00e2ncora, pois ele iria l\u00e1 ter.<br>Maria estranhou por Pedro n\u00e3o a ir buscar, mas, como sempre, a descri\u00e7\u00e3o foi a sua arma e concordou. \u00c0s quinze horas saiu de casa em direc\u00e7\u00e3o \u00e0 praia.<br>Eram dezasseis horas e Pedro sem chegar. Maria estava a ficar desesperada.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Que se passa, meu Deus? Que \u00e9 feito do Pedro? Sempre t\u00e3o pontual, aconteceu algo. &#8211; Disse chorando, j\u00e1 sem se conter.<br>Estava com o rosto entre as m\u00e3os, chorando baixinho, apenas deixando as l\u00e1grimas rolarem por ele, quando sentiu umas m\u00e3os apoiadas nos seus ombros.<\/li>\n\n\n\n<li>Que se passa meu amor? &#8211; Perguntou Pedro.<\/li>\n\n\n\n<li>Pedro\u2026 Que se passou? Aconteceu-te alguma coisa? Que cara \u00e9 essa? Diz-me por favor. &#8211; Um grito rouco de preocupa\u00e7\u00e3o saiu de sua garganta.<br>Pedro sorriu e tirando a m\u00e3o que escondia atr\u00e1s das costas, apareceu com um papel e uma caixa.<\/li>\n\n\n\n<li>Maria toma, foi isso que me aconteceu. &#8211; Dizendo isso deu-lhe a folha \u00e0 m\u00e3o.<\/li>\n\n\n\n<li>Que \u00e9 isto Pedro? Que significa este papel? &#8211; Perguntou espantada.<\/li>\n\n\n\n<li>Olha para ele. Comprei o teu apartamento \u00e0 tua senhoria. &#8211; E estendendo a m\u00e3o que continha a caixa, abriu-a devagar, dizendo:<\/li>\n\n\n\n<li>E este \u00e9 o anel que vai fazer de ti minha mulher, meu amor, se me disseres sim! &#8211; Pegando no dedo de Maria, esticou-o e enfiou nele um lindo anel, um solit\u00e1rio. Acompanhou o gesto com estas palavras: &#8211; Quero que cases comigo, minha Maria.<\/li>\n\n\n\n<li>Pedro! &#8211; Apenas conseguiu dizer.<\/li>\n\n\n\n<li>Maria, faz hoje tr\u00eas meses que nos encontr\u00e1mos neste lugar. Ser\u00e1 este lugar a testemunha do nosso amor e por isso era aqui que te queria pedir em casamento, olhando para ti, tal como te vi ap\u00f3s dezassete anos de afastamento, descal\u00e7a, com esse fato de treino, branco e azul, olhando os teus olhos a fazerem inveja ao mar. Eu amo-te Maria, nada mais me faz ficar afastado de ti.<br>Maria abra\u00e7ou Pedro e, ap\u00f3s um sil\u00eancio prolongado, pronunciou:<\/li>\n\n\n\n<li>Sim Pedro, quero ser tua esposa, n\u00e3o consigo viver mais tempo longe de ti. &#8211; Palavras, essas seladas com um beijo longo, apaixonado, como s\u00f3 eles o conheciam.<br>Um m\u00eas depois Maria levou Pedro \u00e0 Covilh\u00e3 para ele conhecer a sua fam\u00edlia e participar-lhes o casamento, que teria lugar dentro de um m\u00eas, numa cerim\u00f3nia simples, tendo apenas Lu\u00edsa e S\u00e9rgio como padrinhos e a fam\u00edlia de Maria a assistir.<br>Sofia n\u00e3o cabia em si de contente ao ver a sua menina com os olhos a irradiarem de felicidade. O seu sonho estava-se realizando, ter os seus filhos todos felizes, sem m\u00e1goas nos seus cora\u00e7\u00f5es, sem dor, apenas paz e luz.<br>Depois de sa\u00edrem da Covilh\u00e3, Maria e Pedro, foram \u00e0 casa do S\u00e9rgio e Lu\u00edsa para os convidar para padrinhos do seu casamento, o que eles aceitaram com alegria, mas\u2026<br>-N\u00e3o vai ningu\u00e9m ao teu casamento Pedro? &#8211; Perguntou Lu\u00edsa.<\/li>\n\n\n\n<li>N\u00e3o. Queremos uma cerim\u00f3nia simples, s\u00f3 voc\u00eas os dois e a fam\u00edlia de Maria.<br>Lu\u00edsa calou-se, mas a sua cabe\u00e7a come\u00e7ou a magicar.<\/li>\n\n\n\n<li>N\u00e3o, n\u00e3o posso deixar em branco um amor como o deles, j\u00e1 sei!.. &#8211; Pensou batendo a m\u00e3o na testa.<\/li>\n\n\n\n<li>Que foi Lu\u00edsa? &#8211; Perguntou Maria, que j\u00e1 conhecia essa express\u00e3o na Lu\u00edsa quando algo estava tramando.<\/li>\n\n\n\n<li>Nada Maria. Lembrei-me que tinha que comprar uma roupa bonita para o teu casamento. &#8211; E sorriu malandra.<br>Maria n\u00e3o acreditou nessa hist\u00f3ria, mas sabia que dali j\u00e1 nada levava e n\u00e3o insistiu mais.<br>Lu\u00edsa sabia que contando ao Costa, era o mesmo que contar a toda a Academia e no dia seguinte foi l\u00e1 ter com ele, como se fosse tratar de trabalho.<\/li>\n\n\n\n<li>Bom dia Costa, vim trazer estes documentos. &#8211; Disse sentando-se e continuou. &#8211; Esta barriga j\u00e1 me vai pesando, n\u00e3o posso estar muito tempo de p\u00e9. &#8211; Sorriu.<\/li>\n\n\n\n<li>Como tens passado menina? Esses beb\u00e9s portam-se bem? &#8211; Perguntou Costa sorrindo.<\/li>\n\n\n\n<li>Sim, s\u00e3o uns anjinhos. Mas, mudando de assunto, lembrei-me agora de uma coisa.<br>Contou ao Costa a hist\u00f3ria de Maria e de Pedro, de como eles se conheceram em crian\u00e7as, como a vida os separou e como a mesma os voltou a juntar, dezassete anos depois.<br>Costa ouviu tudo aquilo emocionado e mais emocionado ficou ao saber que Maria e Pedro se iam casar dali a um m\u00eas.<br>Como compreendendo a ideia de Lu\u00edsa, o Costa prop\u00f4s:<\/li>\n\n\n\n<li>Que dizes Lu\u00edsa de organizarmos uma festa no dia do casamento? Sabes que esta Academia funciona como uma fam\u00edlia, junt\u00e1vamo-nos todos e faz\u00edamos uma festa aos pombinhos.<br>Lu\u00edsa ficou radiante com a ideia, pois que coincidia com a sua. Ficaram a combinar alguns pormenores e o Costa depois faria o resto, assim como avisar os restantes elementos da Academia.<br>Chegou o dia do casamento. Maria entrou na Igreja, vestida de noiva, com um vestido simples, branco, sem v\u00e9u, com os seus lindos cabelos soltos, caindo em cascata pelos ombros, uns brincos de p\u00e9rola muito pequeninos a condizer com o colar de p\u00e9rolas, muito discreto tamb\u00e9m.<br>Estava linda e Pedro, que j\u00e1 a esperava no altar, olhava para ela, de bra\u00e7o dado com o seu irm\u00e3o, imaginando que estava a ver uma deusa caminhando ao seu encontro.<br>Estava t\u00e3o absorta olhando para Pedro, o seu amor, que s\u00f3 quando ia a meio da Igreja \u00e9 que viu que ela estava repleta de gente.<br>Olhou para um lado, olhou para outro e s\u00f3 viu rostos conhecidos, olhando-a com ar feliz e, nesses rostos, ela reconheceu os seus colegas e os seus professores da Academia.<br>Parou, mas Jorge puxou-a docemente a caminho do altar, dizendo:<\/li>\n\n\n\n<li>Anda maninha, isto \u00e9 a prova de como tu \u00e9s querida por toda a gente, anda o Pedro espera-te. &#8211; Jorge j\u00e1 sabia o que se ia passar, Lu\u00edsa tinha-lhe contado a surpresa que iriam fazer a Pedro e Maria.<br>A cerim\u00f3nia foi linda. O Padre falou de amor, de felicidade e de como \u00e9 preciso saber sofrer para se conseguir obter o desejado na vida.<br>Ap\u00f3s a cerim\u00f3nia, Maria e Pedro, sem se aperceberem, foram empurrados para dentro dum carro que os levou \u00e0 tasca do Jo\u00e3o, que nesse dia foi pequena para tantos amigos e para tanta alegria.<br>\u00c1s vinte horas, o director da Academia dirigiu-se ao Pedro, entregando-lhe uma chave e dizendo:<\/li>\n\n\n\n<li>Aqui tens Pedro a chave do veleiro da Academia para a tua lua-de-mel. \u00c9 a prenda da Academia para ti, meu companheiro e amigo. &#8211; Dizendo isso abra\u00e7ou-o fortemente. &#8211; S\u00ea feliz, meu amigo, tu mereces essa felicidade.<br>Pedro, sem nada dizer aos restantes, apenas Sofia e Lu\u00edsa sabiam, pegou em Maria e, sorrateiramente, sa\u00edram pelas traseiras. Foram para o veleiro, tendo Pedro no caminho contado a Maria a oferta dos amigos da Academia. Maria pensou estar sonhando, casada com Pedro e com uma lua-de-mel em pleno alto mar.<\/li>\n\n\n\n<li>Meu amor, isso \u00e9 o culminar da nossa felicidade.<br>\u00c0 meia-noite o mar, como que para saud\u00e1-los, batia forte. Pedro e Maria abra\u00e7ados no conv\u00e9s, olhavam a lua, que nesse dia estava grande, sorridente, brilhante e cheia como que reflectindo a alegria que ia nos seus cora\u00e7\u00f5es e no c\u00e9u viram um ponto brilhando. Pedro abra\u00e7ou Maria, fazendo-a olhar esse ponto luminoso.<\/li>\n\n\n\n<li>Meu amor, olha aquele ponto no horizonte, que tanto brilha, a olhar para n\u00f3s.<\/li>\n\n\n\n<li>\u00c9 uma estrela Pedro! &#8211; Disse Maria fixando-a com os olhos h\u00famidos da emo\u00e7\u00e3o que tomava conta dela nesse momento.<\/li>\n\n\n\n<li>A nossa estrela, amor, ela vai iluminar os nossos dias. A nossa estrela. &#8211; Repetiu Pedro apertando-a contra si. &#8211; Amo-te minha Maria do Mar. &#8211; Dizendo isso, e sem ambos tirarem os olhos desse ponto que os guiava, beijou-a terna e meigamente.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong><em>FIM<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><strong><em>Bete Mota<\/em><\/strong><\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma hist\u00f3ria de amor na Serra PARTE I \u00c9 Dezembro e faz um frio que gela os corpos.Estamos numa aldeiazinha do interior, na encosta da Serra da Estrela.Tem poucas casas esta pequena aldeia. No centro, abre-se um grande largo, com uma linda fonte, onde jorra \u00e1gua noite e dia.\u00c0 volta dessa fonte, alinham-se uns banquinhos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"saved_in_kubio":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-140","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sentidospartilhados.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/140","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sentidospartilhados.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sentidospartilhados.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sentidospartilhados.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sentidospartilhados.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=140"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/sentidospartilhados.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/140\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":280,"href":"https:\/\/sentidospartilhados.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/140\/revisions\/280"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sentidospartilhados.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=140"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sentidospartilhados.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=140"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sentidospartilhados.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=140"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}