Uma história de amor na Serra
PARTE I
É Dezembro e faz um frio que gela os corpos.
Estamos numa aldeiazinha do interior, na encosta da Serra da Estrela.
Tem poucas casas esta pequena aldeia. No centro, abre-se um grande largo, com uma linda fonte, onde jorra água noite e dia.
À volta dessa fonte, alinham-se uns banquinhos de pedra, gelados, mas as pessoas da aldeia não sentem o frio da pedra, porque quando por ali vão sentar-se, é o calor humano dos vizinhos e amigos que encontram, pois aí encontram sempre alguém que as espera para dois dedos de conversa. E, logo ao lado, têm a igreja onde o seu confessor as espera.
Ocupam, assim, o vazio que a solidão lhes deixa nas suas vidas.
É ali naqueles modestos bancos de pedra que com amigas e amigos, saboreiam o convívio dos dias e revivem o passado.
Nas lojas do largo da pequena aldeia, os comerciantes tentam vender aos visitantes, artigos típicos da Serra da Estrela, uma recordação da Serra, vá lá…” e assim passam a vida a criar, com produtos, recordações de dias felizes.
A pequena igreja, toda pintada de branco, cuidada com muito carinho, está rodeada por um jardim com flores, plantadas com amor, regadas com a paixão das gentes da terra e, com os seus cheiros e sua beleza, enfeitam esse lugar sagrado que transmite paz e sossego.
Nessa pequena aldeia, vive Maria com os seus familiares; a tia e os primos, família que a adoptou após a morte dos pais, num acidente de viação, quando Maria mais precisava deles, na idade em que as dúvidas assaltavam a sua mente e começavam os porquês:
- “Quem sou eu? “ afinal a pergunta que todos fazemos quando somos jovens.
Quando Maria se interrogava sobre a sua infância, sobre o seu corpo, a sua sexualidade, a sua vida social; na idade em que os sentimentos brotam em fluxo, sem pensar, nem medir consequências; na hora em que um conselho duma mãe vale por trinta presenças amigas, Maria ficou só, ficou sem os pais.
Após o funeral, a tia e os primos, que vivem nesta aldeia, foram buscá-la, porque a miúda era da família e sendo eles os seus únicos parentes, não queriam que fosse abandonada à má sorte, na rua ou numa qualquer indiferente instituição e levaram-na para junto deles.
Mas a vontade de Maria ficou paralisada, porque, saindo de sua casa podia perder algo que não tinha, mas que no seu coração sabia ser seu; Pedro, o rapaz que ajudava o pai na lojinha da esquina da rua principal da aldeia, junto ao jardim municipal, o rapaz que punha o seu coração a saltitar, que fazia Maria inventar algo para comprar, só para o poder ver, senti-lo sem o tocar e olhar para ele sem ele se aperceber. Só que Maria não sabia que Pedro sentia o mesmo que ela, só que a timidez não o deixava demonstrar.
Mas como tudo na vida tem um fim, os seus encontros acabaram com a ida de Maria para essa aldeia da Covilhã.
Sem que disso se apercebesse, tal era a dor sentida pela perda dos pais, ela não sabia que a sua vida se ia transformar, a sua família iria ser outra, apenas sabia que estava sendo arrastada pelo infortúnio.
Mas isso já foi há muitos anos e hoje é dia de alegria na família, porque o noivado da sua prima Joana, a sua melhor amiga, vai chegar ao fim, com o casamento aprazado para a véspera do dia de Natal.
Lá fora, as crianças brincavam na neve, com a alegria estampada nos seus pequenos rostos e faziam Maria recordar a sua infância, quando feliz, ela brincava com os seus pais, os seus amiguinhos, as brincadeiras no mar, a correria da sua mãe sempre atrás de si, porque ela era uma criança rebelde, mimada, mas meiga, e tinha o mundo a seus pés, esse mundo que lhe fugiu de um momento para outro, esse mundo que ruiu com a perda dos pais, com o afastamento do seu amor, o Pedro, e hoje, com a casamento de sua prima amiga e dilecta, com a saída dela lá de casa, essas lembranças da sua infância e adolescência, vieram-lhe à mente e tudo isso a deixou triste e estranha.
Algo se começou a desenvolver dentro dela, como uma chamada. Dos livros que lera ao longo dos anos, chegavam à sua memória ecos de grandes amores; livros que descreviam o mar, as ondas, os seus efeitos psicológicos no ser humano; livros que a acompanharam durante todos estes anos e que a fizeram sonhar, mas que já não bastavam para a sua alma inquieta, sedenta de carinhos, alma que, dia após dia, se sentia mais atraída pelo mar.
Maria começou a viver num grande desassossego, a sua tristeza já se reflectia no seu rosto, no seu andar, nas suas palavras.
Os primos, a tia, os amigos já não a satisfaziam, já nada lhe dizia, pois a sua alma estava longe, os seus sonhos estavam longe, ela vivia com o Pedro no seu pensamento, mas um viver de desilusão, porque sabia que jamais o voltaria a encontrar e ela não queria ninguém.
Os rapazes da aldeia convidavam-na para sair e ela, embora amavelmente, sempre recusava os convites, fechava-se nos seus sonhos, nas suas ilusões, mas… - Acorda Maria – disse a tia, com um suave toque no seu ombro.
- Desculpa tia Sofia, estava longe – respondeu, com um sorriso tímido que aflorou aos seus lábios.
- Rapariga, deixa de sonhar, vem ajudar a tua prima nos preparativos para a festa do casamento, deixa os teus sonhos para outro dia. – Replicou a tia com ar muito alegre.
Maria olhou fixamente a tia e viu essa mulher de cinquenta e oito anos que, apesar dos trabalhos pesados a que a vida a sujeitou, tinha um rosto sempre prazenteiro, uma palavra de amor para todos quantos a rodeavam, um gesto de carinho, para Maria que nem sua filha era.
A tia, que perdera o marido ainda cedo, teve que, sozinha, dedicar a vida ao trabalho, para dar uma educação razoável aos seus três filhos pequenos e, não bastando isso, ainda teve que criar a sua sobrinha menor.
Essa mulher vestida com roupas negras, essa mulher de aspecto frágil, mas com força duma leoa, tudo fez para criar e salvar as suas crias.
Enquanto pensava nisso, Maria agarrou a tia pela cintura e lá foram as duas com um ar feliz. Maria, embora com uma sombra no olhar, foi mostrando uma felicidade que estava longe de sentir e trabalhou o dia todo, sempre com um sorriso nos lábios, como se do seu casamento se tratasse.
O relógio da torre da pequena igreja anuncia as seis horas da manhã, as badaladas, ecoam na serra e, antes da última, Maria acordou sobressaltada pensando que já era tarde.
Finalmente, tinha chegado o grande dia. Levantou-se de imediato e, a correr, foi ao quarto da prima. - Joana, acorda Joana – sussurrou Maria, passando-lhe as mãos pelo seu rosto angélico, que, mesmo a dormir, sorria.
- Hum, tenho sono…
- Não, Joana, não podes continuar a dormir, hoje é o dia do teu casamento, o Eduardo já passou por aqui há dez minutos, ele já se levantou. – Insistiu Maria excitada.
Joana espreguiçou-se, sorriu e dum salto pôs-se no chão. Agarrou a prima e dançou em volta dela, alegremente e, durante cinco minutos, imaginou-se no lugar da prima e que, dali a umas horas, estaria nos braços do Pedro. - Hoje não quero esses sonhos, hoje quero ser feliz com a felicidade da minha prima – Pensou Maria e acordou para a realidade, fechando os seus pensamentos.
Ajudou Joana a vestir-se e, quando já estava pronta, olhou para ela… Ah! Como estava linda no seu vestido de noiva, branco, simples, comprido sem cauda, apenas com uma rendinha nos ombros, um decote largo, a mostrar o coração feliz, o cabelo solto, macio, caindo em cascata pelos ombros, mais parecia um anjo, vestido de noiva.
Maria tinha desenhado esse vestido pensando na ingenuidade de Joana. Combinou tudo, desde o branco, à renda, ao véu, tudo tinha que combinar com Joana, que era linda, ingénua, pura, prima, e a sua melhor amiga. Não se conteve e abraçou-a forte e, encostando sua boca ao ouvido de Joana, disse-lhe baixinho: - Vais ser feliz!
A casa, de rés-do-chão e primeiro andar, era toda em pedra. No rés-do-chão, tinha uma sala, a cozinha, um anexo, uma casa de banho e um lugar para arrumações, que também servia de local para se passar a ferro, rodeada por um quintal empedrado ladeado de árvores.
No primeiro andar, ficavam os quartos e outra casa de banho, com janelas dum lado e doutro, e, por uma das janelas, subia uma trepadeira que caprichosa caía, depois pelo tecto que cobria o anexo.
Uma trepadeira que punha o sol a esconder-se cheiinho de vergonha, tal era a sua beleza, com as suas folhas verdes, como se o frio e a neve não passassem por ali. Na fachada da casa, umas escadas davam acesso ao quintal da frente, onde as flores sorriam a quem passasse e para elas olhasse.
Dessa casa e por essas escadas, desceu Joana rumo à felicidade, imperiosa como se fosse uma rainha, mas sempre sorridente. Entrou no carro do irmão e seguiu para a Igreja, onde já Eduardo, o noivo, a esperava, garboso no seu fato preto, mas impaciente, com o rosto contraído pelos nervos.
A música nupcial dentro e fora da Igreja. Era um hino moderno, de amor e de paz. Eduardo olhou-a e os músculos contraídos deram lugar a um sorriso feliz, a sua Joana já estava ali, já caminhava ao seu encontro, sempre sorridente, como se quisesse agarrar o mundo com esse sorriso.
Joana, enquanto caminhava, ia virando a sua cabeça e reparou que a Igreja estava como ela tinha escolhido. Não tinha rosas, pois foram substituídas por flores silvestres, lindas, de vários tons que davam à pequenina igreja da aldeia um ar de campo alegre.
Com a sua música, diferente também, escolhida por ela, pois não queria uma marcha nupcial, queria um hino de amor e era esse hino que estava tocando nesse momento, entoando alto e fazendo as paredes da igreja vibrar, parecendo que as flores dançavam ao seu som.
A cor de cada vestido das suas damas de honor condizia com o tom da flor que elas transportavam nas mãos e o ramo de Joana continha todos esses tons, numa harmonia doce que fazia contraste com o branco do seu vestido e o moreno da sua pele.
Tudo estava lindo, como linda foi a cerimónia, como lindas foram as lágrimas de felicidade de Joana e como lindo foi o beijo que o Eduardo lhe deu, que também fugiu à regra, pois, em vez de seus lábios beijar após dizerem o sim, beijou-lhe o rosto, erguendo depois a cabeça e completando seu carinho, com um beijo na testa.
Chegou a noite, a cerimonia já se tinha realizado, a festa estava no auge e Maria de mansinho, saiu para a rua. A neve caía e os seus flocos roçavam-lhe o rosto enquanto caminhava. Parou estática, com os pensamentos bem longe, no infinito, no desconhecido.
Seus pensamentos estavam junto a um rosto moreno de cabelos encaracolados.
Os pensamentos de Maria estavam junto do Pedro. - Onde estás, Pedro? – Gritou bem alto, afastada da multidão, longe do burburinho da festa.
- Porque me afastaram de ti? Porque não vejo os teus olhos? Onde, meu Deus? Onde estás?
E suas lágrimas começaram a fundirem-se com os flocos de neve, pareciam estalactites, querendo-se partir, tal era a dor de seus sentimentos. Fechou os olhos e escutou o vento… - Mariaaaaaaaa, Mariaaaaa… – pareceu-lhe ouvir chamar.
- Que voz é esta? Iria jurar que ouvi meu nome, mas não, ninguém está aqui, estou só, ninguém me iria chamar. – Maria sorriu e continuou a andar.
- Mariaaaaaaaa, Mariaaaaa. – Ouviu-se novamente, o som mais perto e Maria pensou estar a enlouquecer.
No mesmo instante, em Peniche, a muitos quilómetros dali, Pedro estava junto ao mar, gritando bem alto o nome da Maria. Ele havia sentido também, durante esses anos, a sua falta.
Queria-a ali, junto a ele, porque nunca a esqueceu. Todos estes anos só tiveram um sonho; ter um dia Maria nos seus braços e, enquanto um chorava junto à neve, outro secava as suas lágrimas junto ao mar. - Tenho que sair daqui, tenho que ir viver junto ao mar – Pensava Maria. – Vou-me embora daqui – Gritou bem alto, enquanto as lágrimas escorriam pelo seu rosto.
Dirigiu-se para casa, pensando em viver outra vida; arranjar outro emprego e sair dali. - A Minha tia vai aceitar! E com esses pensamentos
adormeceu…

PARTE II
Dia vinte e cinco de Dezembro. Maria, depois de umas horas de sono turbulento, acordou novamente cedo. Era dia de Natal. Levantou-se e, enquanto se vestia, surgiram lembranças do passado; os seus sonhos de menina; os carinhos da sua mãe; o infinito do mar e o olhar do Pedro e, nesse momento, decidiu:
- Vou-me embora daqui e vai ser hoje! Quero ver novos horizontes, quero sentir o mar, quero viver outra vida, esquecer a Maria sonhadora. – Foi até à cozinha, onde a tia Sofia estava a preparar o pequeno-almoço.
- Bom dia tia – disse Maria, com um sorriso que já não era habitual ver-se nela.
- Mau, mau, que se passa menina?
- Tia, precisamos de falar.
- Mau, mau, Maria, quando queres falar comigo é sinal que os teus sonhos estão voando novamente. Não, não te quero escutar.
- Tia, escuta-me por favor, ouve-me. Minha prima Joaninha casou-se. Sabes que ela era a minha melhor amiga, a minha companheira, a minha confidente. Ela ensinou-me a sorrir novamente, mas tia… ela não me soube ensinar uma coisa.
- O quê, filha? O que Joaninha não te soube ensinar? – Indagou com curiosidade a tia.
- Não me soube ensinar a esquecer os meus ideais, os meus sonhos Ela não me ensinou a não precisar do mar, ela não sabe que eu preciso dele, de o ver, de o sentir, de lhe falar. Ela não me ensinou a esquecer quem tanto amei e a quem tanto amo.
-Por favor minha tia, liberta-me deste pesadelo, deixa-me voar, deixa-me sair por uns tempos e se não me encontrar, eu volto para junto de ti e dos meus primos e voltarei para esta aldeia e então deixarei de sonhar. Mas deixa-me correr atrás dos meus sonhos, deixa-me vive-los por favor…
No rosto de Maria, nas lágrimas que lhe corriam rosto abaixo, a tia viu o seu desespero. - Sim, Maria, quem sou eu para te prender nesta gaiola dourada? Quem sou eu para impedir de procurares os teus sonhos? Estarão no mar? No deserto? Numa duna? Não sei, Maria!… Mas vai sim filha, com um pedido apenas. – E o seu rosto transformou-se…
- Diz tia, eu atenderei o teu pedido.
Dizendo isso, abraçou-a muito forte e nesse momento sentiu-a como sua própria mãe. Nesse momento viu que ela a amou como se sua filha fosse, mas Maria, dentro do seu egoísmo, nada viu, nada sentiu, porque vivia presa a um passado, esse passado que a chamava. - Só quero que vás depois do ano novo, fazes-me isso? Passas esse dia connosco?
- Sim, esse dia será teu, minha tia, esse dia, dedico a ti, apenas a ti e a mais ninguém. Nesse dia eu não sonharei com nada, porque esse dia será o meu último dia de sonho. A partir desse dia, eu irei viver a minha realidade, aquela que eu anseio viver.
Com estas palavras acabaram o pequeno-almoço e foram ambas tratar dos seus afazeres.
Volta e meia, Maria sentia um olhar cúmplice sobre ela e quando olhava, via o olhar da sua tia e aí sorria, porque sabia que a tia estava com ela e sabia porque sorria; era um sorriso de esperança, um sorriso de quem quer alcançar o seu mundo em pouco segundos.
Chegara por fim o dia esperado por Maria. Era o terceiro dia do ano de mil novecentos e noventa e nove, dia da sua partida. Juntou a sua família à hora do almoço e comunicou aos restantes membros a sua decisão de partir.
Aí sentiu olhares de revolta, olhares de repreensão, mas também sentiu um olhar meigo sobre ela, o de sua tia. Ela sabia o porquê da sua partida, embora todo o resto da família o desconhecesse, incluindo Joana a quem nada contara. Ela, na sua felicidade, não iria compreender os seus desejos, os seus anseios, pelo que preferiu esconder do resto da família os motivos da sua partida. - São duas horas da tarde, Maria. Avisou a tia.
- Sim tia, estou acabar de arrumar umas coisas. Levas-me ao comboio? – Um sorriso…
- Claro, como ficaria a saber se partias, se não te visse entrar nele? Ah, Maria para onde vais? – Mais um sorriso, um sorriso malicioso, como se soubesse muito e muito quisesse ocultar…
- Onde vou? Boa pergunta tia, vou por aí; onde houver um mar eu paro e… – Abraçou a tia e ao abraçá-la forte chorou amargamente, porque tinha ganho uma mãe e agora ia abandoná-la, como a sua, tragicamente, a tinha abandonado há dezassete anos atrás.
- Tenho que ser forte tia, ajuda-me…
- Sim filha, eu ajudo-te, vais ser forte, porque sabes se algo correr mal eu estou aqui, nesta casinha humilde à tua espera.
Com as lágrimas nos olhos e um aperto no peito, partiu com a esperança no coração…
O barulho do comboio misturou-se com o barulho dos seus pensamentos; com as ideias da sua alma inquieta.
Decidiu parar na sua terra natal. E enquanto pensava… - Tenho que fazer isso, é por aí que vou começar, aí verei se as minhas esperanças serão infrutíferas ou não.
Dirigiu-se para o centro da aldeia, em direcção à loja onde outrora fazia compras e sonhava. - Bom dia senhora – Disse Maria com um sorriso nos lábios e os olhos a brilhar.
- Bom dia menina – Respondeu a idosa que estava sentada num banco do jardim.
- Em tempos não houve ali naquela esquina uma lojinha?
- Sim menina, houve, mas já há anos que fechou e o rapaz que aqui estava à frente dela partiu para o litoral, sabe menina? – Diz a velhinha sorrindo.
- Ele era um sonhador, isto não era vida para aquele rapaz. Ele queria voos mais altos e voou – Dizendo isso, o seu sorriso alargou-se.
Maria sentiu um choque. O seu coração ficou pequenino, as suas esperanças estavam-se esfumando e não conseguiu conter uma lágrima teimosa, que apareceu ao canto de seus olhos.
Tentou disfarçar, mas a velhinha olhou para ela e com as suas mãos, já rugosas, secou-a e perguntou-lhe – Conhecia-o? - Não, não o conhecia, emocionei-me apenas com as suas palavras.
Um sorriso do tipo malandro surgiu no rosto da idosa… como dizendo que se apercebeu que Maria mentia. - Sabe menina, o meu marido há dias contou-me que esse rapaz está bem na vida, vive junto ao mar e tem uma vida que não tinha aqui, voou, mas voou alto.
Dizendo isso a velhinha sorriu novamente, um sorriso doce, como se ficasse feliz por transmitir aquela mensagem, porque ela sabia que lhe tinha dito algo de precioso. Mas a sua sabedoria fê-la ser discreta. - Obrigada senhora. – Agradeceu Maria, com os olhos agora com um doce brilho de alegria.
- Precisa de alguma coisa, menina?
- Não, obrigada, passei por aqui e lembrei-me dessa loja. Obrigada por perder estes minutos comigo.
Apertou a sua mão e sorriu. Como que compreendendo o seu agradecimento, a senhora velhinha, sorriu também.
Maria, seguiu a sua viagem, sem destino, ou será que não tinha um destino? Sim, claro que tinha um destino sonhado, para quê enganar-se. O seu destino chamava-se felicidade, mar ou apenas ilusão!?
Ela não sabia, ainda não o tinha encontrado. Comprou um bilhete para a zona de Peniche e apanhou o respectivo comboio.
Tinha lido num jornal que, em Peniche, havia uma vida de mar bastante agitada, que todos os amantes do mar iam lá parar. E porque não ela? Ao pensar nisso sorriu.
A viagem estava a ser lenta, mas Maria nem se apercebeu dessa lentidão, absorvida que estava a observar a paisagem, os caminhos vazios do verde habitual, porque o Inverno rigoroso e a geada tinham queimado tudo quanto era verde…
Maria abriu a janela. O gelo que se fazia sentir lá fora fê-la sorrir, pois lembrou-se do véu da sua prima no dia do casamento, das fotos que tiraram no meio da neve, da alegria da sua prima a correr na neve, como se de uma garota se tratasse e não duma noiva e, entre uns pensamentos tristes e outros felizes, ela ia alternando a sua visão entre uma paisagem com restos do verde e outra seca e quase sem vida, quando, finalmente, chegou.
O seu primeiro pensamento, assim que saiu do comboio, foi: - Tenho que ver o mar, tenho que sentir o seu cheiro, tenho que lhe falar, contar-lhe como tem sido a minha vida estes anos todos, tenho que lhe pedir conselhos.
Ele vai-me ouvir, cada onda sua, assim que se aproximar de mim vai-me aconselhar, vai-me dizer o que devo fazer da minha vida, vai-me dizer onde está Pedro, vai levar o meu perfume até ele e vai-lhe transmitir que eu estou aqui em Peniche junto ao mar, como ele está, só que não sei em que terra do litoral, mas numa está de certeza e ele vai escutar essa onda.
Mas… Uma lágrima rebelde aflorou aos seus olhos e desceu pelo seu rosto. Maria limpou-a e seguiu até à praia. Os seus passos eram lentos; ela queria andar rápido para mais cedo ver o mar, mas as suas pernas não correspondiam, a sua dor estava voltando novamente, as saudades estavam cravadas dentro de si, fazendo-a sentir-se só, desamparada e, enquanto andava, as lágrimas corriam pelo seu rosto abaixo e Maria, sussurrando, ia dizendo… - Não sejas parva Maria, tu não vais voltar a ver o Pedro. Podes ir fazer esse pedido ao mar, podes até suplicar, mas ele não te vai ouvir.
Recusava-se a ouvir essa voz interior e seguiu em direcção à praia. Parou, olhou, nada viu, nada sentiu, estava paralisada, não conseguia acreditar que ao fim desses anos todos, ela estava junto ao mar. Pensou que estava sonhando e beliscou-se.
Ao sentir o beliscão, abriu os olhos e aí sim ela viu a imensidão do mar. Ele estava ali! Olhou o horizonte e viu as ondas que vinham em correria, umas atrás das outras, para junto de si. Tirou os sapatos, molhou os pés e sentiu como se tivesse sido abençoada por algo divino.
Voltou a fechar os olhos para o sentir, para o cheirar, para o ouvir e assim se manteve durante alguns minutos, como que extasiada…
Sentou-se na areia e falou com o mar. Fez-lhe o seu pedido e ele, como que a compreendendo, fazia barulho com as suas ondas que, ao chegarem a seus pés, se desfaziam como uma carícia e a espuma em que elas se transformavam, fizeram Maria sonhar.
Sonhou que era uma sereia que ia de volta ao mar nessa onda e que, lá bem no fundo, iria encontrar o seu príncipe dos mares e esse príncipe, para não a deixar sozinha, se transformava num peixe para a acompanhar.
E os seus sonhos mergulharam nesse mar profundo.
Foi nadando, nadando e olhando dum lado para outro, até que qualquer coisa lhe toca. Sente medo, mas… domina-se. Olha e vê aquele peixinho lindo que a acariciava com as suas barbatanas, como que dizendo: - Amor, sou eu, o teu Pedro, não estás só, eu estou aqui, aliviando os teus pensamentos, a tua alma. Vem… vem comigo, mergulha neste mar imenso que é o meu mundo.
- Vem… vou mostrar-te as algas que falam, os recifes que choram de solidão, os meus semelhantes que festejam a passagem da tempestade. – Dizia o peixinho enquanto nadava.
- Olha… liberta-te e deixa-te levar por mim. Mergulha cada vez mais fundo.
- Olha, vês aquele polvo? Ele chama-te, ele dá-te as boas vindas, deixa-te ir, não tenhas receio, vai até junto dele…No seu sonho, ela escuta a voz e reconhece a voz do Pedro e deixa-se ir com um sorriso. Uma paz enorme apoderou dela.
Aproximou-se do polvo, que a agarrou com os seus tentáculos, como que protegendo-a do seu próprio medo. O peixe-aranha aproxima-se e estende-lhe seu corpo e um sem número de peixes aproximam-se dela, sorriem e embalam-na com os seus cânticos.
Vestem-na com um manto azul celeste, com uma grande cauda vermelha como o fogo, contrastando com o azul/cinzento do mar e rodopiaram-na. As raias começaram a cantar, o som da música foi aumentando e o seu cabelo foi coberto com algas marinhas, lindas, caindo em cascatas ondulantes, com a estrela-do-mar a fazer de coroa.
Ela era uma sereia princesa, onde os seus súbditos eram os habitantes do mar; onde o carinho deles era a sua música, as barbatanas deles o manto, as ondas revoltas a carruagem e…
Foi-se, deixando levar por aquela linda e profunda ilusão, a ilusão que estava junto a Pedro e aos seus amigos e que a paz, finalmente, tinha voltado ao seu espírito, uma paz que a encantava.
Sentiu uma carícia, no seu ombro. Inclinou a sua cabeça para sentir essa mão, que julgava ser a do Pedro e acordou, com uma voz doce, protectora, que a aconselhava: - Acorde menina. O mar está bravo e daqui a pouco a maré vai encher. Tem que sair daqui!
Ela olhou para o homem que lhe tocara e sorriu, dizendo: - Adormeci, nem dei pelas horas passarem, obrigada por me acordar.
Dizendo isso, levantou-se. Sorriu mais uma vez para o homem e despediu-se. Agarrando na sua mochila, saiu junto do mar, sentindo-se calma, com uma paz interior e um apetite que há muito não sentia, com o estômago reclamando dos maus-tratos dos últimos dias.
Entrou num restaurante virado para o mar, sentou-se à mesa, pegou na lista, escolheu o que queria e, enquanto esperava pela comida, deixou o seu olhar percorrer a sala.
Havia ali muita gente, uns com a pele queimada pelo mar, outros de fato e gravata. Desviou a vista, olhou o mar e voltou a sentir a mesma paz, que sentira à beira-mar. Lembrou-se do seu sonho e sorriu, mas entretanto o seu olhar parou num cartaz onde dizia: Curso de mergulhador. - E se eu fosse tirar esse curso? Pensou.
- Estás doida Maria, deixa-te disso – Dizia-lhe a voz do seu consciente.
Uma onda de rebeldia dentro dela a perturbou e, se bem o pensou, melhor o fez, porque após acabar de almoçar, pegou na mochila e seguiu para perto do cartaz, para melhor o ler.
Leu-o, tirou a morada e seguiu a caminho do cais, como se já o conhecesse, pois algo a impelia para lá, algo que não sabia explicar, a empurrava para esse lugar.

PARTE III
Chegou ao local onde tal curso, a Academia do Mergulho e a primeira coisa que viu foi outro cartaz a convidar ao curso de mergulho.
Entrou e bateu à porta duma sala da Academia e uma voz rouca, vinda de dentro, mandou-a entrar, e…
- Boa tarde – Diz Maria, timidamente.
-Boa tarde, que deseja? Alguma informação? – Perguntou o homem colocado por trás da pequena secretária em pinho, recheada de papelada.
Sobre a mesma, um troféu em forma de mergulhador fazia de pisa-papéis e, num extremo da secretária, um placa de identificação, COSTA, em letras bem grandes. - Sim, li um cartaz sobre o curso de mergulhador e gostaria de saber se esse curso também é para mulheres?
- Claro, para todo o mundo dos 18 aos 40 anos. Que idade tem a menina? Dizendo isso o seu olhar percorreu o corpo da Maria de cima abaixo e Maria corou ligeiramente.
Nesse momento quis desistir de tudo, mas não, não iria ser um olhar que a ia fazer desistir dos seus sonhos. O sonho de mergulhar nessas águas límpidas e profundas. Reagiu e respondeu-lhe com ar reprovador: - Trinta e um anos… Quero inscrever-me, o que é preciso?
O homem informou-a do que era preciso, explicou tudo e enquanto ele preenchia a papelada para a sua inscrição na Academia, Maria ia percorrendo a sala com o olhar e reparou que a mesma tinha uma decoração discreta.
A simplicidade estava visível ali, nela tudo continha dizeres e fotografias alusivas ao mundo do mar, ao mundo do mergulho. As paredes brancas como se tivessem sido acabadas de pintar, com fotos de cada turma de mergulhadores que por ali passaram.
Ao centro por cima da secretária estava uma fotografia do fundador da Academia, um homem forte, com grandes bigodes, figura de um autêntico lobo dos mares.
As janelas grandes, abertas para trás, onde a visão era maravilhosa, pois via-se o mar ali tão perto, como se as ondas quisessem entrar através delas.
Tão absorta estava a observar a sala, que saltou ligeiramente ao ouvir a voz áspera e um pouco seca do funcionário, ao dizer-lhe: - Cada dia há um treinador, o professor nunca é o mesmo e, para não haver dúvidas, é expressamente proibido as alunas envolverem-se com os professores.
- Muito bem. – Respondeu ela. E pensou. – E os professores com as alunas? – O meu objectivo não é esse e, já agora, saberá dizer-me se haverá por aqui um quarto para alugar?
- Olhe, veio mesmo na hora certa. Nós alugamos quartos para alguns alunos e ainda temos uma vaga. Está interessada?
- Certamente que sim, cheguei agora do interior e não tenho para onde ir.
- Do interior para aqui?!
- Porque não?
- Desculpe menina, é que o seu aspecto nada diz que vem do interior, parece antes vinda da capital.
Maria sorriu e disse-lhe… - Quem vê caras não vê corações – Dizendo isso, pegou na sua mochila e seguiu o homem que ia indicar-lhe o caminho.
Chegou ao quarto, entrou e, com olhar, percorreu-o todo. Gostou do que viu, um quarto limpo, arejado, com cortinas aos xadrez, uma cama de corpo e meio, uma cómoda e uma guarda fatos, tudo em pinho, a condizer com o chão que também era em madeira de pinho, bem como o varão dos cortinados.
Estava tudo a combinar, dentro da simplicidade, gostou, gostou muito e decidiu alugar o quarto.
Despediu-se do funcionário, fechou a porta, deu um salto para cima da cama e suspirou e, ao suspirar sorriu. Fechou os olhos e os sonhos voltaram novamente à sua mente. Um rosto, que a fixava, aflorou aos seus olhos e, nesse rosto, mais uma vez via a figura de Pedro. - Por onde andas? Que é feito de ti? Porque nos separou a vida?! – Gritou uma voz dorida dentro de si, como se fosse um animal que acabasse de ser ferido. Mas a sua ferida era grande, tão grande que doía, tão forte, que fazia o seu choro tornar-se compulsivo.
Na sua amargura, chorou, chorou muito, até que, cansada, adormeceu vestida e calçada, só acordando no dia seguinte, mais fresca, sentindo-se livre como um pássaro. Estava radiante e nada a afectava naquele momento. Via o mundo cor-de-rosa.
Iria realizar um dos seus sonhos, ela ia mergulhar nesse mar, ver os seus peixes, passear entre as algas e recifes, conhecer todas as maravilhas das profundezas do mar.
Levantou-se, deu um duche, preparou-se e lá foi tomar o pequeno-almoço, para depois seguir para a escola de mergulho, onde as suas aulas iriam começar dali a uma hora.
Chegou lá e viu muita gente jovem. Entre eles encontravam-se alunos e alguns professores.
Seu olhar percorreu todos os presentes, mas em nenhum se fixou. Só que, alguém entre eles a viu e a reconheceu. Alguém que paralisou ao olhá-la, como se ela dum fantasma se tratasse.
Pedro estava lá, entre aqueles jovens, vivo, alegre, mas, mais uma vez ele nada fez ou disse. Mais uma vez a sua timidez dele se apoderou, paralisando-o na presença da Maria, mas ela seguiu em frente e misturou-se com os restantes alunos para o reconhecimento geral.
O instrutor, conduzi-os à sala de aulas, fez a chamada e foi conhecendo um a um, entre rapazes e raparigas e cada vez que os chamava, para os pôr à vontade, ia dizendo uma piada e aos poucos foram aparecendo sorrisos em todos os rostos. Os alunos estavam a integrar-se bem e Maria, tal como os restantes, estava feliz por estar a participar nesse curso.
Olhava dum lado para outro e ia observando. O seu olhar observador estava gostando do que via. Acabaram-se as apresentações e o mestre, sorrindo, levantou-se da cadeira e disse: - Chegou a hora de se familiarizarem com a academia, sigam-me. – E lá foram todos atrás dele.
Começaram pela sala onde Maria tinha feito a inscrição e, alguém com sentido de humor, um rapaz alto, moreno, disse… - Esta já nós conhecemos, não podíamos estar no curso, se não passássemos por aqui. – O riso foi geral. O mestre olhou para ele dizendo a sorrir…
- Está visto que temos aqui um rebelde. – Bateu-lhe nas costas. – Veremos se lá em baixo manténs esse sentido de humor. – Mais uma vez a risada foi geral, estava visto que aquele rapaz, chamado Alfredo, iria ser o bobo da aula.
Seguiram depois para uma sala de aulas, onde havia várias carteiras e, encostada a uma parede, encontrava-se a secretária do professor, estando a seu lado o quadro onde ele iria passar os apontamentos.
A sala era pintada de bege e vários quadros alusivos ao mergulho encontravam-se espalhados pelas paredes.
Deixaram essa sala e foram percorrendo mais quatro salas, todas decoradas da mesma maneira, mas cada uma pintada de cor diferente. - Professor, porque é que cada sala de aula tem uma cor diferente? – Indagou uma das alunas, de nome Fernanda.
- Boa Pergunta menina, antecipaste-te porque eu já ia explicar o porquê das cores. – E foi dizendo:
- Cada sala corresponde a um grau de ensino. Cada vez que ultrapassarem esse grau, mudarão de sala e as salas serão conhecidas pelas cores e não por números, como habitualmente. Iremos começar pela Bege, seguida da verde, cinza e finalmente a sala azul, a cor do mar, se lá chegarem serão futuros mergulhadores.
- Mas continuemos. – Disse ele seguindo para a sala dos vestiários, onde explicou:
- Na ala direita, o vestiário e chuveiros femininos, na ala esquerda, vestiário e chuveiros masculinos. – Com um sorriso maroto, perguntou: – Perceberam bem? Agora não troquem.
- Professor – Disse Alfredo. – Eu sou míope. – Dizendo isso, um sorriso malandro apareceu no seu rosto.
- Ah, sim Alfredo? – Ele já sabia o seu nome. – Então lamentamos todos, mas não vamos poder manter-te na escola. Não é verdade meninos? Uma das regras é não ser míope. – O riso foi geral e Alfredo replicou…
- Não professor, eu vejo bem, estava brincando.
Mais uma vez o mestre, piscando o olho para o resto da turma, perguntou: - Acreditam?
- Nãoooooo! – As vozes entoaram nos vestiários e, sorrindo, lá seguiram no reconhecimento da academia.
Seguiram para a sala de reuniões, passando depois para o refeitório, tendo o mestre informado que ali poderiam fazer as suas refeições. E, em menos de uma hora, a academia estava toda vista.
A partir dali, o tempo faria com que o conhecimento da mesma fosse mais profundo.
Oito da manhã do dia seguinte. Pedro saiu de casa e foi passear até à praia. Seus pensamentos estavam turvos e nada melhor que ir olhar o mar para descontrair; para melhor raciocinar. E ali ficou parado a olhar o mar, olhando os pescadores que ali passavam os seus dias pescando.
Tão absorvido estava nos seus pensamentos que nem deu pela chegada do seu colega e amigo. - Bom dia Pedro. Logo de manhã por aqui? – Sorriu.
- Bom dia Sérgio. Estava entretido a observar os pescadores, que nem dei pela tua chegada.
- Que se passa? Estás com umas olheiras, sobrancelhas arqueadas, mau! Eu conheço-te bem Pedro, que se passa? – Insistiu.
- Nada. Sério, não se passa nada!
- Nada? Sabes há quantos anos eu te conheço? Sabes há quantos anos nós trabalhamos juntos? Sabes que entre nós nunca houve segredos! Conta lá rapaz, que se passa. – Deu-lhe uma palmada nas costas e sorriu.
- Ok, ok, está bem! Sabes, esta noite não preguei olho. Apenas isso e, como já não podia estar deitado, vim até aqui para ver o mar.
- Não dormiste? Tu, o homem da nossa praça que mais dorme, não dormiste? Que se passa? Desabafa, homem.
- Lembras-te de eu te ter falado da minha aldeia?
- Sim, lembro-me, porquê?
- Lembraste de eu te ter contado que, quando ainda era garoto, aí com os meus dezasseis anos, me ter apaixonado por uma rapariga? E, por ela, eu fiquei solteiro durante todos estes anos!
- Sim, recordo-me perfeitamente, não fosse ela a mulher a quem tu dedicas esses poemas diários. Mas que aconteceu com ela?
- Ela está aqui, bem perto de nós.
- Aqui? – Interrogou, admirado, Sérgio.
- Sim. Ela é uma das alunas que se inscreveram ontem no curso de mergulho. Lembras-te do Costa dizer que chegou uma rapariga muito bonita do interior?
- Se me lembro, todos nós estamos desejosos de a ver.
- Pois essa rapariga do interior é a Maria, a mulher que amei todos estes anos. E eu sem conseguir coragem para falar-lhe, sem a poder tocar.
- Porque não? Que te disse ela quando te viu?
- Nada, ela não sabe que estou aqui, nem deve imaginar que eu vou ser um dos professores dela. Maria já nem se deve lembrar da minha existência, já lá vão quase dezassete anos, qual a mulher que se lembra do magricelas que estava atrás do balcão duma mercearia?
- Calma Pedro, pode não ser ela. Como bem disseste, passaram-se muitos anos e as pessoas mudam de feições, calma.
- É ela, Sérgio. Eu reconhecê-la-ia entre um milhão.
- Ok! Se é, vai falar com ela, diz-lhe quem és!
- Não, não consigo. Ela não sabe que a amei, que ainda a amo, ela não pode saber. A esta hora já deve ter marido e filhos.
Mantiveram-se a conversar por mais de uma hora, até que chegou a hora do curso. Sérgio, curioso não deixou de comparecer à chamada.
Ele queria conhecer a mulher que fez com que o seu amigo, todos estes anos se afastasse de todas as outras. Ele queria falhar-lhe, ouvir-lhe a voz, saber o que de especial tinha essa mulher, porque para ser amada como era por Pedro, só poderia ser uma mulher especial. E, se bem o pensou, melhor o fez. - Bom dia menina, apresento-me, Sérgio, um dos seus futuros professores de mergulho.
Um sorriso envergonhado surgiu nos lábios de Maria e, estendendo a sua mão, timidamente disse: - Bom dia, sou a Maria.
- Tenho ideia de já a ter visto, mas não sei onde!
- Não me parece. Sou nova aqui, vim do interior, cheguei ontem, vi que estavam a dar este curso e como o mar é a minha paixão, resolvi entrar nele.
- Com licença, as aulas vão começar. Muito prazer Maria, se for preciso alguma coisa, não tenha receio de dizer. – Sorrindo, apertou-lhe a mão.

PARTE IV
Cada um seguiu o seu caminho e Sérgio não resistiu em ir ter com o Pedro. Entrou no seu gabinete, como um furacão, gritando:
- Pedro, mostra-me os teus poemas.
- Estás doido? Que se passa? Porquê essa gritaria?
- Eu conheci-a, eu conheci a tua Maria, eu fui apresentar-me a ela.
- Conheceste a Maria? Conta como foi isso? Como está ela? Está casada? Tem filhos? – Ao dizer isso as suas mãos tremiam, a sua voz trémula mostrava bem o seu estado de ansiedade.
- Calma rapaz. – Disse Sérgio a sorrir. – Eu só me apresentei, ela pouco falou comigo, ela estava tímida, mas Pedro, digo-te uma coisa, só uma mulher daquelas te faria estar estes anos todos sozinho. – Ao dizer isso um sorriso malicioso apareceu ao canto de sua boca.
- Diz Sérgio, de que falaram? Ela está casada?
- Não há aliança naquele dedinho delicado, isso posso-te eu garantir, mas ela só me disse o nome, Maria e que veio do interior. Mas ela é bonita a valer, delicada, suave, viste-a bem ontem?
- Como ela é alta, aqueles olhos azuis a fazerem contraste com aquela longa cabeleira preta, aquele sorriso, sempre nos seus olhos e lábios, morena, vestida com descrição, mas com gosto. Pedro, tens a certeza que ela veio do interior? Duma aldeia? Ela é a tua mulher Pedro, eu já não duvido mais duma coisa dessas. – Dizendo isso, pegou nos poemas que o Pedro lhe estendia e começou a lê-los.
Eles falavam do seu grande amor por Maria. Neles, descrevia como tinham sido as suas vidas de adolescentes. Descrevia o sofrimento pelo qual passou ao longo destes anos e Sérgio estava maravilhado com tudo aquilo.
Ele amava a sua esposa, mas não daquela maneira, ele jamais tinha visto amor com a grandeza daquele que Pedro nutria por Maria e ali ficou lendo, sem nada dizer, sem notar que Pedro se tinha retirado. - Pedro. – Chamou ele sem levantar a cabeça e, como não ouviu resposta, ergueu os seus olhos e viu que estava só.
Olhou o relógio e verificou que esteve ali estático durante uma hora a ler os poemas do amigo, essas maravilhas do amor e, como se estivesse falando para o amigo, disse: - Olha este, vê este, neste dia não devias estar muito inspirado. – Começou a lê-lo em voz alta.
Cem anos na terra eu viva
Outros tantos cem viveria
Á procura de ti minha diva
Sem desistir um só dia
Em cada dia que finda
Mata-me a minha saudade
E a tristeza é bem vinda
Longe da tua liberdade
Mais um dia está a nascer
Renasce também a esperança
De hoje te encontrar e te ter
Pois só tenho tua lembrança
Meu coração já não ama
Nem outro amor eu vou querer
Maria tu és toda a minha vida
Sem ti eu não sei mais viver!
Entretanto, como ninguém estava ali para o ouvir ler, porque Pedro tinha saído, ele estava transtornado, não conseguia estar quieto.
Tinha que ver a Maria, nem que fosse de longe, ele tinha que saber como ela estava.
Sérgio saiu da sala e foi a casa falar com a sua esposa. Levava consigo alguns poemas do Pedro, para partilhar com ela a sua emoção, a emoção de ter um amigo assim, com essa capacidade de amar.
Ao chegar a casa chamou Luísa, a sua mulher, e começou a contar-lhe a história do seu amigo Pedro e de Maria.
- Será que ela ainda o ama também? – Perguntou Luísa.
- Não sei. – Respondeu Sérgio. – Ele nunca me falou do amor dela, mas só pode, eles têm demasiadas coisas em comum, o celibato, o amor ao mar. Eles amam-se Luísa, eu não me engano.
- Dizendo isso, agarrou nas mãos da esposa apertando-as como que a pedir-lhe ajuda e, como ela o conhecia tão bem, sentiu aquele aperto de mão e, sorrindo, disse-lhe:
- Queres ajudá-los a encontrarem-se?
- Sim. – Respondeu ele. – Esse casmurro não vai falar com ela, não lhe vai mostrar o que sente por ela. A sua timidez não o deixa fazer isso, temos que fazer algo por eles.
- Deixa por minha conta. Amanhã já vou à escola e, como se fosse por acaso, eu falo com ela. – Dizendo isso, beijou o nariz ao marido, e rematou:
- Agora vai, ainda dão pela tua falta lá na academia.
Sérgio, beliscando o rosto da sua esposa, saiu sorrindo, gritando: - És um amor.
Assim que Luísa se encontrou sozinha, ficou pensativa e, diante dos seus olhos, passou um filme romântico. Ela já via o Pedro e a Maria saírem da Igreja, já casados. Luísa já via os seus filhotes brincarem com os filhotes dos seus amigos Pedro e Maria e a sua cabeça não mais descansou. Tinha que fazer algo por aqueles dois. - Mas espera Luísa. – Diz ela para si mesma. – Sabes se Maria ama o Pedro?
Ama sim, ela tem que amá-lo. – Dizia seu incorrigível coração romântico.
Ficou a pensar na melhor maneira de abordar Maria, como se fosse por acaso e, entre uma e outra artimanha que passava na sua mente, ia continuando os seus afazeres, pensando que de tarde, após o almoço, iria à escola. Ela até tinha que lá ir, pois sendo a contabilista da academia, tinha que lá ir buscar uns papéis.
Aproveitava e procurava Maria, porque não poderia passar esse dia sem a abordar e, ao pensar assim, sorriu, um sorriso maroto, como se já tivesse a certeza que sua obra iria ser realizada com êxito.
Entretanto, lá na academia, Maria continuava com as suas aulas e aos poucos ia conhecendo os colegas e estava feliz.
Todos eram agradáveis, todos tinham uma palavra meiga para ela, eles sabiam que Maria tinha chegado há dois dias do interior, porque o professor fez esse comentário na aula de apresentação e eles deduziram que ela estivesse só naquela cidade e sorriam-lhe como querendo dizer-lhe “não estas só, somos um grupo, somos como uma família”.
Maria comovia-se com aqueles sorrisos de carinho e sentia-se menos só. Sentia que o mundo não era tão ruim como ela estava imaginando.
A pensar nisso, saiu da sala de aula e a caminho do refeitório ela viu que, à sua frente, de costas e na mesma direcção, seguia um homem, cuja figura lhe chamou à atenção.
Sentiu algo estranho dentro de si. Reparou na sua maneira de andar, no seu cabelo e, batendo na sua testa, comentou consigo mesma: - Maria deixa de ser louca, vê o Pedro em tudo que se mexe. Ele estará bem longe daqui, sabe-se lá onde anda, não sonhes alto, acorda para a realidade.
- Fechou por segundos os olhos e sentiu mais uma vez essa dor dentro de si, mas reagiu e quando abriu os olhos, essa figura já não se avistava.
Maria pensou que tinha sido uma alucinação sua, só que Maria desconhecia que, no momento que fechou os olhos, essa figura olhou para trás e, vendo que era ela, escondeu-se atrás dum pilar para a ver passar sem ser notado.
Quando Maria passou perto dele, Pedro ficou paralisado. - Como ela está linda, meus Deus. – Comentou. – Como ela se transformou nesta mulher linda. Os seus olhos, o seu andar delicado, o seu cabelo tratado com carinho, parece uma rainha e eu não posso ser o seu rei… porquê…? Porquêeeeeeeeeee…??? – Gritou para dentro de si.
- Que fiz de errado para não merecer o seu amor? Quem fui eu para merecer tamanho castigo? Porque a amo ainda? Aindaaaaaaa? Eu amo-a mais do que nunca, disso eu sei agora, tens que ser minha Maria, tens que ser o meu amor, eu tenho tanto carinho, tanto amor, para te dar. Meu Deus não me castigues mais! – Gritou ele.
Com essas palavras seguiu para o exterior da academia. Já tinha perdido o apetite, ele não poderia comer no mesmo sítio que Maria, sem lhe falar, sem os seus olhos fixar. E, na sua mente, outro poema saiu.
Pedro sentiu que estava enlouquecendo de tanto amar essa mulher e não ter coragem de lhe dizer, não ter coragem de lutar contra a sua cobardia e imaginou que ela ia ser sua nessa noite fria de Janeiro.
Do seu peito soou um grito de dor, de desejo, de paixão, de amor incontrolado. E escreveu o poema:
Maria… Tu és a lua, que carrego dentro de mim
Sonho a dormir, sonho acordado
Não paro de pensar em ti
Fecho teus olhos, para tuas pálpebras beijar
Nesta fria e longa madrugada
Com carinho, com fervor
Preparo teu corpo, para poder amar,
Com carícias, com beijos, com amor
Libertamos todo o stress
Desses anos de solidão e de dor
Te amo, te delicio
Tua loucura se liberta,
Nossos anseios se conjugam
Nossos olhos se encontram
Nossos corpos rodopiam
De paixão, de prazer
De sentidos que arrepiam
Ao saírem essas palavras de dentro de si, Pedro assustou-se e não querendo acreditar no que a sua mente estava pensando, dirigiu-se a casa do seu amigo Sérgio, pois necessitava falar com alguém, senão endoidecia.
Como só às dezasseis horas é que ambos tinham a primeira aula da tarde, resolveu passar por lá, para falar com ele e com a meiga Luísa, já que ela tão bem o compreendia.
Pedro tinha sido seu padrinho de casamento, porque Luísa, tal como Maria, não tinha pais nem ninguém por perto, no dia de seu casamento e convidaram-no para ele representar seu pai nesse dia.
Pedro aceitou com emoção. Ele adorava aqueles seus dois amigos de peito e, embora nunca tivesse contado a Luísa a sua história, ele sabia que Sérgio há muito, lha havia contado.
Havia muita cumplicidade entre eles, muita confiança, muito amor e Sérgio jamais lhe esconderia uma coisa dessas e Pedro desconfiava disso, porque a Luísa, descarada como era, se nunca lhe perguntou o porquê de seu celibato, é porque sabia de algo. Com esse pensamento bateu à porta.
- Pedro, que bom ver-te por aqui. Entra, o Sérgio está na sala de jantar, vem que vou pôr um prato para ti na mesa.
- Não Luísa. – Disse o Pedro estendendo o rosto para a cumprimentar. – Só vim falar com vocês, preciso dum conselho, preciso de falar, senão rebento.
Luísa ficou sem fala. Que se passaria com Pedro para lhe falar nisso a ela. Ele que nunca se tinha aberto consigo. - Deves estar mesmo mal, meu amigo. – Replicou Luísa e, dizendo isso, abraçou-o e assim entraram na sala de jantar, onde Sérgio se encontrava a comer.
Luísa retirou-se, com o pretexto de ir buscar um prato para o Pedro, deixando-o assim iniciar o seu desabafo com o Sérgio.
Daria um pouco de tempo e só depois é que entraria, quando sentisse que seria a hora, pois ela sentia que Pedro vinha falar de Maria e assim foi. Quando chegou à sala com o prato e os talheres para Pedro, encontrou-o com as mãos na cabeça, a dizer: - Eu enlouqueço, ajudem-me, digam-me que devo fazer. – Dizendo isso agarrou nas mãos de Luísa e disse.
- Luísa, eu nunca te contei, mas eu amo muito uma mulher. Sérgio sabe há muitos anos da minha história, mas nunca tive coragem de ta contar. – Luísa na sua habitual inocência e sinceridade disse:
- Pedro, eu conheço-a, o meu marido já me contou e sei que ela está cá em Peniche, na academia.
Pedro sorriu e disse: – Estou a ver, este bisbilhoteiro não se calaria por nada deste mundo. – E seguiu suas palavras com uma pancadita nas costas de Sérgio. – Ainda bem, assim vai ser mais fácil falar convosco meus amigos!
Pedro falou das suas dúvidas, do seu amor por Maria, da sua cobardia em se aproximar dela, do momento em que a viu novamente e das tentações que teve em lhe falar, de a abraçar, de a raptar para bem longe de qualquer olhar, de sentir a certeza se era ou não amado por ela com a mesma intensidade.
Falou muito e, com um olhar turvo pela dor, com as mãos crispadas pelo desespero, com ansiedade de ouvir mais algum som que não fosse o da sua voz.
Mas naquela sala fez-me um silêncio fúnebre, Sérgio e Luísa nem pestanejavam, de tal maneira estáticos estavam, com as palavras que acabavam de ouvir.
Eles não queriam acreditar que no século XXI, ainda existisse alguém com essa capacidade de amar dessa forma, não só com os sentidos, mas com alma, com todas as partículas do seu corpo e esse alguém estava diante deles, desesperado, sem saber que fazer, numa espera angustiosa dum conselho amigo, duma palavra de esperança, ele queria ouvir o que seu coração pedia – Pedro amo-te – queria ouvir da boca de Maria, mas… os seus amigos não podiam pronunciar essas palavras.
Não sabiam qual o sentimento que Maria nutria por Pedro e Luísa com voz embargada pela emoção, levantou-se e disse: - Meu amigo, meu irmão. Como eu queria dizer que Maria te ama com a mesma intensidade que tu, mas… eu nem sei se ela te ama, eu nem a conheço, mas daria tudo para neste momento gritar bem alto nesta sala que a Maria te amaaaaaaaaaa, mas não o posso fazer, mas posso sim dizer bem alto, para ouvires, para entenderes…Vai… vai ter com ela, diz que a amas, não sufoques mais esse sentimento que tens dentro de ti.
- O que vier por acréscimo é sempre bom, porque perdê-la, já a terás perdido, se a recuperares será uma bênção para essa tua alma atormentada.
- Não posso Luísa, eu tenho medo dum não, ela já nem se deve lembrar de mim.
- Como podes afirmar umas coisas dessas? Replicou Sérgio.
- Já sei, não reages, reajo eu, não vais ter com ela? Muito bem, vou eu. – Dum salto, Luísa levantou-se da cadeira e, despindo devagar o seu avental, encaminhou-se para a porta, esperando uma reacção de Pedro…
- Espera Luísa, não faças isso, não disseste à pouco que tinhas que ir à academia?
- Sim vou e vou falar com a Maria – Abriu a gaveta do armário e, num gesto brusco, tirou de lá uns papéis e mostrou-os ao Pedro.
- Sabes o que é isto, Pedro?
- Sei. – Disse Pedro sorrindo. – Eu reconheceria esses papéis até de olhos fechados, só pelo simples toque. Esses são os meus poemas, alguns que o Sérgio esteve ontem a ler.
- Virando-se para o Sérgio perguntou-lhe: – Que estão fazendo na tua casa?
- Trouxe-os para mostrar à Luísa. Não resisti, ela tinha que ler essa beleza, não te zangues Pedro, nós só te queremos bem, nós só te queremos ajudar.
- Dizendo isso levantou-se da cadeira, pôs as mãos nos ombros do amigo e acrescentou: – Deixa-nos ajudar-te Pedro. Deixa-nos ser testemunhas da tua felicidade, deixa-nos sentir que tu és feliz, para nós o podermos ser também.
As suas últimas palavras já foram pronunciadas com a voz enrouquecida pela emoção, com lágrimas nos olhos.
Pedro era como um irmão para eles e nunca se tem vergonha de chorar diante dum irmão.
Sérgio chorou como uma criança abraçado ao amigo, um abraço de paz, de solidariedade e amizade, porque ele estava a sentir o sofrimento de Pedro. - Ok, ok, que pensam fazer? Digam de vez, não me deixem mais nesta expectativa, vá lá… Soltem essa língua.
- Sabes o que vou fazer? Vou agora conhecer a Maria. Vou procurá-la e levo comigo estes poemas, para o caso de precisar deles.
- Dizendo isso saiu porta fora, sem que desse tempo a Pedro de reclamar…

PARTE V
Luísa chegou à academia, entrou no gabinete, dirigiu-se à secretária do Costa e, com um sorriso, cumprimentou-o, sorriso esse que ele retribuiu, dizendo:
- Bom dia Luísa, que bons ventos te trazem por cá?
- Já não te lembras? Telefonas para minha casa, para vir buscar essas facturas, para vir buscar um livro e outros papéis e fazes essa pergunta! – Puxando duma cadeira sorrindo, sentou-se.
- Ai Luísa esta velhice, acreditas que já não me lembrava de ter telefonado? Só quando voltasse a pegar nos papéis, é que voltaria a lembrar-me.
- Disse coçando sua calvície. – Os cinquenta anos Luísinha… Quando lá chegares verás – Ambos deram uma gargalhada. O Costa levantou-se foi a um armário tirou de lá uma pasta e um livro e entregou-os à Luísa.
- Agora é contigo, sabes que contabilidade não é cá com o velhote. – Luísa agarrou neles e com um ar muito ingénuo indagou:
- Então conta lá Costa, gente nova por aqui ou não? Alguém que merecesse a tua atenção?
- Então, o teu marido não te disse? Entrou há dois dias uma miúda muito bonita, para o curso de mergulhadores, vinda do interior, só queria que a visses, uma mistura de anjo e sereia, tal a beleza dela, uma beleza selvagem, misturada com uma beleza celestial, feliz do homem que a levar.
- Então não é casada? Solteirinha. – Sorriu malicioso. – Se a minha Carla sabe que falo assim de outra mulher… Ai Costa, apareces morto na Costa…
Ambos deram uma gargalhada. E Luísa continuou a pesquisa. - Tenho que conhecê-la! Sabes onde ela está neste momento? Gostava de a ver, uma vez que ainda estamos na hora de almoço, chegava-me ao pé dela e via-a.
- Olha, tens sorte. Vi-a há pouco a caminho da praia, do lado das âncoras azuis, não sei que vê ela de especial nesse sítio, porque, à hora do almoço, lá vai ela a caminho das âncoras.
- Sabes, ontem fui espreitar e ali fica sentada até à hora das aulas, sozinha, pensativa, não tirando os olhos do mar, como se esperasse alguém vindo através dele.
- É estranha essa moça Luísa, gostava que falasses com ela, parece ser boa moça e um pouco solitária, fazes isso? Sabes que psicologia é contigo, a ti recorremos quando temos problemas com alguém, não sei que tens de especial miúda. – Sorriu.
- Está bem Costa. Até tenho a tarde livre, vou até lá, depois amanhã digo-te como foi. – Despedindo-se com um esticar de mãos, saiu.
Luísa saiu pelo portão que separava a academia da praia. Descalçou-se e foi em direcção às âncoras azuis, um local calmo, sereno, com um barco atracado na areia, pintado de verde e azul e com os dizeres “Academia de Mergulhadores”. É um local onde as ondas batem e estalam nas rochas.
Ao longe, um barco de pesca parado em alto mar, que ajudava em toda aquela beleza. Luísa ao apreciá-la pensou: – Só uma alma sensível se lembraria de vir para aqui.
E diz o Costa que não sabe o que tem este sítio de especial? – Abanou a cabeça e seguiu em frente em direcção a Maria. - Bom dia. – Disse Luísa estendendo a mão. – Sou a esposa do professor Sérgio aqui da Academia, julgo que seja uma das alunas.
- Bom dia. – Respondeu timidamente Maria. – Sim, sou uma das novas alunas da Academia. Prazer, chamo-me Maria.
- Posso sentar-me a apreciar esta beleza? Que me diz a este sítio? – E, para inspirar confiança… mentiu. – Sabe? Ainda hoje, venho para aqui namorar, pois é o nosso cantinho desde solteiros.
- Sim é lindo. Só estou aqui na academia há três dias e na hora do almoço venho aqui e aqui me perco nos meus pensamentos, a ver o mar, a sonhar.
- Desculpe, agora perdi-me a falar, parecia-me que já a conheço há muito e só nos vimos agora pela primeira vez e já estou pensando alto. – Disse timidamente.
- Olha Maria, posso tratar-te por tu? Somos quase da mesma idade pelo aspecto. Eu tenho trinta e dois anos.
- Sim podes, eu tenho menos um que tu. Sabes, encontro-me muito só aqui nesta tua cidade e falar alivia-me, liberta-me e há muito que não falo a sós com alguém.
- Desde o dia vinte e quatro de Dezembro, dia do casamento da minha prima e minha melhor amiga.
- Maria, também estou muito sozinha, só tenho meu marido, sem mais família, e moças da minha idade, poucas ou quase nenhumas.
- Com as que falo, são mulheres dos colegas do meu marido e é em dias de festas e pouco mais, por isso, bem vinda a bordo. – Estendeu a mão e apertou a de Maria que também lhe oferecia a sua.
Ambas sentiram que naquele momento tinha nascido uma bela amizade. Nenhuma delas sabia o porquê desse sentimento, mas sentiram as duas o mesmo e não ligaram a isso.
Ambas precisavam duma amiga. Luísa tinha a amizade do Pedro, mas ele era homem e uma mulher compreende melhor as necessidades, os anseios, as tristezas de outra e ficou feliz porque sentiu que podia confiar na Maria, assim como Maria sentiu que tinha ali diante de si uma segunda Joana e sorriu, com um ar feliz, um ar de paz, de tranquilidade.
Falaram de coisas banais durante a meia hora que faltava para as aulas começarem.
Maria despediu-se, dizendo que estava na hora de começar as suas aulas da tarde. - Maria que costumas fazer depois das aulas? Elas acabam as cinco e meia?! – Perguntou Luísa
- Nada de especial. – Disse Maria. – Ou venho até aqui um pouco, mas como a essa hora o frio faz-se sentir mais forte, estou aqui pouco tempo, ou vou directamente para o meu quarto ler até à hora do jantar.
- O meu marido hoje só sai as oito horas, porque tem uma reunião depois das aulas. Posso passar aqui à saída e vens conhecer a minha casa, lanchamos e fazemos companhia, uma à outra. – Propôs Luísa.
- Não quero incomodar, tu tens a tua vida, fica para outra ocasião. – Disse Maria envergonhada, mas desejosa de aceitar, porque a solidão estava a pesar muito no seu íntimo.
- Não senhora. – Replicou Luísa. – Fica combinado, ás cinco e meia, estou à porta da academia a tua espera.
- Dizendo isso, levantaram-se e entraram na academia, seguindo Maria para as aulas e Luísa para casa, trabalhar um pouco na contabilidade até as cinco e um quarto…
Enquanto Maria seguia sua vida entre a academia e seu quarto, lá longe, a sua tia Sofia pensava nela e doía-lhe olhar aqueles corredores e não ver Maria deambular por eles e sentia a sua falta.
Sentia falta daquele sorriso que, embora triste, era sempre meigo; daquela voz que tinha sempre um tom de carinho fosse para quem fosse e uma lágrima saiu de seus olhos e pensou: - Tenho que falar com meus filhos. Algum de nós tem que ir ver a Maria, saber se está bem. A sua voz não estava alegre quando ontem me telefonou.
Magicou uma maneira de resolver este assunto, até que uma ideia brilhante lhe passou pela cabeça. - Porque não Joana? Ela está em lua-de-mel no Algarve e, de regresso a casa, pode passar por Peniche para ver Maria… – E, sorrindo, dirigiu-se ao telefone para falar com Joana.
- Joana, filha, ontem falei com a Maria ao telefone e não me pareceu nada bem. Porque não passas por lá e a visitas?
- Sim mãe. – Disse sorrindo Joana – Eu e o Eduardo já tínhamos falado nisso ontem. Quando voltarmos para casa, passamos por lá e aproveitamos para ficar dois dias a fazer companhia à Maria. Ela vai ficar feliz mãe. – E, com a voz emocionada, continuou:
- Mãe, eu tenho tantas saudades da Maria. Ela pensará que, por eu me ter casado, não me preocupo com ela, mas não se passa assim, eu não queria que ela fosse para longe de nós. – Ao acabar essas palavras começou a chorar.
- Filha. – Replicou a mãe. – Não podíamos impedir a sua partida, ela não estava feliz. Maria pediu a minha compreensão, porque ela precisava de viver a sua vida, procurar a sua felicidade e eu, Joana, tinha que a libertar, embora com o coração pequenino, mas filha, a tua prima tem o direito de a procurar, como tu a procuraste e a encontraste, ela também a vai encontrar, minha alma de tia (mãe) sabe que isso vai acontecer.
- Eu pressinto que a felicidade de Maria está para breve, a sua felicidade está junto àquele mar, vamos torcer juntas para que isso aconteça. – Dizendo isso sorrindo, despediu-se da filha e desligou o telefone.
Sofia seguiu para as suas tarefas, mas sempre pensando em Maria, convencendo-se que algo estava mal. Ela não tinha por habito magicar e repensar assim numa pessoa e o seu pensamento estava direccionado para Maria, como uma obsessão e, como a sua inquietude a não deixava trabalhar, dirigiu-se para o quintal. - Quem sabe se, apanhando um pouco de ar, me passa esta maluqueira. – Pensou ela abrindo a porta da entrada, empurrando os seus passos para a direcção das flores.
- Bom dia vizinha Sofia. Que cara é essa? – Disse Manuel, o vizinho do lado, um rapaz da aldeia que era amigo de seus filhos e de Maria.
- Vê lá tu, Manel, que hoje acordei a pensar na Maria e estou preocupada com ela. Ontem falei com ela ao telefone e não me pareceu nada bem.
- Porque não vai visitá-la D. Sofia? – Perguntou Manuel.
- Não posso, como iria estar fora tantos dias? E os meus filhos?
- Olhe D. Sofia. – Disse sorrindo Manuel – Tenho a solução nas mãos, eu amanhã vou a Lisboa e, se quiser, levo-a até Peniche, deixo-a lá e de volta apanho-a e trago-a outra vez. Só vou por dois dias e que são dois dias? Até lhe ia fazer bem sair daqui. Pense nisso e logo dê-me uma resposta.
Tia Sofia, ficou a pensar na proposta do Manel e disse para si: - Porque não? Os meus filhos já são uns homens, Joana esta fora, porque não me distrair. Aproveito e descanso este meu coração que não está bem de tanta preocupação por Maria! – Se bem o pensou melhor o fez. Foi ao quarto, preparou umas peças de roupa, pegou na sua malinha e deixou-a pronta, pensando:
- Vou sim, vou ver a minha Maria. Aproveito e levo-lhe a sua fruta preferida, ela deve estar passando mal, ela sempre comeu tão pouco e agora sózinha ainda pior. – Ficou feliz e feliz seguiu para a loja da esquina fazer umas compritas para Maria.
Eram dezanove horas quando Manuel chegou a casa. Sofia ouviu o carro do seu vizinho e dirigiu-se à porta. - Manel!… Tens razão, vou aproveitar a tua boleia e vou ver a Maria. A que horas partes daqui? – Perguntou Sofia.
- Que bom D. Sofia. Vamos cedo. Vai ver que não se arrepende e em pouco tempo terá a sua Maria nos braços e vai ver que isso é apenas preocupação de Mãe, porque, D. Sofia, a senhora tem sido uma mãe para ela. – Disse Manuel sorrindo.
- Sim Manel, a Maria também é minha filha, minha filha de criação, amo-a como amo os meus filhos. – Disse Sofia com uma lagrimazita ao canto do olho, mas um sorriso de felicidade nos seus lábios.
- Então combinado D. Sofia, às seis da manhã esteja aqui em frente à sua casa e partimos. – Dizendo isso, despediu-se e entrou em casa.
À hora do jantar, Sofia comunicou a sua decisão aos filhos e eles deram-lhe todo o apoio.
Eles também estavam preocupados com a sua prima e o Jorge, o primo mais velho, levantou-se da mesa, foi ao seu quarto e, quando regressou, trazia umas quantas notas na mão, dizendo: - Mãe, dê este dinheiro à Maria, ela pode estar precisando e a mim ele não me está fazendo falta. A vida lá é muito cara e não quero que minha prima passe por dificuldades, até ela arranjar emprego, muito tem que gastar com o curso que está a tirar. – E feliz estendeu a mão à mãe que agarrou no dinheiro emocionada.
- Tenho os melhores filhos do mundo. Que quero eu mais da vida. – Agarrou-se a eles e apertou-os com força, com força de mãe, com a força que o amor permite dar.
Seis da manhã, tia Sofia já estava pronta à porta da sua casa esperando o vizinho Manuel. Estava ansiosa, de ver a sua Maria, de a abraçar, de saber como ela está e, tão absorta estava nos seus pensamentos, que não sentiu o vizinho chegar. - Bom dia D. Sofia. – Diz ele, sorrindo com o salto que ela deu.
- Nem te vi chegar – Disse tia Sofia sorrindo – Estava aqui nos meus pensamentos…
- Vamos? – Disse Manuel, pegando no saco de D. Sofia, colocando-o no carro e abrindo a porta para ela entrar.
Depois de aconchegados nos seus lugares, lá partem a caminho de Peniche e durante o caminho conversam muito, falam de tudo, da vida, dos filhos da tia Sofia, da namorada de Manuel e sem que dessem por isso chegaram a Peniche, três horas depois.
Manuel, antes de se retirar, levou a tia Sofia à academia para se certificar que ela estava entregue. - Bom rapaz este. – Pensa para consigo tia Sofia, entrando na academia. – Merece ser feliz, merece uma mulher que o ame e o respeite.
Bateu a uma porta que estava à entrada, porta essa que não era outra senão a do gabinete do Costa. - Bom dia senhor. – Disse Sofia.
- Bom dia senhora, deseja alguma coisa? – Pergunta o Costa muito gentil. – Em que posso ser útil?
- Sou a tia da Maria, a moça que veio do interior. Sabe-me dizer se ela se encontra aqui? É que não sei onde ela vive, se não tinha ido à casa dela. – Disse a tia Sofia.
- Sim senhora, a menina Maria está nas aulas. São onze da manhã e as aulas acabam ao meio dia, se a senhora não se importar de esperar eu levo-a à sala de reuniões, há lá uma televisão, ofereço-lhe um café e a senhora entretém-se esperando que Maria saia das aulas.
- Obrigada senhor. É gentileza sua, mas eu espero lá fora.
- De maneira nenhuma minha senhora, eu levo-a à sala, importa-se de me seguir!
Sofia estava admirada com a amabilidade daquele senhor e seguiu-o até à sala de reuniões.
Chegados lá, o Costa fê-la sentar-se, dirigiu-se ao bar que se encontrava no canto da sala, tirou uma café e ofereceu-o à tia Sofia, que agradeceu sorrindo.
Uma hora depois… Meio-dia e as aulas da manhã acabaram. Maria dirigia-se para o refeitório, quando o Costa a chamou. - Maria por favor, importas-te de chegar aqui?
- Sim, senhor Costa? Algum problema? – Indagou a Maria com o semblante preocupado.
- Não – Sorriu ele. – Nada de mal, pelo contrário, vais à sala de reuniões e tens lá uma surpresa.
- Uma surpresa, Sr. Costa? – Mais uma vez perguntou Maria. – Que surpresa?
- Maria, se eu te dissesse deixaria de ser surpresa. – Disse o Costa, empurrando-a carinhosamente.
Ele tinha aprendido a respeitar aquela rapariga, a sentir por ela um carinho que não tinha pelos restantes alunos. Maria parecia-lhe uma alma só, abandonada e ele pensou na sua filha e sentiu que poderia ser ela a estar no lugar de Maria e aprendeu a vê-la como uma filha a quem se quer só o bem.
Maria seguiu para a sala de reuniões. Ia para abrir a porta mas sentiu receio. - Que surpresa será essa Meu Deus? – Pergunta a si baixinho, pondo as mãos sobre o coração.
- Seja o que for, eu tenho que ser forte. Não o tenho sido ao longo desses anos todos? Porque não agora? – Decidida empurrou a porta, abrindo-a de par em par.
- Não, não. – Maria gaguejava. Ela não estava crendo no que estava a ver.
- Tia Sofia, tu aqui? Tia Sofia…
- Calma rapariga, sou eu sim, vem, chega aqui, dá um abraço à velhota. – Puxando a mão de Maria ainda trémula, agarrou-a e beijou-a muito, para matar todas as saudades dos dias que não a via.
- Tia Sofia, que bom estares aqui, como adivinhaste que eu precisava do teu abraço hoje? – Disse Maria beijando as faces da tia.
- Eu não adivinhei filha, eu conheço-te tão bem e a tristeza da tua voz ontem deixou-me preocupada. Telefonei à Joana para vir cá visitar-te quando viesse do Algarve, mas como o Manel, o nosso vizinho, vinha a Lisboa, eu não pensei duas vezes e vim com ele. Eu tinha que te ver Maria, estava tão preocupada contigo filha.
- Dizendo isso duas lágrimas soltaram-se de seus olhos já enrugados pela dureza da vida.
- Tia, eu estou bem, só estou triste, sinto-me sozinha, mas de saúde estou bem, mas vamos. Vou mostrar-te o meu quarto, deixas lá as tuas coisas, depois vamos almoçar e esta tarde não vou às aulas. – Disse Maria sorrindo.
- Esta tarde quero estar só contigo, temos tanto para falar. – Empurrou a tia docilmente para a saída, chegou à sala do Costa, bateu à porta e, conforme ia entrando, ia falando:
- Sr. Costa, esta tarde não venho às aulas, importa-se de avisar o professor Sérgio?
- Sim, Maria. Vai com a tua tia. Eu aviso-o. – Respondeu o Costa sorrindo para ela com carinho.
Chegaram ao quarto e Maria mostrou-o à tia. Pediu-lhe para pôr as coisas em cima duma cadeira e disse-lhe: - Esta noite vamos dormir aqui as duas, tia, como quando eu era pequenita e tinha medo. Lembras-te? – Sorriu…
- Sim Maria, não me esqueci dos teus catorze anos, a tua correria para o meu quarto cheia de medo. Mas isso já passou, não falamos em coisas tristes. Depois, logo quando nos deitarmos as duas, falamos, para recordarmos coisas boas.
Saíram do quarto abraçadas a rir, parecendo duas crianças felizes, porque suas almas estavam felizes, suas almas estavam nas nuvens, onde não há medos, nem solidão, mas sim um grande amor, uma grande cumplicidade e dirigiram-se ao restaurante onde Maria comeu pela primeira vez.
Sentaram e pediram a especialidade da casa. Durante toda a refeição falaram do passado e do presente. - Tia, agora vou mostrar-te o meu cantinho, o meu refúgio, onde passo a minha hora de almoço, onde sonho. Porque sabes que sou uma sonhadora incorrigível. – Disse Maria sorrindo.
- Se és Maria! A quem o dizes. – Replicou a tia Sofia abraçando a sobrinha. – Vamos lá então ver o teu refúgio.
Dirigiram-se à praia da âncora azul. As ondas batiam ferozmente nas rochas como a dar as boas vindas a Sofia.
O céu estava azul, sem uma única nuvem a escurecer aquele momento.
Maria sentou-se na areia, pegou na mão da tia e fê-la sentar-se a seu lado. Seu olhar brilhava de felicidade, sentia-se como nos seus oitos anos de idade, quando a sua mãe se sentava a seu lado na praia e a acarinhava, enquanto Maria, rebelde, deitava areia para suas pernas rindo de alegria.
Uma sombra passou por seus olhos fugazmente, mas logo se desvaneceu, ela estava feliz com a sua tia e nada iria estragar esse momento maravilhoso.
Nem a lembrança do Pedro a atormentou, porque Maria pensou: – Se Deus me deu hoje minha tia, porque não irá dar-me amanhã Pedro? – Pensando nisso um sorriso maroto apareceu nos seus lábios. - Maria, agora que estamos sós. – Disse a tia Sofia abrindo a sua mala. – Quero dar-te isto que o teu primo te mandou. – E puxando dum saco deu o dinheiro a Maria dizendo:
- Ele estava preocupado por não teres arranjado ainda emprego, aceita isto, filha. – Maria abriu o saco e viu muitas notas juntas e replicou:
- Tia, eu não preciso de dinheiro. Eu tenho gasto pouco e é certo que ainda não arranjei emprego, mas a tia sabe que, depois de tirar o meu curso de línguas, ainda sobrou dinheiro daquele que os meus pais me deixaram e ainda juntei mais com o que me sobrava do ordenado de todos estes anos de trabalho, não posso aceitar tia.
- Maria, por favor não faças essa desfeita ao teu primo, sabes que ele te ama como se fosses sua irmã mais velha, é compreensível a sua preocupação.
- Está bem tia, eu aceito-o, mas eu já estou procurando emprego e ontem passei por um Instituto de Inglês e vi que precisavam de uma professora para as aulas nocturnas, quem sabe se não recebo duas prendas num só dia? A tua presença e um emprego? – E sorriu feliz, esperançada, acrescentando: – Logo, vais lá comigo e se me aceitarem, vou ser a mulher mais feliz deste mundo por receber essa notícia na tua companhia minha mãe.
Tia Sofia emocionou-se ao ouvir aquelas palavras da boca da sua sobrinha. Nesses longos anos que Maria esteve consigo, jamais poderia imaginá-la a tratá-la por mãe e agarrou nas suas mãos e beijou-as com força, balbuciando: - Sim filha, eu vou contigo a esse instituto e, de seguida, vamos às compras. Quero ver-te bonita, com roupas novas, calçado novo, eu quero a minha menina como sempre foi, bem vestida e com um gosto característico da tua alma meiga.
Ainda estiveram mais uma hora na praia. Maria foi abrindo o seu coração de menina/mulher, confidenciando-lhe todas as suas amarguras em relação ao Pedro e a tia estava abismada.
Ela sabia que Maria, em tempos, tinha amado um rapaz, pois a sua Joana tinha-lhe contado, mas nunca pensou que esse amor durasse dezassete anos.
Agora ela compreendia toda a amargura da sua sobrinha. Aqueles olhos sempre tristes, com uma névoa sempre a encobri-los, essa névoa que não deixavam o seu azul brilhar.
Agora ela compreendia que Maria tinha que sair da sua gaiola dourada, procurar novos horizontes, nova vida, procurar o homem da sua vida e rezou a Deus para que Ele fosse generoso com sua alma, que a acalmasse, pondo-lhe nos seus braços o seu amor, o homem que sempre Maria amou.
Quatro horas da tarde. Maria olhou o relógio exclamando: - Tia, as horas passaram sem darmos por isso. Às dezassete horas tenho a entrevista, vamos senão chego atrasada. – Disse sorrindo e pegando na mão da sua tia para a ajudar a levantar-se.

PARTE VI
Seguiram caminho e ás dezasseis e cinquenta estavam a chegar à entrada do Instituto. Maria entrou, disse na portaria que tinha uma entrevista e encaminharam-na para falar com a directora.
- Boa tarde. – Disse Maria estendendo a mão à directora.
- Maria muito prazer, sou a directora deste Instituto. – Disse a senhora entendendo a mão também em direcção à de Maria.
- Então veio por causa da vaga que temos?
- Sim, mas há um problema, eu ando a tirar um curso durante o dia e só me dava jeito se pudesse ficar com as aulas da noite.
- Óptimo, Maria. – Replicou a directora – estávamos mesmo com dificuldades na vaga da noite, ninguém quis ficar com ela. Sabe, as aulas acabam às vinte e três e trinta, razão que desmotiva alguns professores. Sendo assim, depois de vermos o seu currículo e se nos agradar, pode considerar a vaga sua.
Maria nem queria acreditar no que estava a ouvir. - As coisas estão a correr-me bem demais. – Pensava Maria puxando da sua pasta e entregando uma cópia do seu currículo à directora.
Fez-se silêncio naquela sala. Maria estava observando a senhora à sua frente, nada lhe escapava, os seus gestos, o seu olhar a percorrer toda aquela papelada e ficou tensa, os músculos da sua cara estavam contraídos na expectativa da resposta da directora. - Bem. – Disse a directora, pondo as mãos em cima da mesa e fazendo silêncio após esse “bem”.
Maria logo pensou: – Não lhe agradou o meu currículo. - Maria…
Mais uma vez fez silêncio e os nervos de Maria estavam a ficar em franja, mas seu rosto nada demonstrou.
Esperou pacientemente pela negativa, porque era isso que neste momento, estava esperando, depois de tantos interregnos entre a leitura e suas palavras. - O lugar é seu. – Disse a directora sorrindo… – Gostei do seu trabalho, vejo que parece ser uma pessoa meiga, inteligente, pois vez alguma me interrompeu e eu propositadamente interrompi meu diálogo, à espera duma ansiedade sua. Sei que a teve, mas soube-se controlar, parabéns! Segunda-feira, pode começar a dar aulas, vem uma hora mais cedo para lhe mostrarmos o Instituto, uma vez que hoje não me é possível fazê-lo, pois dentro de meia hora tenho uma reunião. – Dizendo isso estendeu a mão mais uma vez para Maria, despedindo-se.
Maria saiu eufórica da sala da directora, seus passos pareciam eléctricos a dirigir-se para a entrada onde a sua tia a esperava. Chegando ao pé dela abraçou-a chorando. - Maria, que se passa? Não conseguiste o lugar? Deixa estar logo te aparecerá outro. – Disse sua tia agarrando-lhe o abraço e olhando-a nos olhos com carinho, limpando suas lágrimas ao mesmo tempo.
- Não tia, estás enganada, as minhas lágrimas são de felicidade, porque consegui o lugar. Segunda-feira já começo a trabalhar, a directora gostou de meu currículo e aceitou-me. – Dizendo isso, Maria sorriu de felicidade, pois ela já não estava habituada a sentir tantas boas emoções num só dia, daí suas lágrimas jorrarem sem as poder conter.
Foram as duas, como tinham combinado, para as compras e passou-se o resto do dia sem que nenhuma desse pelo passar das horas.
Estavam felizes, Maria por ter a tia a seu lado e por saber que segunda-feira já começava uma nova vida e a tia por ver que sua sobrinha estava começando a realizar os seus sonhos, porque ela acreditava no seu coração de “mãe”.
Acreditava que um dia Maria ainda haveria de ser feliz junto a um homem que ela amasse e, sentindo ela que só o seria com Pedro, desejava que Deus lhe concedesse esse desejo… Foi o último pensamento da tia Sofia antes de adormecer.
Nove horas da manhã. Pedro acordou e sentiu-se nostálgico e triste. Ele, que ontem tinha ido à Academia procurar ver Maria, procurando-a por todos os cantos, inclusive na praia, junto à âncora azul, porque Sérgio lhe tinha dito que era lá o seu refúgio e nada, nenhum sinal da Maria… - Que se passa? Porque não encontrei ontem Maria na escola? Estará doente? – Pensando nisso, sentiu seu coração pequenino, apertado. – Ela doente e eu sem poder fazer nada? Não, eu posso sim, eu devo-lhe isso.
Em sua memória, reviveu o dia em que ele estava atrás do balcão, ardendo em febre, sem forças no corpo. Nesse dia, em que Maria apareceu lá para fazer compras para a mãe e, vendo-o naquele estado, perguntou porque não ia para casa e ele lhe respondeu que não podia, porque seu pai tinha ido a Lisboa e não podiam fechar a loja, tendo Maria saído em silêncio, sem nada dizer, sem nada comprar.
Ficara a pensar o porquê de ela se ter ido embora, mas, cinco minutos depois, Maria apareceu com uma loção fria e uma toalha nas mãos e, fazendo-o sentar-se, começou a pôr-lhe compressas na testa. Depois, foi buscar um copo de água e fê-lo tomar um comprimido para baixar a febre.
O resto do dia, Maria já não o deixou atender ao balcão, ficando ela ali a atender com sua meiguice, com sua simpatia e Pedro sentado numa cadeira dando-lhe instruções onde estavam as coisas e qual o seu preço. - Pedro, depois disso, depois de te lembrares de tudo aquilo, ainda consegues ser cobarde? – Culpou-se a si mesmo e, pensando assim, dirigiu-se em direcção ao quarto de Maria, na rua atrás da Academia sem pensar nas consequências do seu gesto.
Ele não pensava o que iria dizer Maria assim que ela o visse. Ele só pensava que Maria estava doente e ele tinha que estar a seu lado, o que se passasse a seguir a Deus pertencia.
Mas… Ao chegar à esquina, viu Maria com a tia e ele reconheceu a senhora que ele culpou todos estes anos pela separação dos dois. Mas hoje, já homem feito, reconhecia que fora aquela senhora que fez de mãe de Maria. Que fora essa senhora que a educou, que fez dela a mulher que ela era hoje e olhando para as duas, afastou-se em direcção à praia com o seu coração já descansado.
Sua Maria estava bem, ela tinha faltado às aulas porque sua tia a tinha vindo visitar.
Entretanto, Maria e a tia saíram de casa para ir esperar Joana e o marido, que vinham nessa manhã do Algarve e faziam uma paragem em Peniche para ver a sua prima, matar as saudades que tinha dela, das suas conversas e dos seus conselhos.
Quando chegaram à praia avistaram o carro de Joana. Como a tia Sofia não sabia onde Maria morava, disse à filha que esperasse na praia às dez e trinta da manhã que ela avisaria Maria e assim foi.
Joana quando viu a prima na companhia da mãe nem queria acreditar, seu coração encheu-se de felicidade, pois já eram tantas as saudades que tinha das duas. Saiu do carro a correr e sem dizer palavra avançou para elas, abraçando-as com força, como se quisesse arrancar delas toda a ternura que ambas lhe deram aos longos desses anos todos em que viveu com elas.
Joana ainda era uma menininha. Apenas tinha completado há poucos meses os dezanove anos.
Era a mais nova da família e o seu rosto de menina deixou transparecer todo o mimo a que estava habituada a ter, tanto de Maria como de sua mãe.
O marido de Joana caminhava em direcção a elas. Seu olhar estava enternecido ao ver aquele quadro familiar. Como se sentia feliz ao ver a sua Joana com aquele ar de felicidade. Ele sabia que sua menina fora feliz naqueles dias de lua-de-mel, mas sabia também que, bem lá no fundo, ela sentia falta da sua mãe e, ainda mais, de Maria, pois haviam sido muitos anos de convívio, de afectividade, de desabafos e de conselhos.
Depois de todos se cumprimentarem, Maria propôs irem dar uma volta pelas praias de Peniche, pois ela também não conhecia aquela zona e aproveitava a presença da família para ir conhecer.
Chegaram à Praia da Consolação. Maria descalçou-se e, deitando os seus sapatos por terra, correu até à água. Nem aquele frio a fazia desistir dessa paixão de molhar os pés em cada mar que visse.
Molhou-os e, ao sentir a água na sua pele, um arrepio se apoderou dela e com esse arrepio a lembrança de Pedro veio à sua memória, esquecendo-se nesse momento que estava acompanhada e os seus pensamentos voaram para bem longe, para onde acaba o mar e começa a eternidade.
Já sentia que só voltaria a ver Pedro na eternidade, ela já não acreditava que algum dia pudesse voltar a cruzar-se com Pedro, que algum dia pudesse voltar a olhar nos seus olhos e dizer-lhe baixinho ao ouvido – Amo-te!
Olhou para a ilha que circunda Peniche e sonhou como seria bom estar nela sozinha com Pedro. Sentir a sua presença, sentir suas carícias, partilhar cumplicidades com ele, viver só para ele, viver na sua ilha, a ilha de ambos, a ilha que eles construíram com carinho, amor, partilha, com desabafos, carícias e com poemas lidos a viva voz por ele.
Uma ilha construída com o sonho da emoção, a emoção que ambos sentiam ao ouvirem-se, ao tocarem-se.
Um mundo deles, só deles, onde ninguém poderia penetrar, porque ninguém poderia compreender o seu amor puro, sem maculas, sem ciúmes.
Um amor feito de compreensão, de emoção, cheio de vida onde o tempo deixaria de ser tempo e passaria a ser um só minuto interminável, porque ambos sabiam que tinham todo o tempo do mundo para se amarem, para se verem, para se falarem, para se sentirem na integra. - Maria. – Chamou Joana, aproximando-se da prima, deixando seu marido com a mãe. – Maria. – Voltou a chamar, tocando-lhe suavemente no ombro para não a assustar, pois ela sabia que a prima estava bem longe nos seus sonhos.
Maria olhou para a prima e sorriu mas com uma expressão triste no rosto, que bem transparecia toda a amargura que a sua alma transportava. - Sonhando novamente prima? – Indagou Joana tristemente. Doía-lhe ver Maria naquele estado de sofrimento e, dizendo essas palavras, abraçou-a, fazendo-a encostar a sua cabeça no seu ombro e deixar correr as lágrimas que queriam esconder-se.
- Chora prima, chegou a minha vez de fazer de tua mãe. Eu sei que sou muito mais nova que tu, sei que foste tu que ajudaste minha mãe a criar-me. Enquanto ela ia trabalhar tu ficavas a tomar conta de mim sacrificando os teus estudos. Foste tu que fizeste de mim a mulher que sou hoje, a ti devo parte da minha felicidade e chegou a hora de eu te proteger minha prima.
Maria comoveu-se com aquelas palavras. Não aguentando mais, chorou no ombro da sua prima, dizendo palavras de desespero, deitando cá para fora toda a mágoa que lhe ia dentro do peito.
Lá longe, sentados no paredão, Eduardo e Sofia olhavam para elas, compreendo o que se estava a passar e esperaram pacientemente.
Ambos sabiam que as duas precisavam de estar juntas, ambos sabiam que Maria precisava do ombro de sua prima nesse momento. Entreolharam-se e Eduardo agarrou na mão da sogra para lhe dar força, sentiu que aquela cena lá em baixo, junto ao mar, fazia-lhe partir o coração, sabia o quanto Maria era importante para ela.
Por fim, Maria e Joana separaram-se. Sorriram uma para a outra e lá foram ao encontro de Eduardo e Sofia.
Quando chegaram perto deles a tia olhou-as e em silêncio deu a mão a Maria pedindo-lhe ajuda para se levantar, como se não se tivesse apercebido do que se tinha passado lá em baixo junto ao mar.
Joana olhou para o marido e, num gesto de cumplicidade, deu-lhe o braço e sorriu, sorriso a que ele correspondeu a dar apoio à sua acção de há pouco perante a prima.
Continuaram a visitar toda a zona balnear, fazendo comentários àquela beleza sem igual. Olharam para o relógio e viram que já eram dezasseis horas e tinham que começar a pensar onde iam jantar para depois, Eduardo e Joana seguirem viagem.
Pararam para escolher o local onde iam jantar ao mesmo tempo que Maria os convidava a ficarem em Peniche essa noite, para no dia seguinte ela poder usufruir da companhia de ambos.
Joana, com os olhitos brilhantes, pediu ao marido para aceitar a oferta de Maria. Eduardo, mais uma vez, não soube como recusar perante aqueles olhos melosos, que lhe suplicavam para ficar junto à prima e, sorrindo, disse: - Está bem, mas proponho uma coisa.
- O quê? – Três vozes se deixaram ouvir em uníssono.
- Vamos jantar à Nazaré, alugamos lá 2 quartos e pernoitamos por lá. Como não conheço a Nazaré e Joana também não, fazemos assim e, amanhã de manhã, levamos a Maria e a mãe a Peniche e seguimos para casa.
As três concordaram, dirigiram-se para o carro e foram para Nazaré. Durante o caminho iam apreciando como era linda a costa oeste, toda rodeada de mar.
Ao passarem por São Martinho do Porto, fizeram uma paragem para beberem um café e apreciar aquele mar calmo num dia de Inverno, aquela praia linda que fazia a delícia dos visitantes.
Seguiram viagem e às dezassete horas chegaram à Nazaré. Estacionaram o carro e foram procurar alojamento e qual o espanto dos quatro quando viram várias mulheres, com as suas saias rodadas, a oferecerem quartos para alugar, algumas com cartazes na mão a indicarem que os alugavam.
Entreolharam-se indagando-se mutuamente se valeria a pena aceitar esses quartos ou procurar uma residencial.
Maria, como já tinha ouvido falar nessas mulheres que alugavam quartos e que as casas eram boas e os quartos muito limpos, sugeriu que aceitassem o que todos concordaram e seguiram em direcção a uma que, vendo-os, logo se levantou perguntando se estavam interessados num.
Aceitaram a proposta e seguiram a mulher que todo o caminho ia falando muito e explicando que a Nazaré era uma das praias mais características da zona, porque ali ainda viviam do peixe, do aluguer dos quartos e do Turismo, o que tornava essa praia muito conhecida, não só pela sua beleza, mas também pelo comércio, um comércio muito próprio deles, os Nazarenos.
Chegaram a uma casa de rés-do-chão, pintada de branco e com uma entrada em madeira preta, o que fez com que estranhassem, tendo a nazarena explicado que assim a maresia, a humidade do mar, não se deixava notar com o passar dos anos, pois a casa ficava virada para o mar.
Entraram e depararam com uma casa com um grande corredor, iluminado com umas candeias de uma luz ténue e uma Nossa Senhora a ser iluminada por elas o que dava ao ambiente uma sensação de paz, de harmonia, pois essa penumbra fazia contraste com os olhos da imagem que estava iluminada parecendo que Nossa Senhora os abençoava com seus olhos logo à sua entrada.
Havia vários quartos com casas de banho privativas e, quem visse essa casinha do lado de fora, nunca diria que era tão grande por dentro, porque a sua extensão era sobre o comprimento o que dava a ideia, do lado de fora, duma casa pequena.
A mulher foi abrindo alguns dos quartos vagos e perguntou se desejavam o único que restava virado para o mar.
Maria sorriu, olhou a tia e pediu que ficassem com esse, tendo Joana concordado e na brincadeira comentou: - Claro, senhora. Então a nossa Maria do mar não iria ficar nesse virado para o mar?
- Maria do mar? – Indagou a senhora! – A Maria do Mar, sou eu. – Disse ela muito baralhada já com aquela conversa.
- Sério? Perguntou Joana. – A senhora chama-se Maria do Mar?
- Sim. – Respondeu a mulher.
- Sabe senhora, esse é o nome que desde miúda eu dou à minha prima, porque ela chama-se Maria e a paixão dela é o mar.
A mulher olhou para Maria e comovida comentou: - Que a Nossa Senhora a abençoe menina, sua paixão não está só no mar, está também na sua beleza e na cor dos seus olhos. Reparem como a cor dos olhos da menina são iguais ao da Senhora da Nazaré?! – Dizendo isso virou a sua cabeça para a imagem que estava no corredor, acrescentando essas palavras.
- Sua felicidade irá o mar trazer-lha menina, será junto ao mar que irá encontrar toda essa paixão que os seus olhos transbordam, será junto a ele que irá encontrar o amor de sua vida, se ainda não o encontrou. – Disse isso como uma premonição, com voz rouca da emoção.
Fez-se um silêncio fúnebre naquele quarto e todos os olhos se cruzaram com os de Maria, que não escondeu a tristeza que aquelas palavras lhe trouxeram ao seu coração dorido.

PARTE XIII
Quando lá chegou, mais uma vez, como num ritual, descalçou-se e ficou parada a olhar o mar. Estava obcecada com tantos sentimentos contraditórios, deixando-se ali estar por momentos a olhar o infinito do mar.
- Disseste-me um dia, que eras meu amigo, que te podia confidenciar os meus segredos e eu tenho sempre feito isso, que tens feito tu? Tens-me ajudado? – Pela primeira vez revoltou-se contra o mar, como se ele fosse um Deus que pudesse fazer com que ela se encontrasse.
Desviou a vista do mar e quando se ia sentar na areia deparou com uma toalha e um caderno ali poisados. Olhou para todo o lado e não viu ninguém. - Alguém se foi embora e esqueceu-se disto aqui. – Pensou e, num gesto de curiosidade, baixou-se, passou a vista pelo caderno que se encontrava fechado e, nesse momento, a curiosidade foi mais forte que a sua educação. Pegando no caderno desfolhou-o e…
- Meus Deus, não pode ser, este caderno pertence ao poeta. Esses poemas são dele, esta letra é igual aos outros poemas que li na casa de Luísa.
Sentiu um calafrio a percorrer-lhe o corpo, ao mesmo tempo que na sua testa umas gotas de suor começaram escorrendo. Sem saber o que fazia dirigiu-se ao mar, ainda com o caderno nas mãos.
Quando ia a passar pelo barco que estava atracado na areia, viu um homem de cabelos escuros, ondulados, de calça e camisa de ganga, sentado na areia com a cabeça entre as mãos como se estivesse rezando ou chorando.
Parou, ficou a olhá-lo, sem saber se havia de lhe falar ou seguir em frente, ainda sem se ter apercebido que nas suas mãos carregava o caderno dos poemas.
Estava para seguir em direcção ao mar, mas recuou e voltou para junto do homem. Enchendo-se de coragem falou: - Boa tarde senhor, aquela toalha e aquele caderno ali em cima são seus?
O homem sem levantar a cabeça e sem dela tirar as mãos, abanou-a num sinal afirmativo. - Desculpe, mas eu vi aquelas coisas e pensei que fosse de alguém que se tivesse esquecido delas ali.
O homem levantou a cabeça e apenas viu o seu caderno nas mãos de Maria. Sem olhar para o seu rosto, fez um sinal inquiridor. Maria seguiu o seu olhar e envergonhada disse: - Desculpe a minha curiosidade, não me contive e abri o seu caderno. Que poemas tão lindos… – E dizendo isso olhou para a cara que estava à sua frente e ouviu:
- Maria, és tu Maria? Não, eu estou sonhando, eu deveria ter adormecido e estou sonhando, não pode ser verdade.
Maria ouviu esse grito de desespero e olhou fixamente para o rosto que estava à sua frente. - Pedro, és tu? O Pedro da minha terra? És tu?
Entre ambos houve um silêncio, apenas cortado por seus nomes, saídos de ambas as bocas, ora o Pedro chamando pelo nome de Maria, ora Maria chamando pelo nome do Pedro, sem desviarem os olhos um do outro como se estivessem hipnotizados.
Maria emocionada deixou cair o caderno das mãos. Quando se baixava, encontrou o rosto do Pedro junto ao seu, pois havia feito o mesmo gesto, baixando-se para pegar no caderno que jazia no chão. Pedro não se conteve e, mais uma vez, agarrando seu rosto, chamou o seu nome. - Maria, tu aqui, a minha Maria. – Ficou com o rosto da Maria nas suas mãos, olhando para ele com as lágrimas nos olhos e a emoção na voz.
- Pedro, diz-me, quem escreveu estes poemas? Foste tu? E aquele que li na casa da minha amiga? E aquele que vinha com uma rosa que deixaram na minha casa? Foste tu o autor de todos esses poemas?
- Sim, Maria, são meus. Mas que estás a dizer? Já os lês-te? Que poema é esse que vinha com uma rosa?
- Para quem os escreveste Pedro? – Perguntou Maria como se não tivesse ouvido a pergunta.
- Para ti, Maria, a única mulher que amei em toda a minha vida, a mulher que conquistou o meu coração de adolescente e deu forças a este coração adulto para sobreviver sozinho. A mulher com que sonhei todos estes anos vir a ter nos meus braços, vir a ser feliz com ela e hoje estás aqui Maria, diz-me… – Um gritou rouco soltou-se de seu peito.
- Diz-me que não estou sonhando Maria, diz-me que és mesmo tu que está aqui à minha frente, olhando-me com esse azul mar que são os teus olhos.
- Pedro, sou eu sim, a Maria. Mas eu não acredito que ao fim destes anos de busca constante, de tanto sofrimento, tu estejas à minha frente, agarrando o meu rosto. – Dizendo isso, sentiu as suas forças fugirem-lhe e desmaiou, tendo Pedro reagido a tempo, amparando-a nos seus braços.
- Maria, acorda. Meu Deus, não me a tires agora que a encontrei. – O seu grito fez-se ouvir de tal maneira longe, que as ondas, como se atraídas pelo seu apelo, vieram em força, molhando os seus pés. Pedro molhou as mãos e passou-as pela testa de Maria que, com a emoção, estava ardendo.
Pedro continuava lutando para que Maria reagisse, para que Maria acordasse desse sono profundo, de emoções. Molhando as mãos, alternando-as, ora na água, ora na testa de Maria, enquanto gritava cada vez mais alto. - Maria não me deixes, eu quero-te junto a mim, por favor acorda, olha para mim, vê o meu desespero, abre os teus olhos.
Maria como que sentindo esse grito dentro do seu ser, abriu os olhos e viu Pedro debruçado sobre ela, chorando e gritando o seu nome. - Pedro, és tu? Não me enganes, eu sei que estou quase louca de tanto sofrimento, mas deixa-me acreditar que ao fim de todos estes anos, eu estou contigo. – Dizendo isso foi-se levantando devagarinho com a sua tez pálida, tendo os braços de Pedro para a segurar.
Pedro não a deixando levantar-se, pegou no seu rosto, aproximou sua boca da de Maria, encostou os lábios ao de leve e, não se contendo, beijou-a apaixonadamente, deixando-a sem respiração, fazendo-a sentir que estava voando sobre as ondas do seu mar querido. Só depois lhe respondeu: - Estás a sonhar Maria? Estás louca? Então eu quero para toda a vida essa tua loucura, porque sou eu o teu Pedro, que está aqui junto a ti. Foi esse teu Pedro que te beijou e que continuará a beijar-te para o resto da vida, porque não te vou deixar fugir pela segunda vez, meu amor.
Maria não respondeu. Sentou-se, aninhando-se nos braços de Pedro. Deitou a cabeça no seu peito, sentindo a sua respiração, o seu hálito, a sua pele ardendo, deixando-se estar assim sem se mexer, com medo que ao mexer-se o seu sonho terminasse e em vez dos braços de Pedro encontrasse apenas a areia fria da praia.
Fechou os olhos e deixou-se levar por aquele encanto que a fascinava, que envolvia os seus membros, os seus sentidos,
Apenas sabia que aquele momento era toda a sua vida, todos os seus sonhos acumulados nesse momento mágico. Vivia o encontro com o homem da sua vida, naquele momento em que o desespero estava tomando a sua alma, deixando-a já sem forças para continuar a sua busca.
Abriu os olhos com medo mais uma vez e viu o negro dos olhos de Pedro olhando para si.
Colocou as mãos no seu peito, para sentir o seu coração e sentiu que ele pulsava tão forte como o seu, enquanto ele mexia na sua longa cabeleira preta, levantava o seu rosto e beijava os seus olhos, que estavam cada vez mais azuis, o azul da emoção, da paixão, esse azul que fez Pedro sonhar uma vida inteira, não estando a acreditar que finalmente esses olhos o estavam fixando com meiguice, com amor. - Meu amor, agora conta-me lá essa história dos meus poemas e da rosa, porque não percebi se deliravas ou se estavas falando a realidade.
Maria contou-lhe a sua ida à casa de Luísa, da sua leitura e do poema que ficou na sua casa acompanhado com uma rosa.
Pedro ouviu essa história em silêncio e sorriu, porque nesse momento compreendeu o porquê de Luísa querer ficar com os seus poemas e, levantando os olhos aos céus, sussurrou: - Obrigado meu Deus, por teres posto em nosso caminho, essa amiga sincera. – Apertando Maria contra o seu peito, que ouviu a sua prece em silêncio, acrescentou:
- Eu sabia meu amor, que Luísa estava fazendo das suas. Ela tinha-me jurado que ia mostrar-te os poemas, mas eu não acreditei e felizmente que isso aconteceu.
Se não fosse essa amiga do coração, hoje não estávamos aqui, porque eu tenho vindo aqui todos os dias a ver se encontrava a surpresa que ela disse que me esperava e essa surpresa hoje apareceu.
Dizendo isso com os olhos brilhantes, beijou-a mais uma vez, tendo Maria reagido àquele beijo, correspondendo com toda a força do seu amor, do seu coração sedento desse amor acumulado durante dezassete anos.
Continuaram assim abraçados durante horas, falando das suas vidas e dos seus desencontros. Nem deram pelas horas passarem, até que fixaram o olhar num ponto no horizonte, brilhando como fogo. Desviaram a vista dele, olhando-se, dizendo Maria com voz emocionada: - Pedro, olha o pôr-do-sol, lindo, como abençoando o nosso encontro.
- Sim, Maria, o nosso Ponto no Horizonte. O nosso pôr-do-sol, o nosso guia, esse que nós víamos todos os dias, sem estarmos juntos, mas que hoje nos juntou.
- Vamos embora Pedro? Estou a ficar gelada. – Perguntou Maria com voz meiga, essa voz que Pedro nunca esqueceu, essa voz que o acompanhou toda a vida como uma melodia inesquecível.
Saíram da praia, descalços e de mãos entrelaçadas, pareciam dois adolescentes. De seus olhos irradiava uma luz que não era habitual em nenhum deles.
Ambos haviam sofrido muito durante esses anos de afastamento e hoje nem queriam acreditar que estavam ali os dois, sozinhos, eles e a paixão deles “o Mar”, de mãos juntas, de olhos colados um no outro, como se nada mais no mundo existisse para eles. - Maria escuta-me, eu já não te quero deixar. Tenho medo de acordar amanhã e sentir que te perdi novamente. Vamos jantar os dois, eu conheço um sítio lindo, uma casa acolhedora que é dum colega meu lá da Academia e o João arranja-nos uma mesinha isolada para nós ficarmos à vontade.
- A tasca do João? – Perguntou Maria sorrindo, lembrando-se daquela noite em que lá esteve com Luísa e com seus colegas.
- Sim. – Respondeu Pedro. – Já conheces?
- Conheço. Fui lá com a Luísa e os meus colegas quando mudei de casa.
Pedro sorriu. - Marotos, no dia que fui dar aulas à tua turma perguntei se alguém sabia o porquê da tua ausência e responderam-me que não sabiam.
- Pedro, vamos, mas temos que mudar de roupa.
- Fazemos assim, deixo-te em casa, vou vestir-me e depois passo por lá para te ir buscar.
Como tinham combinado, Maria ficou em casa, tomou um duche, vestiu-se e várias vezes foi ao espelho, ela queria estar bela naquela noite para os olhos de Pedro. Pensando isso sorriu de felicidade e beliscou-se para ver se estava sonhando ou não. - Deus, como é possível ser-se tão feliz em tão poucos dias? Ganhei uma mãe, três irmãos e hoje tu puseste o Pedro no meu caminho. Diz-me meu Deus, eu mereço tal felicidade?
Com tal pensamento, saiu do quarto e foi sentar-se na sala, acendendo um cigarro e deixou os seus pensamentos voarem até que ouviu a campainha da porta.
Foi abri-la e à sua frente estava Pedro, vestido com uma roupa desportiva, mas elegante. Maria ao olhá-lo pensou: - Este homem é meu? Pertence-me? Nem posso acreditar em tal coisa.
Enquanto Maria se perdia nos seus pensamentos, olhando-o fixamente, Pedro não desviava os seus olhos daqueles olhos azuis e pensava também: - Estou a sonhar? Estarei aqui à porta de Maria, falando-lhe, tocando-a e beijando-a? – E pensando no beijo, agarrou-a pela cintura e mesmo ali na porta beijou-a, primeiro com suavidade, depois com paixão, como se tivesse medo que ela lhe fugisse e não mais fosse tocar nesses lábios que tremiam ao sabor dos seus.
- Entra Pedro, vem conhecer o meu cantinho, quero que vejas a casa onde eu passo os meus dias quando não estou nas escolas.
Pedro olhou para tudo ao pormenor e gostou bastante da casa. Pegando-lhe no braço e com um sorrindo maroto disse-lhe: - Vamos jantar Maria, senão daqui a pouco já não saímos do teu cantinho e passa a ser o meu também. – Maria corou ligeiramente e nesse momento, Pedro teve a certeza que Maria seria a sua mulher, a sua companheira num futuro muito próximo.
Jantaram na tasca do João, num canto guardado para os namorados, que o Sr. João fazia questão em o manter num ambiente romântico, diferente do resto da sala.
Era um canto divido com suportes de verga, forrados de tecido azul, onde a meia-luz que vinha dos candeeiros de pé alto, com um abajur azul, que se encontravam junto a cada mesa, que eram quadradas, com toalhas azuis e cada uma, apenas com duas cadeiras com almofadas do mesmo tecido e cor das toalhas, tudo numa sintonia a condizer com as velas acesas, com uma música ambiente, música essa que ajudava a falarem mais abertamente.
Falaram muito e Maria contou toda a sua vida após ter saído da terra onde vivia com os pais adoptivos e quando chegou a altura de contar a sua história recente, quando soube que Sofia era sua mãe, as lágrimas correram-lhe pelo rosto abaixo. Mas arranjou coragem e contou tudo ao Pedro, não poderia esconder-lhe nada naquele momento mágico.
Pedro emocionou-se com a história de Maria, levantando a sua mão, passou-a pelos olhos de Maria, limpando-lhe uma lágrima e, ficando com ela nas suas mãos, olhou-a fixamente, ao mesmo tempo, que lhe dizia: - Não sofrerás mais meu amor, minha menina de olhos azuis, vou dedicar a minha vida a fazer-te feliz e aos nossos filhos.
Ficaram uns segundos de mãos dadas, olhos nos olhos, em silêncio, como se fosse pecado quebrarem essa magia. Mas Pedro olhou o relógio e exclamou. - Vinte e duas e trinta. Sabes amor onde gostaria de te levar agora? – Perguntando isso os seus olhos brilharam.
- Sim Pedro, onde eu gostaria de ir também, ela merece saber do nosso encontro.
Pedro olhou Maria com um olhar espantado perguntando: - Como sabes que era a casa de Luísa?
- Porque estamos em sintonia, meu amor e se hoje estamos juntos a mais ninguém o devemos. Disse sorrindo, fazendo uma carícia no rosto de Pedro, que aproveitando suas mãos no rosto as encostou a seus lábios, dando-lhe um beijo de devoção, de amor, de paixão.
Saíram da tasca do Sr. João, depois de lhe terem agradecido a noite agradável que ele lhes tinha proporcionado nesse recanto delicioso, que convidava a uma noite romântica.
Entraram no carro de Pedro e seguiram em direcção a casa de Luísa. Pararam frente à casa e viram a luz da sala acesa.
Olharam-se e sorriram, um sorriso de cumplicidade, de vergonha por terem que aparecer juntos em casa da amiga, mas ela merecia que eles ultrapassassem essa vergonha, ela precisava de saber do seu encontro.
Bateram à porta e Sérgio veio abrir e ficou mudo ao ver o seu amigo acompanhado de Maria. Não queria acreditar no que os seus olhos estavam vendo, mas reagiu, e em silêncio e com um sorriso maroto no canto dos lábios, fê-los entrar para a sala, onde Luísa descansava deitada no sofá. - Meu amigo, eu não acredito, tens que me contar o que se passou. Luísa vai delirar quando vos vir juntos. – Disse Sérgio a caminho da sala, emocionado por ver os olhos do seu amigo irradiarem tamanha felicidade, esses olhos, a que ele se habituou ao longo desses anos de amizade, a ver sempre tristes e nostálgicos.
- Viemos cá para isso Sérgio e para agradecer àquela marota, tudo o que ela fez por nós, sem ela não era possível eu e a Maria estarmos aqui hoje juntos na tua casa. – Disse Pedro, passando o braço por cima do ombro do seu amigo, dando-lhe uma palmada nas costas.
Maria ia à frente deles e Sérgio puxou Pedro para a cozinha, para ele lhe contar todos os pormenores sem ser à frente de Maria e ela estaria mais à vontade para falar sozinha com a Luísa. - Maria, que fazes aqui a estas horas? Aconteceu alguma coisa? – Disse Luísa levantando-se do sofá, com aspecto preocupado.
- Não Luísa, vim cá falar contigo com… – Virando a cabeça para trás sorriu ao ver que Pedro e Sérgio não estavam atrás de si, compreendendo que teriam ido para outro lugar da casa, para falarem à vontade.
- Maria, responde, estás com um ar que não é habitual em ti, uma luz nesse olhar que nunca vi e com… com quê? Porque paraste de falar? – Luísa estava a ficar preocupada com o ar enigmático da sua amiga.
Maria, calmamente, sentou-se no sofá ao lado de Luísa. Pegando na sua mão e, com uma voz carinhosa e cheia de emoção, agradeceu: - Obrigada minha amiga por me fazeres encontrar o meu poeta. – Dizendo isso sorriu.
- O teu poeta? Conheceste-o? Onde? E porque estás feliz? O amor que tinhas ao Pedro, que é feito dele? – Luísa já pensava que Maria tinha encontrado a pessoa errada e o seu semblante mostrou-se preocupado.
- Pedro? Que me importa o Pedro? Eu vi que amo esse poeta que escreveu os poemas que me mostraste e que me mandou aquele que deixaste lá em casa.
- Maria, pensa bem. – Luísa já sentia pena do seu amigo Pedro, que tanto amava aquela mulher que estava à sua frente e ela agora apaixonara-se pela pessoa errada, sabe-se lá quem e o porquê dele ter dito que esses poemas eram dele.
- Que se passa Luísa? – Maria estava perdida de riso, mas queria dar uma liçãozinha a essa marota que, apesar de ser ela a causadora da sua felicidade, a fez estar tantos dias na ignorância.
- Não pode ser Maria, conheceste a pessoa errada, o homem que escreveu aquele poema para ti, foi…
Quando ia falar no nome desse poeta, à entrada da sala estavam Pedro e Sérgio que, ouvindo a voz alterada de Luísa, foram ver o que se passava, tendo ambos ouvido a ultima frase. - Este aqui, minha amiga. – Disse Pedro com um sorriso nos lábios, correndo para a sua amiga, abraçando-a com força e dando-lhe um beijo no rosto, agradeceu, com voz emocionada:
- Obrigado minha amiga, devolveste-me a felicidade.
Luísa ficou sem fala, ora olhava para Maria, ora para Pedro, ora para Sérgio, para ver qual dos três lhe esclarecia o que se estava passando.
Sentou-se sem forças, mas aos poucos foi olhando para cada um e foi compreendendo e viu que Maria estava brincando com ela, numa espécie de vingançazinha de todo esse seu silêncio anterior.
Maria já com medo que toda aquela emoção fizesse mal à Luísa, devido ao seu estado, sentou-se ao seu lado e, em conjunto com Pedro, contou-lhe o seu passeio à praia, como se tinham encontrado e como se tinham reconhecido após dezassete anos de separação. - Maria, Pedro – Luísa estava emocionada ao pronunciar os seus nomes. – Como estou feliz! Eu sabia que ia conseguir juntá-los, mas, confesso, já estava a ficar desesperada com todos esses desencontros. – Dizendo isso, levantou-se do sofá, chamou Sérgio à cozinha e foram buscar uma garrafa de champanhe para comemorar esse encontro.
Ao ficarem a sós na sala, Pedro saiu do sofá onde estava e sentou-se ao lado de Maria. - Meu amor, como estou feliz. – Dizendo isso beijou-a mais uma vez, beijo esse que foi interrompido pela entrada do casal, que ficaram parados na entrada da sala com os olhos felizes ao verem os seus amigos finalmente juntos.
Maria corou ao vê-los, mas fingiu aproximando-se de Luísa tirando-lhe os copos da mão, fazendo-a sentar-se novamente. - Quero fazer dois brindes meus amigos. – Disse Sérgio. Abrindo a garrafa, continuou: – Um para a vossa felicidade e outro para a chegada dos meus gémeos.
- Gémeos? Como sabes? – Perguntou admirada Maria.
- Hoje senti-me indisposta e Sérgio levou-me ao médico, pois a viagem poderia ter-me feito mal. Fiz uma ecografia, para ver se estava tudo bem e, qual o nosso espanto, lá estavam os gémeos – Os meus bebés estão bem, Maria. – Disse Luísa muito feliz.
- E… – Sérgio interrompeu Luísa. – Nós queremos convidar-vos para padrinhos. Se for uma menina e um rapaz chamar-se-ão, ele, José Pedro, ela, Maria, é assim que vamos chamar à nossa Nina.
Maria olhou para o Pedro, que disfarçadamente tentava esconder uma lágrima no canto do olho, pela emoção de ter assim amigos tão sinceros, tão queridos. - Que silêncio. – Disse Luísa. – Não me digam que não aceitam o nosso convite?
- Claro que aceitamos Luísa, com muito prazer mesmo. – Disseram ambos em simultâneo. – Isso será o apogeu do acumular da nossa felicidade termos os Josenina no nosso colo a serem abençoados por Deus.
- Josenina. Só tu, Pedro, podias ter uma ideia dessas. Mas gostamos desse nome ao referirmos os dois, não é Sérgio? -Sérgio sorriu, abanando a cabeça num sinal afirmativo. Estava emocionado demais para articular qualquer palavra.
Pedro e Maria saíram da casa do Sérgio já passava da uma da manhã, mas, como ainda estavam de férias, no dia seguinte poderiam dormir mais um bocadinho. Pedro levou Maria a casa, mas antes, ainda passou pela praia pois, mais uma vez, eles queriam ver o mar.
Parou o carro frente ao mar e ficaram ali sentados de mãos dadas, olhando-se em silêncio, cada um nos seus pensamentos, não querendo acreditar que aquele dia fosse real.
Ambos tinham medo de regressar a casa e no dia seguinte acordarem e ver que tudo aquilo tinha sido um sonho das suas almas ansiosas. - Maria. – Falou finalmente Pedro, aproximando o seu rosto do dela. – Como eu te amo, como pude passar estes anos todos sem a tua presença, sem mergulhar em teus olhos? – Dizendo isso passou os dedos pelos olhos de Maria, fechando-os, aconchegando depois a sua boca à dela beijando-a muito suavemente, como se tivesse medo de feri-la.
Ainda estiveram junto ao mar dentro do carro, amando-se, durante uma hora, até que Pedro a levou a casa.
Beijou-a mais uma vez à despedida dizendo baixinho: - Amo-te, minha menina.
Mimo esse a que Maria retribuiu, também baixinho ao seu ouvido: - Também te amo muito, Pedro. – Saindo de seguida do carro a sorrir e acenando a mão de despedida.
Pedro ainda ficou ali a olhá-la a entrar no prédio, não queria ir-se embora, tinha medo de a perder novamente. - Não penses assim Pedro. Já não a perdes nunca mais, porque ela é tua, assim como tu és dela. – Disse a voz do seu subconsciente.
Pedro a sorrir arrancou com o carro, indo com a cabeça e os pensamentos nas nuvens. Estava feliz demais, havia tantos anos que não sentia essa felicidade, que tudo aquilo lhe parecia ser uma mentira, um sonho…

PARTE XIV
Passaram-se três meses, após o encontro dos dois. Nesses três meses viverem intensa felicidade, todos os dias se viam, todos os dias se amavam, mas um dia, Pedro sentindo-se sozinho em casa, decidiu pedir Maria em casamento.
Já nada significava ficarem separados todas as noites, porque o seu amor estava sólido, tinha bases, a base do sofrimento que sucedeu após a partida de Maria da terra e hoje solidificado com o encontro dos dois, por isso, que faziam separados? Se podiam ser felizes os dois juntos?
Sábado à tarde, Pedro telefonou a Maria e pediu-lhe para vestir a mesma roupa que vestia no dia em que se encontraram na praia e que o esperasse junto à âncora, pois ele iria lá ter.
Maria estranhou por Pedro não a ir buscar, mas, como sempre, a descrição foi a sua arma e concordou. Às quinze horas saiu de casa em direcção à praia.
Eram dezasseis horas e Pedro sem chegar. Maria estava a ficar desesperada.
- Que se passa, meu Deus? Que é feito do Pedro? Sempre tão pontual, aconteceu algo. – Disse chorando, já sem se conter.
Estava com o rosto entre as mãos, chorando baixinho, apenas deixando as lágrimas rolarem por ele, quando sentiu umas mãos apoiadas nos seus ombros. - Que se passa meu amor? – Perguntou Pedro.
- Pedro… Que se passou? Aconteceu-te alguma coisa? Que cara é essa? Diz-me por favor. – Um grito rouco de preocupação saiu de sua garganta.
Pedro sorriu e tirando a mão que escondia atrás das costas, apareceu com um papel e uma caixa. - Maria toma, foi isso que me aconteceu. – Dizendo isso deu-lhe a folha à mão.
- Que é isto Pedro? Que significa este papel? – Perguntou espantada.
- Olha para ele. Comprei o teu apartamento à tua senhoria. – E estendendo a mão que continha a caixa, abriu-a devagar, dizendo:
- E este é o anel que vai fazer de ti minha mulher, meu amor, se me disseres sim! – Pegando no dedo de Maria, esticou-o e enfiou nele um lindo anel, um solitário. Acompanhou o gesto com estas palavras: – Quero que cases comigo, minha Maria.
- Pedro! – Apenas conseguiu dizer.
- Maria, faz hoje três meses que nos encontrámos neste lugar. Será este lugar a testemunha do nosso amor e por isso era aqui que te queria pedir em casamento, olhando para ti, tal como te vi após dezassete anos de afastamento, descalça, com esse fato de treino, branco e azul, olhando os teus olhos a fazerem inveja ao mar. Eu amo-te Maria, nada mais me faz ficar afastado de ti.
Maria abraçou Pedro e, após um silêncio prolongado, pronunciou: - Sim Pedro, quero ser tua esposa, não consigo viver mais tempo longe de ti. – Palavras, essas seladas com um beijo longo, apaixonado, como só eles o conheciam.
Um mês depois Maria levou Pedro à Covilhã para ele conhecer a sua família e participar-lhes o casamento, que teria lugar dentro de um mês, numa cerimónia simples, tendo apenas Luísa e Sérgio como padrinhos e a família de Maria a assistir.
Sofia não cabia em si de contente ao ver a sua menina com os olhos a irradiarem de felicidade. O seu sonho estava-se realizando, ter os seus filhos todos felizes, sem mágoas nos seus corações, sem dor, apenas paz e luz.
Depois de saírem da Covilhã, Maria e Pedro, foram à casa do Sérgio e Luísa para os convidar para padrinhos do seu casamento, o que eles aceitaram com alegria, mas…
-Não vai ninguém ao teu casamento Pedro? – Perguntou Luísa. - Não. Queremos uma cerimónia simples, só vocês os dois e a família de Maria.
Luísa calou-se, mas a sua cabeça começou a magicar. - Não, não posso deixar em branco um amor como o deles, já sei!.. – Pensou batendo a mão na testa.
- Que foi Luísa? – Perguntou Maria, que já conhecia essa expressão na Luísa quando algo estava tramando.
- Nada Maria. Lembrei-me que tinha que comprar uma roupa bonita para o teu casamento. – E sorriu malandra.
Maria não acreditou nessa história, mas sabia que dali já nada levava e não insistiu mais.
Luísa sabia que contando ao Costa, era o mesmo que contar a toda a Academia e no dia seguinte foi lá ter com ele, como se fosse tratar de trabalho. - Bom dia Costa, vim trazer estes documentos. – Disse sentando-se e continuou. – Esta barriga já me vai pesando, não posso estar muito tempo de pé. – Sorriu.
- Como tens passado menina? Esses bebés portam-se bem? – Perguntou Costa sorrindo.
- Sim, são uns anjinhos. Mas, mudando de assunto, lembrei-me agora de uma coisa.
Contou ao Costa a história de Maria e de Pedro, de como eles se conheceram em crianças, como a vida os separou e como a mesma os voltou a juntar, dezassete anos depois.
Costa ouviu tudo aquilo emocionado e mais emocionado ficou ao saber que Maria e Pedro se iam casar dali a um mês.
Como compreendendo a ideia de Luísa, o Costa propôs: - Que dizes Luísa de organizarmos uma festa no dia do casamento? Sabes que esta Academia funciona como uma família, juntávamo-nos todos e fazíamos uma festa aos pombinhos.
Luísa ficou radiante com a ideia, pois que coincidia com a sua. Ficaram a combinar alguns pormenores e o Costa depois faria o resto, assim como avisar os restantes elementos da Academia.
Chegou o dia do casamento. Maria entrou na Igreja, vestida de noiva, com um vestido simples, branco, sem véu, com os seus lindos cabelos soltos, caindo em cascata pelos ombros, uns brincos de pérola muito pequeninos a condizer com o colar de pérolas, muito discreto também.
Estava linda e Pedro, que já a esperava no altar, olhava para ela, de braço dado com o seu irmão, imaginando que estava a ver uma deusa caminhando ao seu encontro.
Estava tão absorta olhando para Pedro, o seu amor, que só quando ia a meio da Igreja é que viu que ela estava repleta de gente.
Olhou para um lado, olhou para outro e só viu rostos conhecidos, olhando-a com ar feliz e, nesses rostos, ela reconheceu os seus colegas e os seus professores da Academia.
Parou, mas Jorge puxou-a docemente a caminho do altar, dizendo: - Anda maninha, isto é a prova de como tu és querida por toda a gente, anda o Pedro espera-te. – Jorge já sabia o que se ia passar, Luísa tinha-lhe contado a surpresa que iriam fazer a Pedro e Maria.
A cerimónia foi linda. O Padre falou de amor, de felicidade e de como é preciso saber sofrer para se conseguir obter o desejado na vida.
Após a cerimónia, Maria e Pedro, sem se aperceberem, foram empurrados para dentro dum carro que os levou à tasca do João, que nesse dia foi pequena para tantos amigos e para tanta alegria.
Ás vinte horas, o director da Academia dirigiu-se ao Pedro, entregando-lhe uma chave e dizendo: - Aqui tens Pedro a chave do veleiro da Academia para a tua lua-de-mel. É a prenda da Academia para ti, meu companheiro e amigo. – Dizendo isso abraçou-o fortemente. – Sê feliz, meu amigo, tu mereces essa felicidade.
Pedro, sem nada dizer aos restantes, apenas Sofia e Luísa sabiam, pegou em Maria e, sorrateiramente, saíram pelas traseiras. Foram para o veleiro, tendo Pedro no caminho contado a Maria a oferta dos amigos da Academia. Maria pensou estar sonhando, casada com Pedro e com uma lua-de-mel em pleno alto mar. - Meu amor, isso é o culminar da nossa felicidade.
À meia-noite o mar, como que para saudá-los, batia forte. Pedro e Maria abraçados no convés, olhavam a lua, que nesse dia estava grande, sorridente, brilhante e cheia como que reflectindo a alegria que ia nos seus corações e no céu viram um ponto brilhando. Pedro abraçou Maria, fazendo-a olhar esse ponto luminoso. - Meu amor, olha aquele ponto no horizonte, que tanto brilha, a olhar para nós.
- É uma estrela Pedro! – Disse Maria fixando-a com os olhos húmidos da emoção que tomava conta dela nesse momento.
- A nossa estrela, amor, ela vai iluminar os nossos dias. A nossa estrela. – Repetiu Pedro apertando-a contra si. – Amo-te minha Maria do Mar. – Dizendo isso, e sem ambos tirarem os olhos desse ponto que os guiava, beijou-a terna e meigamente.
FIM
Bete Mota

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